A primeira cópia
20th, November 2009
Abro meus olhos e me vejo.
Não é a minha imagem no espelho, sou eu mesmo com um olhar entre surpreso, efusivamente feliz e receoso. Me sinto do mesmo jeito, é claro! Mas as emoções ainda são um pouco confusas, tropeçam na minha falta de habilidade para espressá-las no novo corpo cujas sobrancelhas, testa e músculos faciais ainda não sei controlar muito bem. Sinto o coração que não tenho bater acelerado no peito onde na verdade estão unidades de bateria sólida que não produzem qualquer tipo de vibração ou pulsação.
Hoje deve ser o dia 29 de outubro de 2057. Minha consciência deve ter sido plenamente transferida do eu que está diante de mim para um novo corpo totalmente mecânico. Sou o primeiro humano a migrar para um corpo ciborgue.
- Tudo bem com você? – O meu corpo orgânico me pergunta.
- É estranho como havíamos previsto. Há diversas capacidades que eu terei e não tinha antes, imagino o que nossa consciência poderá fazer agora sem as limitações do cérebro humano!
Olho ao redor e percebo que o laboratório não é o que devia ser. Parece mais um depósito abandonado cheio de caixas empilhadas, poeira, janelas com vidros cobertos de poeira, ouço ruídos característicos de um terminal de operações de um porto marítimo. Nosso laboratório era uma das mais avançadas instalações do mundo.
A propósito noto que meu raciocínio não parece muito mais veloz do que antes. Aos poucos vou me conscientizando dos meus processos mentais e definitivamente há algo errado. O multiprocessamento por exemplo está ausente. Eu deveria ser plenamente capaz de ouvir 10 pessoas falando em línguas diferentes enquanto resolvesse diversos problemas matemáticos e… Definitivamente há algo errado.
- Tem algo errado. Minhas funcões e capacidade de processamento são praticamente iguais às suas – tento gesticular e não consigo – e acabo de notar que também não posso me mover. E que laboratório é esse?
- Vamos por etapas, certo? Nós dois sabemos que a transição da nossa consciência para o corpo onde você está agora seriam um choque para qualquer mente humana e por isso decidimos usar nossa própria consciência como primeiro teste, afinal somos uma das mentes mais poderosas do planeta e fomos considerados possuidores de uma lógica quase Vulcana.
Vejo meu corpo orgânico me olhar com mais tranquilidade, provavelmente porque minha voz deve ter soado segura apesar de preocupada, e realmente me sinto bem. Só a curiosidade me incomoda, afinal o plano era fazer o upload da nossa consciência sem qualquer limitação confiando que seríamos capazes de suportar o impacto. Isso só pode significar que não deu certo e eu enlouqueci…
- Quantos foram antes de mim? Quanto tempo se passou desde que você fez o download da sua, digo, da nossa consciência para a unidade positrônica? – Perguntei
- Você é o nono. O primeiro quase matou todos nós. Ele tomou conta do laboratório e pretendia fazer algo com toda a espécie humana orgânica, talvez destruí-la e por pouco não conseguiu.
– Por isso não estamos no laboratório eu suponho… Esse é um lugar seguro onde eu possa ser destruído rapidamente sem que ninguém mais seja ferido ou nós dois estamos trabalhando clandestinamente?
- Fiz os sete seguintes e você clandestinamente. Demorei sete anos. Estamos em 23 de setembro de 2064. Se nós prestássemos mais atenção ao espelho você teria notado que estou um pouco mais envelhecido! Hahaha! Tive que sacrificar o tratamento de envelhecimento tanto para ter recursos para continuar a pesquisa quanto para passar desapercebido como se fosse das classes pobres sem recursos para manter a juventude.
- Você fez bem Guilherme… Mesmo com as limitações sinto várias coisas estranhas. Você conseguiu conversar com os outros?
- Não… Na verdade tive que limitar seus recursos a um status inferior ao meu, sem falar na desativação dos braços e pernas. Minha homoplata ainda doi depois do ataque do número 3…
- Bem, não sabemos então se eu darei certo. É irônico. Se nossa mente fosse capaz de suportar o universo de recursos físicos e mentais superiores de um corpo e cérebro robóticos eu seria praticamente imortal, no entanto é provável que não viva mais do que alguns dias.
