Atenção: travessia de elefantes
15th, December 2008
"Uma manada de elefantes…"
"Hã???"
"Tô sonhando com uma manada de elefantes… Eles tão atravessando a rua… Tem uns coelhinhos segurando plaquinhas e mandando as formigas esperarem a manada passar para elas continuarem o caminho de volta para casa depois do trabalho… Tá de noite e todo mundo quer ir dormir logo, sabe?"
Ele abre os olhos, pega o celular do lado da cama e olha as horas, mais de três da madrugada… Ele apagou, não ia dormir na casa dela, sempre preferiu dormir em casa, não importa a hora que a noite acabe.
Com ela foi diferente, foi ficando, conversando, teve o sexo… Nossa… Nossa… Ele procura definição, mas não acha, foi suave, alegre e profundo. Riram juntos na cama, conversaram mais e… E ele acordou com ela dizendo "Uma manada de elefantes…"
Sentado na cama, olhando para ela, os lábios novamente entregues ao sono profundo, mas encantadores, como se estivessem buscando sempre uma boca para beijar. Acompanhou a curva suave das bochechas, as sobrancelhas perfeitas, descobriu uma pequena cicatriz na testa, se divertiu com os cabelos jogados sobre o travesseiro.
Era uma noite fia, levantou-se olhando pela janela as nuvens iluminadas pela Lua e deixou o vento cortante despertá-lo totalmente enquanto dez, vinte minutos se passavam. Saudades de casa, da cama dele, de acordar sozinho… em silêncio… só ouvir algum som ao chegar no trabalho.
Silêncio… Deu vontade de ouví-la falando novamente com aquelas vogais redondas e macias como os lábios e faiscantes como os olhos castanhos.
Um pouco de medo… Eles se conheceram não tem uma semana. Alguém pode ser perfeito?
Senta-se na cama arrepiado com a brisa fria. Ou será o toque da penugem que cobre a barriga nua dela?
Beijo na testa, ela sorri, ronrona… "Oi!" mas não chega a despertar, apenas estica os dedos, percorre suas bochecas, os lábios pedem um beijo (que ele oferece prontamente) e retorna ao sono com um suspiro feliz.
"Tô de saída cerejinha, me liga amanhã quando acordar!"
"Humhum…"
Ele desce o elevador cheio de saudades e felicidade antecipando o reencontro com ela mais tarde ou no final de semana… e não se surpreenderia se a madrugada solitária o brindasse com uma passeata de elefantes sonolentos.
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Chat
8th, December 2008
A janelinha do chat pipoca na tela…
"Ei! Vc tá ai?"
"Tô sim!! Acabo de ver que vc entrou!"
Nossa amizade é dessas que desafia o senso geral de que o mundo é selvagem, egoísta e anda para trás. Pode até ser, quem sabe? Mas entre nós dois sempre teve aquele amor puro da literatura infantil.
Quase não nos falamos, os dois envolvidos demais em ser adultos e sem se dar ao direito de tardes ou noites llivres. Além do mais duas ou mesmo seis horas sempre parecem pouco para o tanto que temos a compartilhar. Mas não tem importância, sempre que nos encontramos, sem querer ou de propósito o tempo se distorce as semanas passadas desde o último encontro se encolhem até ficarem do tamanho de algumas poucas horas.
Penso em como a gente deixa a vida ficar pesada de vez em quando e
em nos dedicamos tanto aos nossos projetos que transformamos bons
desafios em problemas.
"Tô de férias!" – Ela anuncia na janelinha
Pode ser que o mundo ande para trás e esteja cheio de jogos de interesses para alguns, até já andei por esse mundo denso e úmido, mas quer saber? Não é a literatura infantil que se recusa a ver o mundo real, é gente cansada e triste que anda inventando um mundo onde se sintam bem em sua tristeza e…
"Legal! Te ligo amanhã para a gente se ver!"
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Inocência
18th, November 2008
O concreto áspero da mureta de proteção está frio sob seus pés descalços. O vento ainda gelado nos primeiros sinais do dia que amanhece sopra seus cabelos.
