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Propriedade Intelectual

Teatro: Versão Moderna de Despertar da Primavera

19th, September 2009

Apesar do texto original ser de 1891 ele aborda sem meias palavras alguns dos problemas mais obscuros enfrentados pelos adolescentes na faixa dos 14 aos 18 anos como sexo, abuso sexual, rebeldia e a pressão de pais que não sabem como estimular os filhos.

É uma pena que atualmente não seja possível produzir uma peça como essa (com mais de vinte atores em palco) a preços populares. Ela vale cada segundo e me arrancou lágrimas pelo menos três vezes.

A parceria entre Charles Möeller (direção) e Cláudio Botelho tem rendido ótimos frutos, mas assim mesmo é impressionante ver jovens atores atuando e cantando perfeitamente à vontade no palco.

Seria injusto (e complexo) comparar a atuação dos atores então vou apenas eleger os meus dois personagens prediletos que foram Ilse (Letícia Colin) e Moritz (Rodrigo Pandolfo) principalmente por seu caráter transgressor.

Ok, eu sei que é nas falas de Melchior que encontramos a rebeldia, mas são Ilse e Moritz que os materializam mais intensamente.

No século passado (1995 +-) vi outra montagem muito mais próxima do original (e mais pesada para falar a verdade) e creio que eu não teria gostado da versão da Bradway onde optou-se por uma quebra radical contrapondo a atuação mais formal com arranjos musicais (e interpretações) bem contemporâneos.

Fiquei feliz que a modernização da montagem que está em cartaz aqui tenha se restringido ao cenário e ao vocabulário e creio que foi na medida perfeita para garantir um bom entendimento sem contaminar a ambientação de época.

Resta dar os parabéns aos atores (tirado do site oficial):

Malu Rodrigues (Wendla), Pierre Baitelli (Melchior), Rodrigo Pandolfo (Moritz), Letícia Colin (Ilse) e Thiago Amaral (Hanschen) encabeçam o elenco brasileiro, formado por Alice Motta, André Loddi, Bruno Sigrist, Danilo Timm, Davi Guilherme, Eline Porto, Estrela Blanco, Felipe de Carolis, Julia Bernat, Laura Lobo, Lua Blanco, Mariah Viamonte, Pedro Sol e Thiago Marinho.  Débora Olivieri e Carlos Gregório interpretam todos os adultos do musical.

A peça está em cartaz no Teatro Vila Lobos com preços entre 60 e 80 Reais. Mais informações no site oficial da peça.

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Avenida Q, o musical da Broadway no Rio

4th, March 2009

Elenco de Avenida Q

Avenida Q é um musical adaptado da Broadway e uma comédia de costumes que vai capturar os recém formados envolvidos com o primeiro emprego, sair da casa dos pais para morar sozinho e o difícil equilíbrio entre construir a vida profissional e curtir a vida. Aliás, arranca boas risadas de quem já se estabeleceu também, afinal quem esquece esse período da vida?

Avenida Q - Cenário

O tempero da trama está em questionamentos para lá de politicamente incorretos sobre racismo, sadismo (daquele que nos faz rir de quem cai de cara numa poça de lama), homossexualidade e outros temas delicados.

Seria uma peça pesada não fosse pelo roteiro bem escrito e… bonecos.

A maioria dos atores atua também através de um boneco como os do Muppet Show.

O mais interessante é que a atuação não é feita de forma que nos esqueçamos que tem um ator manipulando o boneco. São duas atuações que se complementam, às vezes três já que alguns bonecos são manipulados por dois atores.

No entanto essas não são as primeiras coisas que você vai notar, estou certo que o primeiro impacto será com a qualidade dos atores!

Assim que Sabrina Korgut entra em palco cantando com sua voz límpida (eu não conhecia o trabalho dela) me ocorreu que os demais atores teriam que ser muito bons… E são!

Avenida Q - cenárioO que assisti foi um ensaio aberto, ainda com coisas para acertar no som, na luz etc, mas, sinceramente, poderia ter sido uma apresentação normal com pouquíssimos erros que passariam facilmente despercebidos.

A adaptação do texto feita por Cláudio Botelho e Charles Möeller trazendo elementos da nossa cultura para o texto não ficam devendo nada à qualidade dos atores. Realmente não tenho o que criticar negativamente nessa adaptação.

Preciso falar mais do caráter políticamente incorreto da peça! 

Causa uma certa estranheza ouvir que todo mundo é um pouco racista, um pouco facista, um pouco cruel. Muito embora seja verdade.

Avenida Q - CasamentoFiquei me perguntando se ao admitir isso com tanto bom humor (é uma das peças mais divertidas e para cima que já assisti) não corremos o risco de aceitar resignadamente que essas coisas são normais ou mesmo saudáveis.

Bem, arte não existe para educar, ela existe para manifestar, instigar, provocar, registrar…

Temos que lembrar que a peça é estadunidense e reflete em grande parte o que acontece lá e não há dúvida que o preconceito contra o preconceito já se tornou um problema por lá e é bem provável que, para acabar com essas tensões sociais e culturais o melhor caminho nesse momento seja, como sugere a peça, admitir que todos nós temos um pouco desses problemas cuidando assim mais dos nossos próprios preconceitos do que atacando os dos outros.

