Sob a lua de Perséfone
12th, April 2009
- Sei lá pai! Tô sozinha aqui, todo mundo dormiu… Vou me arranjar num pufe que tem ali na varanda ai acordo cedinho, quando o Sol nascer.
Do outro lado da linha o pai gesticula para a esposa. 14 anos! Isso não é idade para um menina estar fora de casa às 3h da manhã! Mas também não é idade para sair sozinha pela rua, pegar taxi ou ônibus enquanto os predadores noturnos se esgueiram pelas sombras, intocáveis.
Três fusos horários os separam da filha e agora eles se culpam por terem viajado às pressas obedecendo o chamado da empresa que está em processo de aquisição por uma multinacional.
- Eu tô legal Pai, só não dá para ir para casa agora! Tô morta de so… Não pai! Eu não bebi, não fiquei com ninguém e não me droguei!
Era mentira, ela bebeu, ficou com alguém e fumou maconha, e não foi a primeira vez, nem será a última. Ela olha fixamente para a Lua se concentrando para manter a voz firme e dá certo como das outras vezes.
Ela fecha o telefone, deixa-o pendurado pela cordinha, cotovelos apoiados nas pernas e ligeriamente zonza ela olha ao redor os amigos, quase todos dormindo, apenas alguns movimentos nas sombras e suaves estalos de lábios molhados denunciam os últimos notívagos.
Sua sandalha fica ao lado da mesinha onde ela estava sentada enquanto ela caminha entre as almofadas na sala escura. Ainda sem vontade alguma de dormir. Ela quer o vento suave da noite de outono nos seus cabelos, arrepiando a pele na sua cintura.
Mais cedo havia uma linda lua vermelha no céu, agora ela corre entre nuvens como se fosse um ginete branco entre os galhos escuros de uma floresta desconhecida.
Seus dedos encontram um copo de wiskey e o arrasta até os lábios enquanto se apoia no muro da varanda.
Nunca… Essa é a primeira vez que ela se sente totalmente livre. Foi a noite que ela escolheu. Não foi difícil encontrar uma festinha quando soube que os pais viajariam. Fulana conhecia cicrano que tinha namorado beltrana que tinha uma prima maluca que morava numa cobertura perto da Paulista.
A parte difícil vai ser voltar para casa logo que o Sol nascer, tem uma piscina na varanda, os pais da menina que deu a festa não voltam tão cedo, estão na Europa fazendo compras e acham que a filha está… eles acham alguma coisa que ela não lembra mais e não importa.
Só importa que os pais com certeza vão ligar para ela de manhã para ver se ela está mesmo em casa.
Melhor não dormir… Aproveitar acordada as próximas 5 horas ou 6 horas antes de voltar para casa.
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Se é para segregar não me chame…
22nd, February 2009
Um dos motivos do sucesso do Twitter é que realmente 140 caracteres são mais que o suficiente para exprimir uma ideia…
Se é p/ brigar por união ou liberdade de expressão contem comigo, se é para separar ou calar preciso de ótimos motivos (tweet original)
Passei a manhã pensando numa situação específica até que me ocorreu a idéia acima e agora só fico pensando no direito ou não de ensinar religião para crianças… E isso não tem absolutamente nada com o que ocupou por tanto tempo os meus pensamentos!
No colégio a gente brigava muito para poder falar. Bem… Não propriamente para falar, mas pelo direito de ter nossa própria expressão cultural e poder ir de bermuda em vez de calça comprida por exemplo. Sou filho da ditadura e falar era um estágio além muito embora alguns colegas meus tenham se mobilizado para questionar algumas coisas.
Por outro lado separar sempre foi um motivo para brigas e nesse exato momento acho que os motivos estavam todos errados.
O pessoal segregava quem não era popular, quem era CDF ou quem era metido. Gente metida é muito chato… Mas já não acho mais que valha a pena separar grupos só por questão de brios.
O visitante paraquedista vai achar que eu era segregado e esse post é um mimimi, né não! Eu era mais segregador que segregado. Eu me aproximava de pouquíssimas pessoas porque achava pouca gente interessante.
Então esse post está mais para uma confissão
Provavelmente vários colegas de colégio me achavam chato e talvez até tenham pensado que estavam me limando, mas nunca percebi isso. Só agora está me ocorrendo que muitos deviam me ver como um esquisito. Hehe! Era mesmo, continuo sendo!