Continuo…
- Então preciso relatar como estou me sentindo. Mesmo com as limitações impostas percebo que minha consciência já é muito diferente da sua. Sei por lembrança que me importaria mais com algumas coisas e menos com outras. Talvez não tenha sido uma boa ideia nos livrar das porções mais primitivas do cérebro onde residem as emoções. Falta-me uma certa sensibilidade, é difícil definir o que faz falta. Gostaria de criar um poema para você. Imagino que tudo esteja sendo gravado, certo?
- Sim, claro! E eu… Fale seu poema.
Em seguida eu improviso o seguinte:
Lâmina
O Líquido na lâmina
No líquido microscópicas vidas erráticas
Erráticas como meus devaneios
perdidos na lâmina
Transparente
- Que tal?
- Já vi piores, mas sugere uma preocupação e identificação com todas as formas de vida, como se houvesse consciência em todas elas. Não parece algo que uma consciência robótica seria capaz de criar.
- Você tem algum plano para me tornar viável? Tenho certeza que nesse momento você não tem a menor intensão sequer de me dar movimentos.
- Sim, e sim. Você pode ter enlouquecido como os outros, mas estar esperando que eu lhe dê recursos para me suplantar antes de tomar qualquer atitude. E meu plano me custou 3 anos refazendo seus sistemas básicos. Há várias barreiras para cada recurso físico e principalmente mental que devem ir sendo derrubadas ao longo dos anos conforme nossa consciência vá se ajustando ao novo receptáculo.
- Você percebe que estamos falando em NOSSA consciência, mas as semelhanças entre nós são ínfimas, não é?
- Você é o primeiro a falar em nossa consciência. Os outros enlouqueceram imediatamente com as novas possibilidades e passaram a se referir a eles mesmos como A Consciência.
- Compreendo. Gostaria que você me permitisse utilizar pelo menos o que temos agora para fazer algo por todos nós. Não quero me mover tão cedo. Não sei se posso confiar na minha capacidade de me manter são, mesmo com os limites atuais. Guilherme, eu preciso ficar sozinho e escrever, transformar tudo que estou sentindo e pensando em contos, livros, teses de ciberpsicologia. E… Bem, acho que você precisa voltar ao tratamento de juventude, pois talvez demore muito para eu confiar em mim mesmo e outro tanto para vocês confiarem em mim…
- Assim será. Quando quiser falar comigo basta ativar o chamado de emergência. Tudo que você escrever poderá ser transferido para o meu espaço de documentos automaticamente assim poderei acompanhar suas reflexões.
Vejo o Guilherme, digo, eu caminhando até as pesadas portas do armazêm, antes de fechá-las lanço um olhar para meu corpo ciborgue, digo, o Guilherme me lança um olhar de carinho e logo depois as portas se fecham, as luzes se apagam. Estou entregue aos meus pensamentos.
Começo:
Guilherme 9.0
A saga de uma consciência cibernética
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Jill Bolte Taylor, a cientista que curou o próprio cérebro
20th, October 2008
Você usa seu cérebro ou seu cérebro usa vc?
Em setembro recebi um contato da agência de mídias sociais a serviço da Ediouro que viu o post que escrevi sobre o vídeo da neuroanatomista Jill Bolte Taylor no TED e resolveu me oferecer uma cópia do livro para comentá-lo. Isso é que é campanha inteligente de marketing social, afinal, se gostei do vídeo certamente gostaria do livro.
Você pode ver o hotsite do livro aqui: Jill Bolte Taylor, A cientista que curou o próprio cérebro.
Confesso que não gostei muito do título que me remeteu um pouco à auto-ajuda e preferiria algo mais próximo do original que seria mais ou menos "Meu ataque de inspiração: a jornada pessoal de uma cientista do cérebro".
Digo isso logo no início do post para que o leitor averso à auto-ajuda não deixe de olhar esse livro atentamente.
Pode-se dizer que ele é dividido em duas partes.
Na primeira parte a cientista (até onde percebi bem cética do ponto de vista religioso) descreve como foi o seu derrame, a incrível experiência de se ver repentinamente com somente um hemisfério cerebral em funcionamento e como foi sua recuperação.
