A ciência e a transformação da consciência nas profecias maias para 2012
25th, November 2009
Sobre a dificuldade de falar em crenças
Profecias não são previsões, elas são fruto de crença e falar em crenças é complexo pois o modelo de raciocínio nesses casos segue mais ou menos o seguinte roteiro:
- Sinto que isso é verdade
- Outros sentem igual, então deve ser verdade
- Buscar comprovações lógicas para a crença
Alguns nem precisam do segundo item.
Aqui tentarei seguir outra forma de raciocínio pois parter de uma intuição ou crença pode ser muito útil do ponto de vista psicológico, mas dificilmente nos leva a conclusões lógicas ou racionais.
De onde vem a síndrome do apocalipse?
Lá no final desse post há um artigo da Veja (quem diria?) que fala sobre isso, mas arriscarei um resumo da minha própria opinião.
O caminho da consciencia instintiva animal para uma consciência racional (e porque não cósmica?) não é nada fácil. Quando tivemos o primeiro lampejo da consciência que temos desenvolvido e da capacidade de raciocínio que a acompanha devemos ter nos petrificado de pavor diante de um universo vastíssimo de coisas que passaram a ter que ser explicadas e isso sem falar nas emoções e pensamentos que nos assaltam. Aliás, há um livro bem instigante sobre isso, Maya de Jostein Gaarder. A coincidência de nome é apenas uma coincidência, mas é providencial!
Desde o início dos nossos tempos como humanos temos enfrentado mais transformações do que nossa mente gostaria, basta pegar qualquer período de 20 anos na história da humanidade para ver que, quanto mais perto do presente, mais rápidas são as transformações. Não que não fossem rápidas nos tempos da Bíblia quando num período de uns 50 anos (desde o nascimento de Moisés) profundas modificações ocorreram no império do Egito, ou nos tempos de Aquenaton.
É natural que, diante das profundas transformações que nossa cultura, tecnologia, economia, sociedade etc. estão passando nós experimentemos uma sensação de morte. Erich Fromm já falava nisso em 1941 e não creio que estivesse muito longe da “verdade”: nós vivenciamos a transformação como se fosse uma morte.
O que dizem as profecias?
Sou um apaixonado por física desde os 11 anos quando comecei a ler A Evolução de física de Albert Einstein e Leopold Infeld(demorei anos!) e, do ponto de vista científico, não consigo levar nada a sério nas profecias, mas vou falar disso mais abaixo.
Há uma razão para todos buscarem profecias e creio que a razão é a busca por uma forma de consciência que se ajuste melhor aos nossos tempos.
Talvez as sucessivas falhas em prever o fim do mundo ou sua mágica transformação radical seja até uma forma de despertarmos para o fato de que somente o nosso trabalho lento e continuado de evolução consciente (a evolução caótica e inconsciente a gente já seguiu por muito tempo) é o único caminho para transformar nosso futuro e não esperar que o sol, Zuvuya ou qualquer outro fenômeno sobrenatural agite uma varinha transformando nossa consciência em um passe de mágica.
Aliás, sobre isso, há a brilhante graphic novel Dr Strange Shamballa de J.M. DeMatteis.
Das discussões que acompanhei e pelo que ouvi dos amigos que acreditam em um evento em 2012 percebi que, tirando a coisa dos cataclismas cinematográficos ou transoformações mágicas tudo se traduz em mudanças de consciência, principalmente:
- Aprender a ver nas diferenças culturais, sociais, filosóficas e outras não um incômodo a tratar com tolerância, mas um maravilhoso fenômeno da nossa diversidade memética (não resisto a usar o termo ao menos uma vez) que deve ser admirada e festejada;
- O estabelecimento de relações mais justas entre países ou mesmo o fim dos países
- Tomar as rédeas do nosso desenvolvimento e buscar uma consciência maior do nosso caminho evolutivo
- Passar a conviver com nosso meio ambiente adaptando-nos a ele em vez de tentar adaptá-lo a nós (gosto muito dessa)
- Fim do controle da sociedade pelo medo e pela culpa caracteríscos da cultura judaico-cristã. Essa também é uma boa meta: trocar a sociedade de controle do espetáculo (vide Guy Debord) pela sociedade liberadora do conhecimento (muito embora ainda haverá outras formas de controle nocivo a superar no futuro)
- Mudança do sistema econômico: na era do produto e do captalismo cognitivo as regras de mercado da oferta e procura estão em xeque e realemente devem mudar
- Telepatia: comunicação ampla entre todos os humanos. Bem, para os conectados basta listar o Google Latitude, Twitter, internet movel, marcapasso wifi… Se não fizer sentido é só googlar.