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A primeira…
14th, November 2008
Estava lendo sobre a primeira vez no Sexto Sexo e…
Eles chegam entre beijos apaixonados ao andar onde ela mora, as luzes se apagam antes deles entrarem e seus corpos se encaixam entre duas paredes entregando-se aos beijos sem fôlego, o desejo dos 18, 19 anos.
Mãos exitantes procuram as fendas nas roupas para sentir o calor da pele do outro e uma leve tonteira toma conta dos dois apaixonados.
Entram em casa apesar de já não fazer muito sentido dentro ou fora pois o mundo parece estranhamente maleável, como se as paredes não fossem sólidas, mas imagens de um sonho onde tudo acontece rápido demais apesar de andar em câmera lenta.
Olham-se sem ar entre os beijos, tocam-se sem foco entre gemidos que escapam ao medo de dar uma impressão errada, experimentam carícias timidamente, antecipam o próximo passo com o coração descompassado e aquela sensação de peito vazio.
Meio sem querer, meio cheios de querer, mas sem palavras, vão se livrando estabanadamente das roupas que se enrolam nas pernas, na cabeça e nos pés antes de sumirem em algum lugar no chão.
Ela não sabe se deve tocar, ele acha que não deve pedir, não dizem nada, apenas se misturam em uma nuvem de perfumes, calores e humidade.
O corpo nu dela também é um território extranho e desfocado ou ele está zonzo. Sem olhar demais com medo dela pensar que ele é um adolescente deslumbrado com o sexo (é justamente o que ele é) deita-se desjeitadamente sobre ela, sem saber como encontrar o caminho entre o calor úmido passa a tatear até que ela o ajuda com suas mãos delicadas e tão inexperientes quanto as dele.
"Ai! Não acredito! Bom! Vou desmaiar! Tô flutuando?" os pensamentos se misturam tão rapidamente entre a coreografia em câmera lenta dos corpos que não dá tempo de ter dúvidas ou medos, tudo se perde entre a suspensão do oxigênio entre um suspiro e um gemido de lábios mordidos, do calor que os invade conforme encontram o caminho e se perdem dos sentidos e do mundo como se houvesse apenas seus corpos suspensos no infinito negro do Universo vazio.
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Tracey Fragments – Bruce McDonald
12th, October 2008
É impressionante como uma história simples pode se desdobrar em tantas facetas graças a uma grande atuação (Ellen Page no papel pricipal de Tracey Berkovitz) e, principalmente, a um roteiro e edição brilhantes!
Pode ler o restante do artigo sem medo de "spoillers" pois eu não faço isso.
Talvez a protagonista de 15 anos não seja a menina padrão dos nossos centros urbanos, mas definitivamente é um bom modelo.
Ela comete erros, pelo menos um grande erro e outros pequenos, mas, e talvez essa seja a maior qualidade do filme, não se trata de cometer ou não erros, mas da força do caráter que, a propósito, me lembra Lyra Belaqua de Philip Pullman.
Como uma jovem mulher de 15 anos se sente diante do mundo hoje? Como ela devia se sentir? Como deveria se apresentar? Como uma criança desamparada e insegura ou com independência e confiança? Tracey com certeza é mais forte e segura que a maioria dos adultos no filme. Aliás é uma das personagens mais fortes que tive o prazer de conhecer.
Além da excelente atuação de Ellen Page temos a edição que povoa a tela de pequenas janelas onde fragmentos da história circulam em ritmos e fluxos de tempo dispersos construindo uma experiência intelectualmente estimulante, rica e significativa. Você provavelmente se lembrará de Memento, mas esta película vai além tecendo simultaneamente cenas do início, do meio e do fim.
Curiosamente a narrativa fragmentada contrasta com a personalidade solidamente (e precocemente) coesa da protagonista o que me fez pensar que o mundo em transição deste início de século pode ser frágil, mas nós humanos nos tornamos mais fortes mantendo o equilíbrio desse complexo móbile.
É um filme para comprar e ter em casa.
Sugiro apenas que você afie o Inglês antes de assistí-lo e evite as legendas para saborear cada fragmento da narrativa.
Em tempo… O filme é baseado no livro homônimo de Maureen Medved, um dos próximos na minha lista de leituras.
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