Quasar no Rio
15th, July 2008
Quasar é um objeto quase estrelar. Quando achamos o primeiro pensamos que era um outro Universo em expansão.
Hoje sabemos que é outra coisa, mas gosto de achar que o nome da companhia de dança do Henrique Rodovalho vem desta primeira impressão dos quasares.
A arte contemporânea, contaminada pela sociedade do espetáculo e convertida em cultura de consumo, tem caído frequentemente no puro prazer estético e, algumas vezes nem isso limitando-se ao prazer volátil que atrofia nosso espírito.
Pelo jeito o mês de julho está bom para o Rio! Ontem fiquei sendo dos espetáculos da Paula Águas e hoje recebo a notícia de que o Quasar se apresentará no Teatro Municipal neste fim de semana. Espero que a temporada se estenda já que não poderei ir agora.
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Paula Águas no Sérgio Porto (RJ – Humaitá)
14th, July 2008

Teatro do planetário da Gávea, um inverno como agora, uma noite fria, as pessoas bem agasalhadas ao redor do palco com apenas um som destes portáteis, uma mesa e vários CDs espalhados. Era o começo do espetáculo Qual é a Música de Paula Águas, uma das melhores bailarinas contemporâneas que eu conheço.
Aliás, a dança contemporânea é uma das muitas artes desprezadas atualmente. Não entendo o que nos leva a desprezar formas de arte.
Meu pai não gostava de música (hoje até que aprendeu), literatura ou artes plásticas. Bem, era um militar nos tempos da ditadura, dá para entender.
Entendo que alguém não goste de clássico ou de techno, da pintura expressionista ou da moderna, mas não gostar de PINTURA e ponto? Não entendo!
Arte é uma chance única de ter prazer ao mesmo tempo que nos desenvolvemos. É, arte é um prazer diferente.
Não faltam prazeres que nos fazem sentir muito bem, mas não significam nada em nossas vidas.
A Paula Águas nos dá uma boa oportunidade para descobrir o prazer de assistir dança contemporânea. É como aprender a ler com o Veríssimo: é fácil de ler, mas não é bobo ou vazio.
Naquele dia lá no teatro no planetário entrou uma moça pequena no palco, olhou para a platéia e explicou as regras do jogo.
Eu vou colocar um cd e vou começar a dançar. Tem vários cds aqui e vocês podem vir a qq momento e trocar o cd. Vocês também podem colocar um cd que vocês tenham trazido. Para tirar o cd que está tocando aperte aqui, para dar play aperte aqui.
O que segue só vendo. A capacidade que ela tem para criar coreografias belas e que se encaixem bem nas músicas é ímpar e quem nunca assistiu um espetáculo de dança contemporânea com certeza se surpreende ao notar que não se parece com nada que ele (ou ela) imaginou.
Acontece que, se você estiver no Rio por estes dias, você poderá conferir dois trababalhos dela no Sérgio Porto, um é este mesmo que eu descrevi acima, o Qual é a Música e o outro (que ainda não assisti) é DAMA + caminho aberto (creio que são dois mixados em um). Temporada de 18/7 a 3/8.
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A Viagem de Chihiro e outras fábulas de Hayao Myazaki
15th, June 2008
Apesar de ser de 2001 nunca falei aqui nas fábulas fantásticas de Hayao Miyazaki das quais A Viagem de Chihiro se não é a mais famosa talvez seja a que agrada a gostos mais diversos.
É uma pena ver estas obras sumindo do mercado brasileiro. Notei que hoje você só pode comprar a saga da corajosa Chihiro junto com Blink Bill, o Ursinho Travesso (que não conheço, mas soa estranho ao lado de Chihiro) lá no Submarino.
A Livraria Cultura tem a capa original, mas informa que a publicação está cancelada:
Cada obra de Miyazaki aborda um tema essencial.
Em A Viagem de Chihiro estamos diante da responsabilidade e do amadurecimento de uma menina pré-adolescente que se vê em um mundo mágico cheio de regras que ela não compreende e seus pais não são capazes de dominar pois… Bem, eles são seduzidos pelos apelos consumistas por assim dizer. Não vou falar mais para não atrapalhar o prazer do filme.
Já disse outras vezes que a arte que eu mais gosto é aquela que me diz algo e não há dúvida que as fábulas de Miyazaki são assim! Mas nem tudo que nos diz algo é arte (nem toda arte diz algo) e nem sempre o que nos faz refletir ou nos prepara de alguma forma para o mundo é boa arte (não me atrevo a revelar o primeiro exemplo que me ocorre!) como é o caso de Babylon 5 cujo valor artístico… bem… Não sei se tem valor artístco
Miyazaki não se satisfaz em ter conteúdo, ele faz arte de qualidade.
O cuidado que ele tem na construção do ambiente mitológico e da fluidez das suas animações é algo que só os especializados nisso podem explicar.
Antes de Chihiro (1997) houve Princesa Mononoke onde a questão ecológica (que passa ao largo em Chihiro) é o tema central.