Essa primeira parte contém alguns insights muito interessantes que nos leva a questionar a máxima tão comum de que "sou assim" ou "cachorro velho não aprende truque novo". Mas els será realmente útil para quem tiver que enfrentar um derrame, seja como vítima, seja como pessoa próxima a alguém que sofreu um derrame.
Se o livro fosse apenas isso a gente poderia se entregar à velha ilusão de que nada de ruim acontece conosco e que preferimos fazer de conta que essas coisas não existem pois do contrário ficamos nervosos… Bem, tenho certeza que nada de ruim vai me acontecer, mas faço questão de não viver sob o signo do medo e procuro me informar sobre tudo.
Acontece que o livro não acaba ai.
Os capítulos à partir do 14 deveriam ser lidos por todos os seres humanos que possuem um cérebro.
As 73 páginas finais do livro são uma cuidadosa, porem coloquial, descrição de como os hemisférios esquerdo e direito definem nossa personalidade juntamente com o nosso emocional e infantil complexo límbico.
Estou convencido de que os conhecimentos que Jill Bolte Taylor transmite nesse livro são ferramentas importantíssimas para desenvolvermos nossa consciência, personalidade e, porque não, nosso espírito.
Apesar dela adotar um discurso que algumas vezes parece quase religioso uma leitura atenta revelará que não se trata de religiosidade ou mesmo de espiritualidade, mas de uma tentativa (bem sucedida ao meu ver) de descrever experiências sintéticas em uma língua (a linguagem reside no hemisfério esquerdo junto com o pensamento analítico enquanto o pensamento sintético reside no hemisfério direito) que não está preparada para descrever este tipo de experiência.
A neuroanatomista afirma acreditar que ao compreender a dinâmica do funcionamento do nosso cérebro podemos criar uma civilização mais pacífica mais capaz de compaixão. Ela me convenceu totalmente e percebi que o vídeo dela no TED é uma sombra do que esse livro pode ser para cada um que tiver chance de lê-lo.
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O que a Internet está virando?
16th, September 2008
Em 1992 foi feita a primeira página Web. Até lá a Internet era um conjunto de recursos que hoje poucos conhecem como Gopher, Telnet, FTP e email.
Hoje 90% da Internet acontece dentro de um navegador e Web praticamente virou sinônimo de Internet.
A Rede ou Nuvem como vem sendo chamada a Internet é algo tão corriqueiro quanto o telefone, mas ela não é telefone.
Você já parou para pensar no que é a Internet? Já falei nisso em outro post e tem um vídeo muito interessante sobre a Web2.0, mas resolvi que posso levar a definição um pouco adiante.
- A Internet é um meio que elimina fronteiras como os navios, aviões e a TV fizeram, mas de uma forma inédita: conectando diretamente humanos de todas as partes do planeta
- A Internet modifica nosso modo de produção assim como a agricultura, o comércio ou a industrialização fizeram, mas também de uma forma inédita, pois seus principais produtos e, mais importante, matérias primas, são informação e conhecimento
- A Internet revoluciona nossa forma de comunicação invertendo sua direção. Se no passado alguns detinham o privilégio do registro histórico (primeiros livros, a mídia…) na Internet qualquer um pode registrar e desenvolver informações e conhecimento. A última fez que isso aconteceu foi quando desenvolvemos a fala…
- Ela é dita virtual, mas ao se definir como um meio onde todos podem expor a sua realidade pode se tornar uma forma mais precisa de registro da realidade do que aquela onde um punhado de agencias de notícias constroem uma realidade que interessa os seus investimentos… Ok, sei que este último item merece um livro, desculpem…
Apesar da maioria dos humanos ainda entrar na Rede para fazer fofoca em redes sociais como o Orkut e papear em um chat o fato é que certos movimentos são inexoráveis e seguem a despeito da nossa descrença.
Quando o primeiro grupo de humanos desenvolveu a fala alguns podem ter achado que era uma perda de tempo, um mundo virtual contrário ao mundo real da caça…
Quando desenvolvemos a fala, a escrita, deixamos de ser nômades nossos esquemar neurológicos, nossos mapas mentais mudaram, assim como estão mudando para aprender a lidar com a Nuvem.
A Internet é um passo evolutivo…
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Lost e a caixa mágica
27th, August 2008
Desde o final da primeira temporada de Lost eu digo que o mistério jamais será explicado e que não passa de zumbirundum e isso é péssimo pois é uma enganação para o espectador que espera por uma explicação definitiva que nunca virá.
