E quando o monstro é você?

Imagem: Pat Duarte

Há quem pense que a humanidade é essencialmente má, discordo disso, mas existem preconceitos e maldades tão inseridas em nossa cultura que não percebemos que eles existem. Pior ainda, não percebemos que NÓS os repetimos.

Essa semana vimos uma grande mobilização em torno no #primeiroassédio.

Decidi investigar a minha parte nisso, pois não adianta ser apenas pró-feminista, temos que identificar e reconhecer que fazemos parte das doenças da nossa sociedade, tanto quanto das suas curas.

Escrevi o texto abaixo no Facebook analisando minha própria participação no assédio pois dificilmente admitimos que também somos monstros se não nos esforçarmos para sermos humanos. É fácil ser bom, difícil é reconhecer que temos maldades e nos afastarmos delas.

Começo a escrever sem saber onde irei parar.

Estou perturbado: já fui assediador?

Duvido que tenha sido! Não sou doente! Sempre ouvi as pessoas, sempre me encantei com o fascinante universo de ideias, sonhos e reflexões dos outros e jamais reduziria alguém a um objeto.

No entanto, se vou enveredar por esse caminho preciso assumir que o terror das doenças sociais é que não as notamos.

Outro dia uma amiga observou que somente anos depois notou que não havia negros no interior que ela fez em um país repleto de negros. A segregação muitas vezes é invisível. O assédio também.

A essa altura já desconfio de mim. Não parece impossível que eu tenha assediado sem notar. Sorrindo de uma piada, contando uma piada, será que algum dia tentei roubar um beijo? Me aproveitei de um ônibus lotado para tocar uma mulher? Era mesmo uma mulher?

E você?

Olhar de frente para as doenças da nossa cultura é aterrorizante porque provavelmente nós também já fizemos parte dela. Talvez ainda façamos parte.

Sim. Eu lembro de ônibus lotados e de uma menina de uns sete anos quando eu tinha 12… Nada demais para mim, nada além de toques sobre as roupas, mas me sinto extremamente envergonhado de lembrar disso, de contar isso. Como pode alguém achar que foi bom para alguém? Se é uma memória vexaminosa para mim a ponto de não ter a memória dela até metade desse texto o que terá sido para ela? Será que foi a primeira vez que entendeu que o valor dela estava em ser um corpo e somente isso?

Tem que acabar! Essa agressão às mulheres tem que acabar.

O Lebravo também fez um post como esse: Homens, precisamos entrar nessa luta #PrimeiroAssédio.

A Jout Jout fez um vídeo que, na minha opinião, disse tudo. Só uma pessoa muito torta para não se decidir a se mobilizar: