Voltar aos 17
5th, October 2009
“Volver a los diecisiete después de vivir un siglo es como descifrar signos sin ser sabio competente”
Era jovem demais e vivia em um país alienado demais pela ditadura para ver a luta democrática que havia sob as palavras da música que me apresentou a Mercedes Sosa, mas na força da sua interpretação fui capaz de sentir profundamente como a criança que se depara com Deus: não entendia, mas sentia que aquele canto me chamava a pensar, a me mobilizar e me unir a todas as outras pessoas sem qualquer tipo de distinção.
Foi-se a possibilidade de ouvir novos cantos, mas sua voz ecoará para sempre em nossas consciências.
Como todas as traduções que achei estão protegidas por copyright aqui vai a minha em creative commons para você poder compartilhar (correções e sugestões são bem vindas).
Voltar aos 17
Voltar aos dezessete depois de viver um século
é como decifrar símbolos sem ser um sábio competente,
voltar a ser, de repente, tão frágil como um segundo
voltar a sentir profundamente como uma criança diante de Deus
isso é o que sinto nesse instante fértil
Vai se enredando, enredando
como a hera no muro
e vai brotando, brotando
como o musguinho na pedra
Como o musguinho na pedra ah! sim, sim, sim
Meus passos recuando enquanto os seus avançam
a arca das alianças penetrou no meu ninho
com todo seu colorido passou pelas minhas veias
e mesmo a dura corrente com que o destino nos prende
é como um diamante fino que ilumina minha alma serena
Vai se enredando, enredando
como a hera no muro
e vai brotando, brotando
como o musguinho na pedra
Como o musguinho na pedra ah! sim, sim, sim
O que o sentir pode fazer o saber não é capaz
nem a ação mais clara, nem o mais amplo pensamento
tudo muda em um momento como o mago condescendente
nos afasta docemente de rancores e violências
Vai se enredando, enredando
como a hera no muro
e vai brotando, brotando
como o musguinho na pedra
Como o musguinho na pedra ah! sim, sim, sim
O amor é um turbilhão de pureza original
até o animal feroz sussura seu doce canto
detém os nômades, liberta os prisioneiros
o amor com seu zelo, do velho faz um menino
e o mal só o carinho o faz puro e sincero
Vai se enredando, enredando
como a hera no muro
e vai brotando, brotando
como o musguinho na pedra
Como o musguinho na pedra ah! sim, sim, sim
De par em par a janela se abriu por encanto
entrou o amor com seu manto como uma cálida manhã
ao som de sua bela alvorada fez brotar o jasmim
alçando-se como um serafim aos céus lhe pôs brincos
meus anos em dezessete converteu o querubim
A letra original pode ser encontrada aqui: http://www.ctv.es/USERS/borobar/volvera.htm
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Eliana Printes e a palavra encantada
13th, March 2009
Esta semana tive o prazer de assistir o show de Eliana Printes no Centro Cultural Carioca (mais conhecido como CCC).
Sou um típico filho de militar dos tempos da ditadura e meu conhecimento da cultura nacional é uma lástima. É uma vergonha admitir que não saberia dizer até ontem que não sabia quem era Eliana Printes…
Fiquei surpreso ao descobrir quantas boas músicas que adoro são dela! Polaroids por exemplo… Clique no link lá em cima e veja com seus próprios olhos consultando a sessão Discos.
Logo que ela subiu ao palco e começou a recitar um poema me lembrei do documentário Palavra (En)cantada e ao longo do show parecia estar vendo a comprovação que muitos dos nossos melhores músicos são trovadores e arautos da literatura.
Espero ter oportunidade de ir a muitos outros shows dela! Até saí de lá com o CD mais recente comprado por 20 Reais.
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A Palavra (En)cantada: uma viagem à melodia da alma brasileira
11th, March 2009

Palavra Encantada é um documentário brasileiro de 82 minutos que nos conduz a uma inebriante viagem pela essência da nossa música popular começando pela influência dos trovadores medievais, passando por suas raízes entre a criatividade pulsante dos morros sem esquecer de reconhecer sua importância para a literatura em um país onde o hábito da leitura não chegou a se tornar popular antes da chegada do rádio, da tv e, claro, da música.
O documetário entra em cartaz na próxima sexta feira, dia 13 de março.
O trabalho de montagem é o grande segredo desse documentário que acada se livrando desse rótulo como se ele fosse um trilho indesejado que impedisse os movimentos imprevisíveis da alma.
Nós sabemos que a música… Aliás toda forma de arte, tem essa paradoxal qualidade que permite que o humano mais simplório e sem estudo possa produzir ou pelo menos iniciar novos tipos ou linguagens artísticas. Foi o que aconteceu com o Jazz, foi o que aconteceu com nossa música.
Veja o filme pois só assim você perceberá como nossa música é especial, mas vou tentar compartilhar um pouco afinal esse é um país onde o conhecimento não se distribui igualmente (ainda) e você pode não ter acesso a ele.
Trovadores
Na idade média os trovadores eram o que havia mais próximo da imprensa, eram eles que traziam as notícias do reino e as crônicas da vida diária que ridicularizavam as incoerências e exaltavam as conquistas.
Nossa música também assumiu esse papel desde o início do século XX pelo menos.
Ela nos sons do morro que vinham as crônicas de um Brasil que estava nascendo para sua identidade própria e desenvolvia sua cultura canibal.
Desde o início uma das nossas características foi o canibalismo de todas as culturas que chegavam aqui e eram logo absorvidas por nosso sotaque. Talvez seja uma avingança silenciosa das tribos canibais que perderem essas terras com a chegada do branco europeu.