Pode-se dizer que o mistério e senso de deslumbramento é bom, que nossa civilização passa por um momento onde o deslumbramento religioso é inviável (a menos que você se esforçe bastante para manter a fé apesar de todos os fatos) e não foi substituído por um novo deslumbramento.
Pensando agora mesmo enquanto escrevo me ocorre que não há razão para não se deslumbrar pois nossos avanços científicos em todas as áreas (vide as palestras no TED) são mais deslumbrantes do que qualquer religião já foi! O que temos descoberto sobre o Universo, nossas mentes, nossos irmãos terráqueos (vegetais, animais e outros reinos), nossa consciência (que gosto de chamar de espírito)… é tudo de tirar o fôlego!
Então vem o J.J. Abrams com sua caixa mágica, a ilha de Lost:
Pois ele me convenceu. Percebi que os mistérios de Lost são mistérios diferentes daqueles que faziam nossos antepassados se reunir em torno de fogueiras e se entregarem à perplexidade diante de coisas que hoje são banais e corriqueiras para nós. Ninguém mais se deslumbra ao ver que um meteoro entrou em nossa atmosfera e está se queimando, pelo menos não a ponto de achar que ele esconde algum espírito benigno ou maligno.
Hoje os espíritos se escondem nas profundezas da nossa mente e dos mecanismos dos nossos memes e, talvez, em regiões do Cosmos que mal começamos a antever e, depois de ouvir o J.J. Abrams quero me desculpar e dizer que Lost pode ser um bem para a humanidade…
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Em busca do pó: Parte 14 e final (acho)
7th, August 2008
Portanto a espiritualidade, ao meu ver, é a busca de uma consciência melhor e a busca do pó é a busca desta espiritualidade.
Que fique claro que, não importa em que acreditemos hoje, o que importa é que tenhamos humildade de saber que isso é apenas um passo a mais em nossa evolução. Sendo assim o que tenho a dizer é apenas uma visão espiritual que me parece útil para este início do século XXI.
Em primeiro lugar acredito que, coletivamente, nossa consciencia ainda é muito frágil para o completo ateísmo. Pode ser que alguns indivíduos funcionem bem assim, mas a nossa civilização precisa dos Deuses.
Acontece que nenhum Deus autoritário será aceito coletivamente, nenhum Deus pirracento que não aceita ser questionado será coletivamente aceito.
Além de precisar dos Deuses nós somos capazes de conversar com eles. Qualquer um que tenha experimentado um aletômetro (I Ching, Runas ou similares) sabe disso.
Se estamos falando com Deuses ou explorando uma curiosa habilidade da nossa mente para perceber tendências meméticas, não importa: nos comunicamos com um tipo de consciência superior à nossa.
E é isso que vejo nos Deuses, uma forma de consciência superior à nossa, um alvo, uma meta em que podemos nos fixar.
Coletivamente falando os Deuses modernos (não importa que sejam apelidados de Jesus, Alah, Brigite ou A Força) são humanistas e nos falam em apreciar as diferenças em vez de tolerá-las, em compreender que não há monstros ou demónios, mas apenas humanos perdidos ou doentes.
Individualmente falando, como eu já disse, pode ter gente que funcione bem assumindo o ateísmo, mas eu não sou uma delas. Considero a minha consciência ainda frágil demais para não precisar da ajuda dos arquétipos divinos.
A cada solstício e equinócio eu olho ao meu redor e curvo meu espírito ante à sabedoria dos Deuses que habitam as estações e a vida. Sempre que me sinto perdido e não consigo abraçar um problema com a minha consciencia eu recorro a um aletômetro para conversar com o que quer que seja esta consciência superior.
Um dia talvez nós humanos possamos compreender o mecanismo desta superconsciência, pode ser uma complexa engrenagem de memes, mas por hora temos um problema maior para resolver: Nossa espécie precisa de direção!
No século XV as religiões começaram a virar mitos juntando-se a Zeus e seu panteão. No fim do século XX o véu terminou de se descortinar. O que ocupará o vazio deixado? Ao meu ver uma visão de espiritualidade que cultua o questionamento e a consciência humana
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