- A susbstituição da satisfação pelo consumo (comprar, comer, beber, festejar) que é predatória dos nossos recursos e pode ser útil para preservar os genes, mas nociva aos memes (ok, foi a última vez) por uma busca de satisfação pela criação, ou seja, em vez de destruir, consumir passaríamos a nos dedicar à nossa superação pessoal e coletiva
- Coletividade é um ponto falho em quase todos os discursos proféticos: a maioria parece satisfeita em ser salva da destruição enquanto os perdidos ficariam aqui para morrer. Essa é uma das críticas mais consistentes aos movimentos esotéricos, de auto-ajuda e da lei da atração que, acredito, tem interseções com os grupos que acreditam em profecias apocalipticas
Outro ponto preocupante é que parece haver uma certa unanimidade entre essas pessoas de que a nossa espécie é o anticristo ou coisa similar e que as profecias de alguma forma indicam a liberação da Terra da praga chamada humanidade. Esse impulso suicida e auto destrutivo pode nos causar problemas caso se torne uma crença predominante.
A ciência das profecias
Resolvi deixar isso para o final pois não vejo qualquer sentido na suposta ciência que apoiaria as profecias, mas simpatizo com as propostas de mudança de consciência que elas sugerem.
A data
É claro que faz sentido assumir que o solstício de verão (aqui no hemisfério sul) seria o marco do fim do mundo, afinal no hemisfério dos Maias ocorre o solstício de inverno que, na maioria das culturas sintonizadas com os ritmos das estações, marca o fim do ano e a necessidade de se preparar para as dificuldades do inverno.
No entanto se estamos falando em um cálculo baseado no calendário astronômico Maia (considerado 4s mais preciso que o nosso) então o fim do ciclo de 5125 anos não cairia no dia do solstício…
Considerando que o calendário maia era 4s mais preciso do que o usado hoje (que tem erro de 5h48m46s por ano teríamos que fazer o seguinte cálculo para compensar o erro:
Considerando uma sobra de 5h42m no cálculo acima e o que o solstício de verão em 2012 será às 9h18m isso nos leva a uma nova data para o fim do mundo: 15 de maio de 2016, exatamente às 15h de um domingo. Caso o mundo não acabe em 2012…
A Sabedoria Maia
Bem… Para alimentar as energias do sol eles matavam os inimigos vencidos em batalha e ungiam seus ídolos (frequentemente a serpente de plumas) com seu sangue. Na falta de inimigos ou em festas especiais eles sacrificavam crianças e mulheres.
Diante disso o hábito de deformar o crânio das crianças para lhes dar um formato longilínio é só um senso estético duvidoso.
Seu esporte mais sagrado era um jogo de bola onde o líder do time vencedor era decaptado.
Quando os colonizadores chegaram a civilização já havia passado por um grande cataclisma e se estava em declínio, muito provavelmente por ter esgotado seus recursos naturais.
Muitas culturas antigas desenvolveram supreendentes conhecimentos de astronomia, mas isso não faz delas culturas sábias.
A Terra no centro da Via Láctea
De acordo com as nossas observações nosso sistema solar está a cerca de 32 mil e 600 anos luz (10 Kilo parsecs) de distância do centro da nossa galáxia o que se aproxima de 11 bilhões de kilômetros… É muito longe e o único registro de um fenômeno assim que eu conheço está na quinta temporada do seriado de ficção científica Doutor Who.
É possível que estejam confundindo com o plano central da galáxia.
Na imagem abaixo vemos a galáxia como seria vista de cima e nosso sol está marcado nela mais ou menos entre a borda do prato e o centro dele:
Agora imagine que você vire o prato para vê-lo pelo lado. Você terá uma imagem mais ou menos assim:
O plano central seria nesse caso o prato e é como se o nosso Sol uma hora estivesse sob o prato, outra hora acima dele. No meio tempo ele passaria por regiões mais densamente povoadas de estrelas.
Isso acontece a cada 35 milhões de anos e nesse momento estamos a vários anos luz desse evento o certamente significa alguns milhares de anos, senão milhões até que isso aconteça.
Nibiru ou Hercólobus: o planeta assassino
A aproximação de um planeta (ou asteroide) gigantesco é outra causa frequentemente citada, no entanto temo que lembrar que Galileu, com um telescópio primitivo, foi capaz de ver os anéis de Saturno e nos séculos seguintes nós nos desenvolvemos exponencialmente: não há como um planeta gigante vindo em nossa direção não ser percebido com décadas de antecedência.
Nenhum observatório profissional ou amador detectou um corpo celeste candidato para ocupar o lugar do planeta assassino.
E não se trata apenas de ser visível, um corpo de enormes dimensões deixaria rastros gravitacionais facilmente detectáveis conforme caminhasse por nosso sistema solar e isso não aconteceu. Ninguém percebeu anomalias nas órbitas dos planetas, cometas ou cinturão de asteroides.
Os neutrinos de Hollywood
Logo nos minutos iniciais da superprodução de Hollywood, 2012, os Neutrinos mutantes são responsabilizados pelas mudanças no planeta.
Bem, há três tipos de Neutrinos conhecidos: elétron, muon e tau. Todos eles, por não terem carga positiva ou negativa e pesarem praticamente nada, são capazes de atravessar anos luz de uma parede de chumbo sem sequer tocar em algum atomo ou mais propriamente elétron, neutron ou proton.
Podemos até imaginar que ventos solares de gases mais densos (muito embora nosso Sol ainda seja jovem e composto predominantemente de hélio e hidrogênio) poderiam aquecer nosso planeta, mas nunca vi um estudo que desse essa capacidade a neutrinos.
A quarta dimensão e outros fenômenos mágicos
A última causa mais frequente que achei para um suposto evento em 2012 envolve a passagem de algumas pessoas em nosso planeta para uma quarta dimensão e na intermediação de seres alienígenas ou espirituais que conduziriam ou nos auxiliariam nessa transição.
Bem… Isso extrapola totalmente a nossa ciência.
De acordo com o nosso conhecimento atual todos nós vivemos em um mundo com 10 ou 11 dimensões e somos seres quadridimensionais pois nos deslocamos no espaço (comprimento, altura e largura) e no tempo.
Fossemos pensar em uma transição para outra dimensão teria que ser para a quinta de onde, supostamente, poderíamos olhar para o tempo como olhamos para uma linha e veríamos o passado, presente e futuro como uma coisa só.
Vale a pena assistir o filme Flatland:
Ou ler o texto que o inspirou: Flatland (gratuito no projeto Guttemberg)
Conclusão
O único fenômeno físico ou cósmico prestes a acontecer que pode nos atingir é o aumento da atividade dos ventos solares que pode causar apagões e danos em equipamentos eletrônicos, mas não vejo como isso poderia causar danos definitivos aos nossos sistemas lançando-nos de volta à era do fogo e da clava.
Todas as supostas confirmações científicas para as previsões Maias que encontrei eram fruto de mau entendimento da nossa ciência e não encontrei nenhum cientista sério (estou incluindo físicos blogueiros revolucionários) que confirme algum evento astronômico mortal.
Referências
Artigos sugeridos por amigos
- Ancião maia avisa para não ter medo de 2012 (video no Youtube) – @1anonimo
- O que é a Via Láctea (em Inglês) – @1anonimo
- The 2012 apocalypse na Wired – @caribe
- O fim do mundo em 2012 (Revista Veja) – @caribe
- Previsões do menino marciano Boriska (se não houver uma catástrofe nos próximos 36 dias ele já terá errado uma…) – @caribe
Artigos de apoio
- Textos (em Inglês) de David Stuart, considerado um dos maiores estudiosos dos Maias
- Alinhamenos e fenômenos galáticos que supostamente nos destruiriam (Inglês)
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Cinema: 2012
16th, November 2009
Antes de mais nada: pode ler o post pois não entregarei nada que atrapalhe o prazer de ver o filme.
2012 aproveita a suposta profecia Maia (uma das únicas civilizações que provavelmente se extinguiu por ter esgotado seus recursos naturais) de que o mundo terminaria em 21/12/2012 (porque não 12/12/2012?) para elaborar mais um filme catástrofe na longa linha que vem desde Terremoto até os mais recentes Impacto Profundo, O Dia depois de Amanhã e Presságio.