Elenco:

Não consegui achar as páginas de todos os atores, mas todos eles merecem ser citados com louvor aqui!

Outros links

Serviço

  • Teatro Clara Nunes no shopping da Gávea, terceiro piso, Rio de Janeiro
  • Estréia 6 de março de 2009
  • Produção: Charles Möeller e Claudio Botelho

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Noviça Rebelde no teatro

21st, December 2008

"Como vão colocar um filme daquele tamanho em um palco?"

 Chego à porta do teatro me espremendo entre as dezenas de pessoas acumuladas ali sem razão aparente, nem entram, nem saem. Olho ao redor tentando imaginar se há algo especial ali, mas até agora realmente nem imagino que estranha atração as escadas largas do Oi Casa Grande exerciam sobre a multidão. Estava mais curioso para ver o teatro por dentro e descobrir como conseguiriam colocar A Noviça Rebelde em um palco.

Foi inevitável lembrar da montagem de Sonhos de Uma Noite de Verão da Lucélia Santos.

Nossos lugares eram no balcão, a parte mais alta do teatro, que a propósito faz juz ao nome e é grande mesmo!

Sessenta Reais…

Vivo reclamando de peças que custam 30. A Noviça nos custaria 60 se não tivéssemos recebido convites, mas tenho que confessar logo que há excessões para toda regra. Com treze freiras, sete crianças, mordomo, capitão, noviça, Max, baronesa, nazistas e demais atores deve ter perto de trinta pessoas se revezando no palco. Isso sem falar no cenário… O valor é justo.

Chorei já aos 14 minutos, ri muitas vezes, me encantei com a qualidade do trabalho de cada um dos atores com destaque para a naturalidade da Kiara Sasso (faz a protagonista) e a atuação surpreendente de Fernando Eiras (no papel do tio Max).

O espetáculo é uma reprodução fiel do filme exceto por duas ou três músicas inseridas, sendo que uma delas eu achei um pouco mal encaixada, mas isso não prejudicou em nada o prazer que tivemos.

Descobir que algumas pessoas odeiam o filme e a história original. Imaginei que fosse por Maria (a noviça) ser uma mulher à moda antiga, mas vendo a peça me lembrei que não. Ela promove justamente uma ruptura no modelo machista vigente na época tornando-se parceira de igual para igual do capitão.

Pode-se dizer que a história é ingênua… Todas eram até o final da década de 80, não é mesmo?

A peça não é uma releitura, é uma reprodução fiel como eu disse, no entanto, mesmo com a ingenuidade característica do século passado as ameaças aos direitos individuais são um tema atual.

No filme eram os nazistas, hoje é o vigilantismo e o cerco à liberdade de expressão como nos alerta o @caribé. Tenho motivos pessoais para me sensibilizar com isso.

A propósito os atores que fazem os nazistas fazem um trabalho tão bom que são vaiados nos agradecimentos até que arrancam dos braços as faixas com as suásticas e recebem um dos aplausos mais efusivos da platéia. O destaque fica com Cássio Pandolfi no papel de Herr Zeller.

Depois de uma semana difícil saí do espetáculo com energias renovadas e novas idéias e é isso que vale na arte: nos dar forças ou tocar nossa consciência.

Apesar de ter destacado alguns atores todos merecem uma demorada salva de palmas pelo excelente trabalho.

Agradeço aos amigos no Twitter que nos indicaram para receber um par de convites da produção.

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Contra o esfacelamento da cultura no Rio

12th, May 2008

Recebi de uma amiga muito especial (em meu dicionário significa inteligente, determinada, consciente e humanista) o pedido de assinar o abaixo assinado errrr… abaixo:

Srªs e Srs. Deputados da Alerj – Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro

Nós, cidadãos abaixo-assinados, vimos, por meio deste, nos manifestar contra o esfacelamento do Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro (Fundação Museu da Imagem e do Som/MIS, Casa França-Brasil, Fundação Teatro Municipal, Escola de Dança Maria Olenewa, Fundação de Artes Anita Mantuano de Artes/Funarj e de suas unidades: Sala Cecília Meirelles, Teatros João Caetano, Villa-Lobos, Gláucio Gill, Armando Gonzaga, Arthur Azevedo e Mário Lago, Escolas Técnicas Estaduais de Música Villa-Lobos e de Teatro Martins Pena, Casa de Cultura e do Teatro Laura Alvim, Casas de Oliveira Vianna, de Casimiro de Abreu, de Euclides da Cunha, Museus do Ingá, do 1º Reinado, dos Esportes, dos Teatros, Antônio Parreiras, Carmen Miranda e Mané Garrincha), esfacelamento este imposto pelo atual Governo do Estado. 

