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Candelária

1st, August 2008

Entro no elevador fugindo de um dia de trabalho cansativo que termina depois da hora, bem depois da hora humanamente decente.

A luz fria que devia iluminar as paredes de metal me parece pálida, obscurecida.

Chego na calçada sob as marquises da Presidente Vargas. Deuses! Como o elevador estava claro! Tudo parece envolto em nuvens negras e os olhares das pessoas que passam são órbitas vazias e sem luz.

Venta. É um vento fresco, é verdade, mas levanta a poeira do dia sem afastar as sombras e me força a olhar para o outro lado. Em direção à Candelária.

Uma luz. É um ponto tímido, mas forte, que vem de trás da grande catedral.

Sem saber bem porque, talvez por não ter melhor destino do que me deixar levar pelo rio de ventos que flui violentamente em direção à Igreja, sigo a passos cansados para aquela luz.

O barulho ensurdecedor dos carros e o caos das milhares de pessoas deixando seus empregos e se esbarrando estão lá, mas meus sentidos abafados praticamente não os percebem.

Quase não preciso andar empurrado pelo vento. Me concentro em não ser projetado para frente de cara no chão. Meus cabelos já desgrenhados e sujos ma fazem sentir uma criatura estranha à cidade.

Lá está a luz… Uma vela. uma única vela acesa na minúscula praça que fica atrás da catetral. Diante dela uma moça de joelhos rezando, não, deve ser uma velha, o rosto parece franzido… Talvez não, é tão pequena, tem que ser uma criança.

O vento faz suas roupas tremularem como uma bandeira no campo de batalha, seus cabelos longos refletem rubros a luz da pequena vela que permanece alheia ao vendaval que a cerca. A criança balança ao vento enquanto seus lábios se movem. A moça parece pedir algo novo á firme luz da vela. A senhora, aquele olhar só pode ser de uma senhora, certamente chora o que se perdeu ao mesmo tempo que se despede corajosamente do que já não lhe serve do passado.

Minhas mãos encontram uma vela jogada em uma encruzilhada, meus pés me levam até aquela luz solitária e, quando percebo, estou de joelhos diante da minha própria vela acesa que enfrenta com facilidade o vento.

Estou vazio. Ah! Quantas coisas velhas eu carregava! Quantos futuros possíveis eu desprezava! Sinto lágrimas de alegria descendo por minhas bochechas. Um dedo suave e sujo colhe a gota. A mulher me olha compassivamente.

Trazida pelo vento a primeira página de um jornal cola no meu peito "Justiça! Monstros!" o vento cessa, o mundo se cala… nossas velas se apagam. Suas chamas vivas refugiando-se atrás dos nossos olhos, sob nossos corpos que se abraçam esperando a primavera.

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Em Busca do Pó: Parte 13

11th, June 2008

Lembro de Eu, Robô de Isaac Asimov. A história de uma máquina sem alma ou humanidade que, no entanto, se encanta por estas características humanas. O jovem robô de IA - Inteligência Artificial também é uma boa metáfora.

Pode ser que nós humanos não sejamos muito diferentes dos animais e que esta história toda de Deus, alma e consciência seja apenas um tipo de efeito colateral da evolução que nos deu um cérebro com poder de processamento ocioso como sugere Gaarder em Maya.

Acontece que há um ponto em que não importa mais se inventamos Deus ou se ele realmente existe. O fato é que temos consciência ou, para voltar ao lugar comum, pensamos, logo existimos ou ainda, para atualizar um pouco este lugar comum… Questionamos, logo existimos.

É bem provável que um ancestral nosso tenha subitamente olhado ao redor ao se sentir totalmente seguro e tenha refletido “já comi, já fiz sexo, já corri com meus irmãos, já atirei frutas nas feras, mas ainda sinto necessidade de mais alguma coisa…”

Também é bem provável que outros animais estejam seguindo esta estrada e que venham a ser parecidos conosco em algumas dezenas de milhares de anos.

Aquele nosso ancestral pode ter pensado que o que lhe faltava era poder, séculos depois pode ter pensado que era prestígio e, ao perceber a morte como fim de tudo pode ter pensado em Deuses.

Imagino que nossos primeiros impulsos espirituais tenham sido bem mesquinhos e egoístas e Deus teve pouco a ver com isso.

No entanto ao começar a questionar demos um passo numa estrada de mão única. A cada passo descobrimos e expandimos mais nossa consciência. Pode até ser que estejamos nos aproximando de uma outra consciência ou quem sabe da fonte de todas as consciências?

Cientificamente falando “fonte de todas as consciências” não faz muito sentido, mas quem sabe? Até uns 40 anos Universo de 11 dimensões não fazia mais sentido que isso.

Seja como for estamos mais longe de uma suposta fonte de todas as consciência do que da compreensão da teoria das cordas, entretanto o caminho está bem aqui diante de nós:

QUESTIONAMENTO

Descrença, dúvida, questionamento e muita humildade são os instrumentos que podemos usar para buscar o Pó, já fé, certeza e dogmas nos prendem à visão que os antigos, menos inteligentes e conscientes que nós, foram capazes de construir.