No entanto há muitas coisas interessantes a destacar no filme.
Até pouco tempo o cinema catástrofe se resumia a inventar uma desculpa (geralmente esfarrapada) para uma série de desastres que os mocinhos teriam que driblar até que tudo voltasse ao normal.
A fórmula básica não mudou, no entanto há coisas que não existiam antes, pelo menos não tão claramente.
- Há um claro reconhecimento que nossa espécie é extremamente vulnerável e que poderia facilmente se extinguir
- Desde Impacto Profundo essa modalidade de ficção nos pergunta: quem nossa civilização procuraria salvar (Ok, não vou esquecer Dr. Fantástico)
Do ponto de vista de lazer 2012 vale pelos primeiros 40 minutos, o meio e o fim não são nem animados, nem suficientemente questionadores, no entanto ainda assim achei que valia a pena escrever sobre ele.
Uma amiga ficou revoltada porque o mundo não vai acabar daquele jeito (err… alguém está achando que vai acabar de alguma forma?) e outro se perguntou se as pessoas agiriam do jeito que agem no filme.
Gente… É um filme pipoca, não é nem documentário, muito menos tratado antropológico.
O que há de interessante para observar nesses filmes são as questões básicas da moral e dos nossos medos intuitivos que tornam o filme um sucesso ou atraente para o espectador.
E nesse sentido creio que, a cada novo filme catástrofe que é lançado as questões que estão nas entrelinhas são:
- Será que não é hora de pensarmos em modos de preservar nossa espécie dos riscos naturais? Será que não está na hora de nos lançarmos ao espaço para o caso de algo terrível acontecer na Terra?
- Qual é a essência da nossa espécie? Somente o caldeirão genético ou também nossa produção artística e cultural?
- Cataclismas naturais (lembram do Tsunami de 2004?) e artificiais (15 milhões de crianças morrem de fome por ano) já estão exterminando milhões de vidas, será que, em nosso estágio atual nossa civilização trabalharia em conjunto para salvar a nossa espécie ou trabalharia em segredo para salvar um punhado de ricos?
Nada acontecerá em dezembro de 2012, mas me arrisco a dizer que, a cada dia, filme tolo a filme tolo, estamos construindo uma nova consciência a respeito da nossa fragilidade e da nossa moral.
A Terra talvez experimente profundas transformações climáticas nos próximos 30 ou 40 anos e o que estamos fazendo a respeito disso? Estamos mobilizados para garantir que o máximo de humanos e outros terráqueos sobrevivam e se adaptem? Estamos fazendo algum esforço substancial para impedir (o que acho praticamente impossível) as mudanças climáticas ou para nos prepararmos para elas?
Dificilmente.
Se qualquer um desses filmes se mostrasse real e nosso planeta passasse por transformações tão rápidas somente uma minoria de poderosos sobreviveriam e provavelmente se matariam logo depois na disputa pelos parcos recursos.
É essa a civilização que desejamos construir?
Felizmente o mundo não acabará tão cedo e ainda há tempo para mudar o que realmente pode alterar nosso mundo: nossa consciência.
Cada uma das nossas vozes individuais é sagrada
pois cada voz nos enriquece e toda voz perdida nos diminui
Somos a voz da humanidade, a consciência do Universo
A chama que ilumina o caminho para um futuro melhor
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Arca
7th, May 2009
É a tarde de um sábado de preguiça, alguns pais de família oscilam morosamente em redes esticadas entre as árvores do seu quintal.
Também é outono e um calor indeciso sopra as folhas secas que escaparam da orda de adolescentes que passaram a manhã com ancinhos colhendo folhas por uns trocados para ir ao cinema, comprar um celular turbinado ou pagar a noite com uma menina.
Ele caminha a passos lentos arrastando sessenta ou setenta anos bem pesados. Usa um terno preto e sapatos de couro negro como a noite, brilhoso como o capô de um BMW.
A calçada, a rua sem carros e as casas plantadas em seus jardins parecem novas e ele pensa como as aparências enganam e, apesar daquele ainda ser um país de bairros belos, padronizados e bem cuidados a moral se perdeu. O tecido da célula máter da sociedade se rasgou durante o século XX e o início do XXI só parece indicar a falência definitiva.