Eu não assino abaixo-assinados pois acho que eles gastam energia que deveria ser melhor direcionada. Neste caso duvido que um abaixo-assinado de 2 milhões de pessoas preocupe mais um político do que mil blogs fazendo a cabeça de 10 mil eleitores…

A questão da cultura é muito séria e não cabe em um post (este é mais um tema para uma série de posts e muita pesquisa…).

Pesquisa é algo que não vou conseguir fazer agora, mas não posso fcar calado então vou sugerir alguns tópicos para reflexão e pesquisa.

As nossas casas de cultura já não andam bem mal ajambradas sob a batuta do estado? Ultimamente ando afastado do circuito cultural, mas até onde posso me lembrar talvez o dedo privado talvez até fosse capaz de melhorar um pouco o cenário. E quem está dizendo isso (eu) é um crítico persistente da deteriorização da arte em cultura de consumo…

Isso porque o primeiro a sucatear a nossa cultura somos nós mesmos! Pense na frequência com que nós e nossos amigos preferimos um bom filme ou peça que possam dizer ao menos que cheira a arte a um Homem de Ferro da vida?

… E olha que isso está sendo dito por alguém (eu) que adora uma boa cultura de entretenimento ;-)

Que está sendo esfacelado está, que isso é ruim, é, mas não acho que possamos esperar de políticos que saibam como mudar este quadro, não na conjuntura atual onde estamos ensaiando uma limpeza moral que deve ocupar boa parte das reflexões de qualquer político sensato.

Precisamos de idéias para reverter o que vem acontecendo.

Como podemos levar mais gente aos teatros e centros culturais? Pessoalmente eu aposto nas classes C, D e E pois as A e B, desculpem, não sabem dar valor a cultura.

Muitos artistas fazem arte para artistas. É comum (pelo menos era) ver sempre os mesmos rostos em todos os eventos culturais. Da dança ao teatro há um narcisismo bobo que contamina muita gente (artistas) com raras exceções. Só não vou citar nomes para não ser injusto com os que eu esqueceria.

Arte tem que estar antenada com o século seguinte e individualismo é coisa do século passado. Já é hora de compartilhar o pão e o vinho com todos.

Estou tergiversando (adoro esta palavra)…

A situação ao meu ver não pede protestos, pede ações, propostas e pressão democrática mostrando nas urnas o que nós queremos, mas para isso a classe artística precisa ir onde o povo está… 

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Sopro

23rd, April 2007

"Porque a vida merece ser vivida com arte pois sem ela é apenas existência, não é vida e existir não basta…"

Hoje foi o último dia do espetáculo Sopro da Cia Lume de teatro

A companhia é de São Paulo e está fazendo temporada no Rio apresentando 4 dos seus espetáculos e este foi o terceiro. Nas próximas duas semanas eles apresentarão Café com Queijo que, conforme me disseram, é o melhor trabalho deles.

Tenho minhas dúvidas.

Shi-Zen, sete cuias (que assisti das semanas atrás) e Sopro são tão espetaculares que desconfio que Café com Queijo deve ser mais elogiado por ser mais fácil de assistir.

De Shi-Zen vou falar em outra ocasião. Hoje estou sob efeito de Sopro e vou falar sobre ele.

Antes de mais nada a frase que inicia este post não tem muito a ver com o espetáculo, mas com a minha razão de gostar de criações subjetivas como Sopro. A frase, até onde sei, é da minha autoria.

Já Sopro é mais do que uma frase, é uma alegoria da vida…

Bom, cada obra de arte pode ser muita coisa, depende do observador, mas para mim Sopro conta a história do nascimento e espiração de uma vida consciente partindo do início paradoxalmente suave já que a nova vida explode em vez de brotar, mas em Sopro este nascimento é interno e não externo: Do ponto de vista da consciência o nascimento é lento.

Tenho que confessar que morri de sono afinal faz dias que não durmo direito por causa do nascimento dos filhotinhos da minha cadela.

Hummm… Este comentário ficou totalmente estapafúrdio aqui, mas gostei dele.

Sopro é um espetáculo que corre na velocidade lenta da vida e não na febril dança dos estímulos da sociedade do espetáculo. Em Sopro a vida é sintetizada aos seus elementos básicos como medo, alegria, deslumbramento, sexo.

O sexo aliás é um marco no espetáculo (ou eu sou um libidinoso que está supervalorizando a coisa) e foi a chave que me fez notar do que se tratava a criação cênica (Lume é mais do que teatro, é uma experiência cênica) e repassar mentalmente os primeiros 15 minutos sob este enfoque.

A partir do sexo vemos a traumática experiência de atirar nossa criação a um mundo que se mostra diante de  nós como um abismo e – aqui posso estar exagerando na minha interpretação – sentir o tempo se esvair como se o sentido da nossa vida estivesse restrito aos furores da juventude já que, entregues os filhos ao mundo as areias dos tempo nos jogo num turbilhão que conduz a nossa expiração.

Seja qual for a sua experiência com Sopro, entenda-o ou não, somente a experiência estética e o estado de consciência (olhando para dentro serenamente) em que nos coloca já faz desta uma grande obra de arte, pois arte tem que nos despertar e não nos adormecer.

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