Este post pode ter ficado um pouco repetitivo, mas achei importante definir as nossas ferramentas.

Posts anteriores

Parte 1
Parte 2
Parte 3 Parte 4
Parte 5 Parte 6
Parte 7 Parte 8
Parte 9 Parte 10
Parte 11 Parte 12

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Em Busca do Pó: parte 12

8th, June 2008

Doze é um ótimo número cabalístico e com ele vou começar a parte fácil desta série: qual é o sentido da vida, quem é Deus e o que vai acontecer agora?

É muito fácil responder isso pois, como tentei mostrar em algum post anterior da série, ela é quase totalmente subjetiva e uma escolha pessoal.

Bom, pessoalmente acho sem graça buscar Deus nas coisas como em “quem criou o Universo” ou “Como explicar a Matéria Escura?”, afinal de contas um dia chegaremos a respostas meramente científicas para isso e, além de ficarmos com cara de tacho Deus vai morrendo aos poucos.

O Deus que me interessa é o da alma. Aquele (ou aqueles) de onde emana nossa consciência e desejo de ir além dela.

Um animal, um vegetal ou uma rocha tem níveis de consciência muito baixos e se satisfazem em correr atrás de uma bola, fazer fotossíntese ou simplesmente ficar lá erodindo.

Humanos e outros seres mais conscientes querem se perguntar o sentido disso tudo e, ao nos perguntarmos, damos sentido a isso tudo. Este, para mim, é o maior milagre do Universo! A transformação de matéria inerte em consciência.

Como isso acontece? Como uma mistura dos 118 elementos se organizou na forma de organismos e como eles desenvolveram consciência?

Sabemos a resposta para boa parte do processo físico disso, mas é incrível que algo tão ímpar como a consciência apareça.

É claro que não conhecemos consciências não terráqueas, mas aqui entra meu insight (ou fé se preferir embora eu não veja assim).

Da mesma forma que tando uma caneta quanto uma pena caem em direção à Terra por causa da gravidade creio que se a consciencia surgiu aqui é porque de alguma forma ela é uma tendência  natural do Universo e, onde há fatores básicos para que os elementos se organizem para produzir vida, logo haverá consciência.

Qual é a característica desta consciência? Existe uma consciência perfeita Platônica? Ela é um fenômeno individual em que cada consciência existe independente das outras e solitária?

Por séculos (milênios até) temos esbarrado em sinais de que a consciência extrapola os limites do  nosso corpo. Temos oráculos, profetas que enxergam além e, mais recentemente, Jung com seu inconsciente coletivo.

O Universo como escolhi ver é um tipo de encubadora da consciência, ela existe fora de nós parcialmente nos criando e criada por cada ser vivo (talvez até uns não tão vivos) conforme desenvolve sua própria consciência. E podemos conversar com um tipo de consciência coletiva usando aletômetros como o I Ching ou um bocado de tranquilidade mental.

Logo vou defender mais especificamente cada um destes pontos de vista, mas o importante neste post é que…

O Pó é Deus, o Pó é consciência, Consciência é o fogo que alimenta nossa alma e ela é parte, senão função, do Universo.

O restante da série:

Parte 1
Parte 2
Parte 3 Parte 4
Parte 5 Parte 6
Parte 7 Parte 8
Parte 9 Parte 10
Parte 11

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Em busca do Pó: Parte 11

5th, June 2008

É bom recapitular rapidamente.

  • Decidi falar tudo que tenho a falar sobre religião para não ficar falando mais nisso no blog
  • Não sou autoridade em nada disso. Não passo de uma pessoa que gosta de refletir e ler um pouco a respeito
  • Pó é uma metáfora para a consciência na obra Fronteiras do Universo de Philip Pullman (uma trilogia literária humanista de fantasia)
  • Até agora só falei onde acho que o Pó e os Deuses “reais” não estão

Se este assunto te interessa muito você pode ler os outros posts na tabelinha abaixo:

Antes de dizer onde acho que o Pó está e onde vejo a nossa espiritualidade tem mais uma coisa que prometi comentar nos posts anteriores… Este deve ser o meu post mais estranho EVER!!! ;-)

Uma consciência não humana em nosso caminho

Calma! Não acredito em interfência alienígena em nosso desenvolvimento! ;-)

Alguns teólogos (como Nilton Bonder de A Alma Imoral) parecem crer que a nossa alma é transgressora e deseja a transformação.

Realmente, olhando nossa história fica claro como mudamos! Não faz muito tempo as mulheres não tinham almas, os Deuses estavam presos a espaços geográficos, escravidão era normal e sacrifícios humanos um desejo dos Deuses.

Nossa consciência tem uma sede desesperada de compreender o Universo e transcender todos os nossos limites.