Diante dela o mar a convida para seus braços, atrás, vindo de um carro parado com a porta do carona aberta, uma voz grave a rejeita e expulsa do mundo "sua vida não vale nada, nem para mim, nem para ninguém! Vai!"
Seu corpo balança levemente, junto com as ondas vinte metros abaixo. Seu espírito se quebra entre as brumas brancas, mas seus pés permanecem firmes sobre o cimento crú.
- É por ele que você pretende tomar o mar como noivo, não é?
A voz vem de um homem, nem jovem nem velho, difícil de definir na verdade, ele está sentando na pedreira, abaixo da mureta, alguns metros à sua esquerda. Ela o olha sem susto, afinal o que importa?
Continua girando até encontrar os olhos cheios de desprezo do homem no carro por quem ela pretende provar amor eterno atirando-se para o infinito.
- Ele vai ter ciúmes de você, dirá que preferiu o mar a ele e te esquecerá… Lembra dos abraços, dos beijos dele? Do jeito como ele usava seu corpo, como se ele mesmo nunca estivesse ali realmente?
Silêncio… Ela continua oscilando, mas os olhos continuam fixos no homem no carro e em suas memórias. No primeiro dia que ele a abordou; mais velho, mais sábio e encantadoramente impossível para sua tolice adolescente… Mas ele a quis! … Ou não quis? Afinal toda vez que estavam em público ele a ridicularizava, na cama a fazia de escrava e passava dias sem ligar sem nenhum motivo. Uma nuvem de dúvida passa discretamente por seus olhos quase infantis.
- Pula para cá, tenho um belo jogo de cartas ciganas, aprendi a usá-las com os primeiros bruxos! Você vai ver que ele nem virá se despedir de você. E o futuro eu tenho aqui nas cartas, pode vir que eu te pego!
Como se estivesse desfalecendo ela deixa o corpo despencar, suas forças se esvaíram e ela decide que se aquele homem puder salvá-la então esse é o destino. Tão logo seu corpo lânguido some atrás da mureta ouve-se o guinho agudo dos pneus no asfalto e logo retorna o silêncio dos últimos minutos da madrugada, exceto pelos risos tímidos dela e a voz firme do nômade.
- Hei – Ela fala entre risos – Isso é um chapéu de mosqueteiro?
- É sim, cai-me muito bem, não acha?
Junto com as duas gargalhadas o sol mostra o primeiro sinal da sua coroa incandescente.
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Efêmera. Efêmera. Dor…
8th, February 2008
Hoje o dia virou do avesso sem aviso e há de se falar com muito cuidado sobre ele pois a efemeridade da vida, de todas, é a mais difícil questão humana. Mais do que a fé, mais do que o medo ou o ódio que impulsionam o preconceito, o orgulho e tantas outras qualidades humanas tão desumanas.
A dor da perda do primo que, pouco mais velho, nos ensina sobre a essência da vida contida no prazer do Rock&Roll, no sabor achocolatado de uma piada boba e no sentido da vida autocontido na própria vida: a vida é o sentido da vida.
A dor da perda do filho, do pai, do tio, do marido, do amigo de tantas histórias, de tantas piadas, de tantas tardes mornas, de festas e, claro, de sofrimentos também. É um que se vai, mas são muitos os que partem com ele.
Essa dor é para ser comentada com muito carinho em respeito dos que agora carregam a saudade.
Ainda carrego a minha.
Lá estava o conforto da fé, das orações e cânticos, das palavras do padre, do pedido solitário a Deus "Forças!", mas o abraço forte que realmente aliviava a dor eram os olhos firmes dos parentes e amigos que vieram em socorro uns dos outros, talvez uma centena, reunidos em poucas horas na dor repentina.
Sinto orgulho de ter me juntado a essa família. De todas as coisas a que mais me impressiona é o espírito humano, essa determinação e capacidade de amar. Tenho certeza de que o primo também se orgulha da família que se inspirou nele para encontrar o amor necessário para um dia como este.
A imagem acima é o pássaro da felicidade de Carol Grigg.
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