Em 2004 ele nos trouxe o Castelo Animado que é uma sobre amor. A gente anda muito confuso sobre o amor. Muita gente ainda acha que ciúme é demonstração de amor e não de possessividade e… Veja o filme
Há uma coisa que me agrada muito em O Castelo Animado: ele parece estar em sintonia com uma visão entre um tipo de visão neo-ultra-romântica e uma contemporânea do amor puro e impossível contra o qual todas as forças lutam e que não pode se realizar. Ele está em Philip Pullman, em seriados adolescentes, em Neil Gaiman e, claro, em literatura mais séria como… A Menina que roubava livros, talvez…
Em minha humilde opinião estes deviam ser os filmes da infãncia dos jovens que terão a tarefa de consertar os erros das gerações passadas e não, me desculpem, os Harry Potter, Homem Aranha, Shrek e similares (apesar destes filmes não terem nada de similar).
Se queremos dar o melhor aos nossos pequenos humanos temos que prepará-los para o mundo e não distraí-los dele, afinal o mundo chegará de qq forma.
Conheça mais sobre Hayao Miyazaki na Wikipedia.
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Bea
3rd, May 2008
Seu pai sempre lhe dizia com aquele timbre de barítono tendendo a baixo “Meu filho, você não deve ter medo de viver! Se uma oportunidade se apresenta você deve seguí-la!”
Puxa, mas aos 14 anos uma menina linda era toda oportunidade que ele queria seguir e também era o que mais o apavorava!
Seria mais fácil discutir com a professora de física ou o rígido diretor da escola.
Beatriz. Ela sempre ficava ali daquele jeito, olhando através dele ou para as árvores do lado de fora da janela. Talvez ela sonhasse com algum ator de tv ou cinema ou quem sabe… Ah! Não! E se ela ficava pensando em um dos garotos mais velhos das outras turmas?
Em sua inocência de menino adolescente de um lar normal com pais que tem lá suas brigas, talvez até se traiam aqui ou ali, mas também encontram tempo para passeios no jardim zoológico ou um final de semana com o resto da família ele não poderia imaginar as sombras que encobriam os pensamentos da bela Bea.
Dos finais de semana sozinha com os pois ou com os poucos amigos do play, dos avós, tios, tias e primos que ela nunca encontrava pois os pais raramente visitavam o resto da família ou da extranha tensão que ela, menina que está descobrindo o mundo e vê o que os adultos já não enxergam por saturação, vê nos pais cada vez mais fechados e distantes dos outros, das brigas em voz baixa, entre os dentes, que os que olham de fora acham suavez, mas ela sabe como estão cheias de raiva pronta para explodir para qualquer lado.
Não, ela realmente não percebe o admirador que senta duas fileiras atrás dela, também não pensa em atores ou em meninos mais velhos, ela pensa na vida.
Pintura: Juventude de Adelina de Andrade Márquez de Alcântara
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O cão morto que te revolta
6th, November 2007
Não pretendia escrever hoje, muito trabalho e pouco tempo, sabe? Mas ai recebi um email pedindo para assinar uma petição online contra o artista que fez de um cão moribundo alegadamente uma obra de arte.
O cão foi amarrado na galeria em um dia e morreu durante o dia seguinte.
Assim como milhares, ou mesmo milhões de cães de rua, ele já estava doente e abandonado pelas ruas quando foi capturado pelo artista.
Nossa primeira reação é de horror, para ser sincero a segunda também… Afinal, filho único, minha irmã era uma cocker spaniel. Acontece que tenho o costume de pensar nas coisas não apenas no impulso das emoções, mas também à luz do pensamento crítico livre das influências do coração.
Será que as 50 mil pessoas que votaram na petição online são vegetarianas? Será que ignoram os horrores infinitamente superiores a que são submetidos suinos, aves e bovinos para satisfazer nossa sanha alimentar?
A arte tem a difícil tarefa (e praticamente só ela) de dissecar os nossos horrores diante dos nossos olhos! A arte de entretenimento existe, mas é ótima para tempos dourados (se bem que estes são frequentemente a semente de tempos negros) e não para eras como a nossa em que as atrocidades se tornaram torrentes escorrendo por todas as ruas e tingindo nossas cidades com uma cor ocre e insuportável.
Não espero que o artista repita o feito e espero que nenhum outro idiota tente imitá-lo, o que devia ser dito já foi dito ao custo de uma vida e toda vida é inestimável. Mas quantas vidas podem ser salvas se este horror nos despertar?
Infelizmente eu duvido que a maioria das pessoas esteja realmente horrorizada, pelo menos não o bastante para deixar de usar suas roupas GAP feitas com trabalho escravo infantil, se lambuzar em litros de leite, queijo e carnes feitos às custas da tortura de milhões de irmãos terráqueos ou para buscar um estilo de vida menos consumista e mais centrado no desenvolvimento humano, cultural e artístico.
Por tudo isso não vou votar contra a participação do Guilhermo Vargas (da Costa Rica) na bienal de arte centro-americana de 2008 em Honduras.
Links úteis:
- Sarah: Blog com mais ou menos o mesmo enfoque que dei
- A Arte Pode Matar: post contanto a verdadeira história (o cão era alimentado e seria adotado depois da exposição)
- Declaração oficial da Galeria Códice (onde o cão foi exposto)
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