Tá bom, então se eu for religioso…

Já tem uns dois anos que não falo sobre a minha visão de religiosidade. Tá na hora de falar de novo, até porque acho que algumas coisas mudaram.

Você já parou para pensar em religião, religiosidade, misticismo etc.?

Isso sempre teve um papel importante na minha vida.

Aos quatro ou cinco anos eu já pensava nessas coisas, aos oito tinha medo de morrer, aos onze me batizei católico e aproveitei para ler a Bíblia. Aos vinte e sete já havia percebido que Deus, se existe, não gosta de interferir na vida dos outros. Aos trinta e cinco fui ficando cada vez mais “ateu”.

Hoje em dia tento resumir tudo dizendo que sou ateu em relação aos deuses humanos pois acho que eles não tem nada a ver com deuses de verdade e que sou agnóstico em relação aos deuses de verdade pois não vejo como poderíamos tentar saber algo sobre eles.

Em outras palavras: eu não sei e não acho que ninguém saiba algo sobre Deus ou os Deuses.

É como Fernando Pessoa que escreveu (assinando Alberto Caeiro)

Capa do livro O Eu Profundo e outros Eus
Foi aqui que li. Compre na cultura

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.

Sou místico, mas só com o corpo.

A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.

É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.

Vivo no cimo dum outeiro

Numa casa caiada e sozinha,

E essa é a minha definição.

Só que muita gente não acredita e “Ah! Mas todo mundo precisa acreditar em alguma coisa” é uma das frases que eu mais ouço em papos que envolvam o questionamento religioso.

Olha… Não tem não 😉

Acho até que a maioria das pessoas não acredita mesmo em Deus, só escolhe um que lhe dê uma certa tranquilidade para não pirar pensando no Universo em que vivemos, mas isso é história para outro post.

Então, como eu não sou um ateu e nem um agnóstico de berço, como eu já acreditei, e muito, em deuses e outros seres sobrenaturais…

Isso me lembra de uma fala do Neil deGrasse Tyson que me fez pensar de outro jeito.

A gente sabe que, quanto mais acesso as pessoas tem ao conhecimento, mais elas tendem a não acreditar no chamado Deus pessoal, ou seja, um ser que nos conhece, que olha para cada um de nós.

Entre as pessoas em geral mais de noventa por cento acreditam nele. Ente os principais cientistas do planeta são apenas sete por cento, é 7%… Mas… Não deveria ser zero? 😉

Se mesmo as pessoas mais cultas, informadas e brilhantes do planeta tem um impulso para acreditar em deuses então deve ter algo em nós que nos leva a isso (também assunto para outro post, talvez no Meme de Carbono) e não adianta tentar negar: uma parte de mim acredita ou quer acreditar em algo sobrenatural.

Aqui está a fala do Tyson:

Então vamos lá: se eu tivesse uma religião, ou melhor, se eu tenho uma religião qual será?

E digo religião mesmo, com dogmas etc. só sem a parte institucional, uma religião como a Wicca ou o Taoismo em sua essência.

O problema das religiões que afasta muita gente delas é que elas não estão em busca de Deus. Elas partem de um pré-conceito do que Deus deve ser e depois procuram argumentos para provar isso.

Minha religião seria… Aliás, ela é o seguinte: tentar entender como as coisas funcionam e, um dia, encontrar algo diferente, algo com consciência talvez, ou algo que nem se encaixa no que entendemos por consciência, e perceber que aquilo de alguma forma influencia ou influenciou a formação do Cosmos.

Eu falei que teria dogmas como toda religião, e tem: a certeza de que há algo mais no Universo além de matéria e energia sem espírito, que o Universo existe por uma razão, nós apenas ainda não temos como percebê-la.

O terceiro dogma seria “nada é inquestionável”. Tudo deve ser posto em dúvida pois essa é a única forma de eliminar o que é falso e ir sempre um passo à frente para entender como o Universo funciona.

É um tipo de cientificismo ou pelo menos parece com um, mas creio que nele não há uma noção de que a religiosidade ou o misticismo são mais do que ilusões ou fraquezas humanas e no que estou tentando descrever haverá algo.

Há ramos filosóficos e místicos com princípios semelhantes: a verdade está além da nossa capacidade. O Taoismo por exemplo é assim.

E de que vale uma religião que não é centrada na busca de um lugar especial para nós?

Ora, se queremos realmente ter um lugar especial no Cosmos, temos que perceber nosso papel real dentro dele. Essa é uma das poucas formas de irmos além do nosso pálido ponto azul perdido na vastidão de 100 bilhões de galáxias.

Imagem: Wikipedia