No entanto a transformação descontrolada produziria um caos incontrolável. É necessário atrito contrário ao impulso mutante da consciência. Este atrito até hoje era garantido pelas tradições; as religiões guardiãs não da alma transgressora, mas do corpo conservador (ainda parafraseando Nilton Bonder).

As tradições não são o único atrito e, na verdade, a cada dia elas me parecem mais frágeis e fadadas a perder o seu poder.

Muitos discordam de mim quando digo isso e afirmam que as religiões nunca foram tão fortes. Creio que estão errados… Basta que você pense em quantas pessoas deixam de fazer coisas por medo de Deus.

O religioso médio só crê em deus quando quer se colocar como seu escolhido e superior aos outros. Raramente um corrupto deixa de se corromper, um sádico deixa de torturar por medo das consequências. Muito pelo contrário! Eles podem fazer isso pois o deus deles o permite.

Existe um outro sistema de “crenças” atuando (e substituindo o antigo) sobre a nossa civilização. Trata-se das crenças espetaculares (ne sentido dado por Guy Debord).

Na Sociedade do Espetáculo descrita por Debord a nossa atenção é controlada por um mundo virtual criado por uma profusão de espetáculos. A própria Internet com os mesmos textos alienados ecoados à exaustão por email ou em blogs é um ótimo exemplo.

Além do mais quantas pessoas conseguem trabalhar para a máquina econômica e ainda pensar em questões metafísicas? O normal (no sentido de comum) é que aceitemos ser instrumentos de uma grande sociedade consumista-capitalista-espetacular e que alimentemos a necessidade de transgressão da nossa alma com jargões prontos.

Estas coisas (tradições, religiões etc.) são criadas por uma consciência não humana 

Bem, ao menos este é o meu insight. Não lembro de ver outra pessoa falando nisso.

Prefiro a minha suposição da consciência não humana às numerosas teorias da conspiração que atribuem poderes de manipulação absurdos à elite econômica do planeta.

A teoria é simples.

Nós temos o impulso institntivo de atender as espectativas do nosso grupo social.

Coloque pessoas normais em uma sociedade onde todos acham idiota ler e logo a maioria dessas pessoas atormentarão quem gosta de ler. Faça o teste! Pergunte ao seu amigo que sempre faz piada com gays, negros ou nordestinos porque ele acha que estas pessoas são inferiores. Ele certamente dirá que é só brincadeira ou jeito de falar.

A consciência não humana que eu vejo é um tipo de consciência coletiva formada pela interação das nossas consciências individuais.

Esta consciência coletiva formaria hoje uma resistência ao pensamento criativo independente absurdamente mais poderosa do que as religiões (também criadas do mesmo jeito) jamais tiveram, afinal agora temos possibilidades exponencialmente maiores de interação entre as consciências individuais.

Ok, este deve ser um dos meus posts mais estranhos EVER! ;-) Talvez nem devesse tentar abordar estas idéias tão rapidamente, mas acredito que esta consciencia coletiva tem um papel importante em nossa busca pelo Pó. Seja individual ou coletivamente.

Há ainda uma outra característica desta consciência coletiva que devo citar: ela é moldada para atender as necessidades do poder vigente. O poder vigente não é mais o Rei. O poder vigente é o capital e, principalmente o consumo.

Assim como no filme Matrix a nossa espécie se tornou bateria para uma civilização de máquinas que não precisa de O2 para viver, hoje somos baterias a serviço de um tipo de consciência corporativa que deseja ardentemente aumentar o consumo, os mercados e os lucros acreditando que isso é bom, mas ela ainda é uma consciência jovem e ingênua. Não sabe que as unidades de carbono conhecidas como humanos devem ser preservadas.

Se você chegou até aqui e entendeu tudo que eu quis dizer provavelmente se deve mais à sua inteligência do que à minha abilidade com as palavras. Se você entendeu tudo e discorda de mim por favor me dê a boa notícia! ;-) Se entendeu e concorda talvez possa me ajudar a humanizar mais as corporações a a nossa cultura para que todos possamos caminhar para uma nova forma de consciência.

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O bondoso Deus que grita BUUUU

25th, May 2008

Acho estranho quando vejo um religioso dizer que é muito íntimo de Deus, que fala com Ele e que Ele é bom com ele e, enfim, que são bons amigos, para, logo em seguida, contar que uma prova da bondade e proteção de Deus a seu favor foi não ter acontecido nada com ele naquele terremoto ou tsunami.

Putz! Se Deus gostasse do cara de verdade e o cara estivesse na boa com sua divindade onipotente não era nem para acontecer algo assim perto do crente, não acha? Ou será que Deus gosta de se esconder atrás de portas para gritar BUUUU assim que passamos?

Para mim, se existe alguma divindade, se ela pode moldar tudo que acontece ao nosso redor e algo ruim acontece então a gente está fazendo alguma coisa errada!

Até prova em contrário tenho a impressão é que as divindades não ficam nos mimando não e deixam a vida correr solta. Não protegem ninguém, não castigam ninguém, pois nós temos que deixar esta adolescência e aprender a lidar uns com os outros…

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