Letras, literatura, poesia
Discute-se muito se letra de música é poesia, o próprio Chico Buarque rejeita a alcunha de poeta, e ele escreveu Construção!
No entanto o fato é que no Brasil a literatura e poesia por muito tempo só chegaram a nós tradizdas pela música e não só pela pena erudita de Vinícius de Moraes, mas também pelas vozes simples do morro que claramente iam buscar inspiração na literatura que seus vizinhos não liam.
O Cordel
É impossível não se emocionar com os relatos apaixonados que Tom Zé e Lirinha fazem dos duelos de cordel onde eles tiveram seu berço.
As vozes simples dos nossos repentistas nordestinos, tão distantes da nobre literatura, engendravam um circo de acrobacias sonoras e semióticas sem igual!
Um caldeirão que mais tarde virá a alimentar também o nosso movimento Hip Hop.
A voz do morro e a bossa nova
É bem provável que você já saiba da estreita relação da Bossa Nova com o samba do morro e da proximidade dos músicos de berço mais privilegiado como Vinícius e a originalidade selvagem de gente como Dorival Caymmi, mas resolvi citá-la aqui como ponte de ligação com o último tópico que me chamou a atenção e considero o mais importante do documentário.
Rap, Hip Hop, a nova voz do morro
Por vezes vejo um certo consenso de que já não há mais arte nos morros, que suas vozes foram caladas pelo tráfico de armas, drogas e outros empreendimentos do crime organizado que se instala onde antes apenas o galo e o samba cantavam.
São outros tempos no entanto! A voz do século XXI não é a voz da rotina pobre, mas o rosnado da consciência que precisa de espaço, o som agressivo da fera que precisa ser ouvida acima da violência que não vem apenas do crime, mas também da cegueira auto-imposta da gente do “asfalto”.
Os artistas de um lado continuam visitando os do outro. A literatura continua indo ao encontro do morro. A crônica da vida diária de uma parte ignorada do nosso povo continua descendo do morro: MPB e Rap se encontram para engendrar uma nova cultura para nossa alma sempre rebelde e a alienação não é o tom dessa nova música.
Conclusão
A Palavra (En)cantada termina nos deixando com a missão de refletir e perceber que o futuro que desponta lá na frente já está aqui hoje e, mesmo sendo obscuro, é algo de que podemos nos orgulhar pois algumas vezes as sombras revelam os becos escuros que esquecemos no caminho.
Entrevistados
Adriana Calcanhoto, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, BNdegão, Tom Zé, Martinho da Vila, Black Alien, Chico Buarque, Ferréz, Jorge Mautner, Paulo César Pinheiro, Zélia Duncan, José Miguel Wisnik, José Celso Martinez Correa, Lenine, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Maria Betânia e Luiz Tatit.
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Celos e Movimentos
15th, August 2008
O tempo anda curto, quando passo mais de 48h sem escrever é porque o tempo anda mesmo curto demais!
Ou pode ser apenas cansaço por não estar saboreando aquelas coisas da vida que fazem 24h valerem por 72!
Tem gente que é assim com a dor: sofre e o tempo rende mais.
Sou assim com arte. Quando mais leio ou me permito ficar perdido em boa música, mais ricos e produtivos são os meus minutos.
Pois está acontecendo estes dias o Rio Cello Encounter 2008 (obrigado André, por me lembrar!).
Estava entregue ao tal cansaço até que recebi a mala direta do Alex Neoral, coreógrafo da Cia Focus de dança contemporânea (não achei um site atualizado) avisando que eles apresentarão três dos seus espetáculos ao com de violoncelos.
Dança contemporânea + Violoncelos? Eu não resisto.
Devo ir no dia 17 que é mais pertinho de mim:
| 17/08 | Um a Um | Sala Cecília Meirelles | 19h |
| 19/08 | Entrelinhas & Curvas | Sesc Ginástico | 20h |
| 20/08 | Um a Um | Sesc Ginástico | 20h |
| 21/08 | Entrelinhas & Curvas | Sesc Nova Iguaçú | 20h |
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Mulheres de Hollanda
30th, July 2008
Subi as escadas para o bar do Bar do Zira e lá estava um palco apertadinho, cheio de fiios espalhados pelo chão e quatro Mulheres. Artistas daquela rara extirpe que é capaz de transformar os espaços tornando grande o que é pequeno e íntimo o que é vasto.
Esta foi a primeira vez que vi as cinco Mulheres de Hollanda.
Não é um cover do Chico Buarque, é uma reencarnação. Elas cantam com o jeito delas e, mais importante, com o jeito de hoje pois o século XXI pode não ter chegado, mas o XX certamente já acabou!
Suas marcas, a do século passado, são fortes, séculos não se vão assim sem lutar, mas os ventos já são definitivamente outros e a arte deve se transformar para abraçar o futuro, mesmo quando fala do passado.
O sabor novo nos arranjos e interpretações das Mulheres de Hollanda não está (pelo menos não na época, já faz um tempo que não as escuto por contingência do meu tempo) na inserção de estranhos floreios eletrônicos ou influências globalizadas (nada contra), mas sim em algo mais sutil como a força desta palavra, a qualidade do sentimento naquela frase. Pequenos detalhes que transformam um canto de dor em semente da força para a superação.
Estes dias fiquei sabendo que vão lançar um DVD e CD aqui:
- 30/7/08 – Centro Cultural Carioca | 21 2522-6468
- 31/7/08 – Trianon RJ | 21 2726-3500
- 01/8/05 – Mistura Fina RJ | 21 2523-1703
Vale a pena ir conferir.
O site das moças está em reforma, mas tem uma canjinha no Myspace.
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