Suas mãos calejadas empurram a frágil portinha da cerca branca produzindo o mesmo rangido que fazia há 50 anos quando ele a construiu, alguns anos antes de ser escalado para o projeto Arca de Noé, mas ninguém conhecia o projeto, nem mesmo seu nome.
Um rosto se ilumina na varanda e volta-se para ele. Sua neta. Feliz por vê-lo depois de três meses. Ele só aparece a cada trimestre e ninguém sabe onde ele vai nos intervalos. E ela não sabe que é o estopim da sua difícil decisão.
Abraços, risos, beijos, histórias e piadas de família. Todos estão acostumados ao jeito que tem que ser com o avô austero e misterioso: quando ele faz uma visita é apenas o vovozinho ou o sogro pacato e normal.
Depois do jantar ele senta na varanda e chama sua neta “Léa, venha contar para seu avô os segredos do novo século”.
Ela é especial e não é por sorte ou acaso, ele quis assim e cuidou para que ela tivesse a melhor alimentação, professores e recursos que a tecnologia pudesse dar, era a observadora perfeita para ajudá-lo a entender como a humanidade vinha mudando.
Conversaram por duas ou três horas. A lua se esticava entre as árvores reluzinho ocasionalmente nos olhos de gatos que cruzavam os jardins compenetrados em seus próprios planos. Falaram sobre o que acontecia na TV, no cinema e nos livros. Sobre a manipulação da mídia ele já sabia tudo e estava preparado para ignorar suas complexas teias de interesses escusos, mas seus olhos se embaçaram ao não encontrar entre os ídolos e paixões da neta seus velhos princípios de moral.
O mundo era preto e branco. Sempre foi. Há um lugar para os homens, outro para as mulheres, um para os operários e outro para os administradores e a quebra desse equilíbrio conduziria ao fim…
E foi assim que alguns milhares mulheres grávidas foram levadas para as profundezas da Arca e seus filhos foram criados à moda da década de 50, a última década pura e moral. Livre do fundamentalismo medieval e da libertinagem dos anos sessenta.
Milhares de jovens e adultos vivendo com a crença de que o mundo externo havia acabado e somente ele sabia a verdade e agora devia decidir.
Durante a madrugada ele deixou pela última vez a casa da sua filha, olhou pela última vez sua neta compenetrada diante do computador (a essa hora uma moça de 23 anos devia estar agradando o futuro marido e não mergulhada em redes de amigos).
Quando o primeiro raio da manhã se insinuasse na grande entrada do mundo subterrâneo da Arca ele já teria dado a ordem “selem as portas! lacrem tudo! O mundo externo está perdido, inabitável e hostil por pelo menos mais cem anos. A civilização humana terminou e cabe a nós sobrevivermos para recomeçá-la das cinzas”.
Esse post é um presente para @yas_snape
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Dr. Fantástico – Dr. Strangelove – 1964
22nd, April 2009
Lançado em 1964, Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, é mais uma das obras primas de Stanley Kubrick.
Se Kubrick tivesse sido um blogueiro ele teria escrito apenas 12 posts que teriam mudado o mundo e mais nenhum. Ele jamais seria um tuiteiro
Confesso que Dr. Fantástico era uma das imperdoáveis lacunas na minha educação cinematográfica, mas é bom apreciar uma obra 45 anos depois do seu tempo.
Em sua época o filme foi uma das poucas críticas diretas à hipocrisia e irresponsabilidade predominantes, principalmente quando ele nos mostra o Dr. Strangelove, um ex-cientista nazista tão ética e moralmente questionável quanto qualquer outro monstro nazisa, como consultor de armamentos do presidente dos EUA, afinal de contas porque os nazistas eram ruins mesmo?
Ainda hoje nos esquecemos que nossos cientistas “do bem” tem sido capazes de fazer experiências e criar aramentos tão crueis quanto os dos nazistas.
Dr. Fantástico continua sendo um ótimo filme para nos ajudar a refletir sobre o nosso tempo: será que estamos administrando nossa civilização de uma forma muito diferente da caricatura de Kubrick?
Fora isso há o prazer de ver algumas das mais brilhantes atuações de Peter Selers que faz três papeis: Presidente dos EUA, Dr. Fantástico e o oficial que tenta impedir o desastre a todo custo.
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