Avatar, o filme de James Cameron
13th, January 2010
Eu não pretendia comentar Avatar aqui pois apesar de ser um filme com belos efeitos visuais e uma história com boa mensagem ecológica e de criação de pontes entre culturas definitivamente não é nem um filme original e nem contém questões novas ou especialmente bem colocadas.
No entanto, depois do enorme sucesso de bilheteria e de comentários dizendo que o filme é racista, que algumas pessoas ficam deprimidas porque Pandora não existe e que é uma obra importante, profunda e inspiradora decidi dar os meus pitacos.
O filme é bem óbvio e não creio que ler sobre ele estrague a graça de assistí-lo, mas assim mesmo aviso que esse post terá spoillers, ou seja, vou ter que falar em coisas que você pode querer ver em primeira mão no filme então se esse for o caso só continue a ler se já assistiu.
Racismo em Avatar
O argumento seria que o salvador dos indígenas era um humano branco e supostamente, para não ser recista teria que ser o contrário: os nativos teriam que salvar os civilizados…
Francamente acho que foi justamente o que aconteceu. Os humanos são mostrados como seres rudes, insensíveis, gananciosos e selvagens. Creio que a sensação geral da platéia é a de se envergonhar de fazer parte da espécie humana.
Se Avatar é racista é contra os humanos.
Nota-se claramente, como em Dança com Lobos ou O Último Samurai que a cultura e sabedoria superiores dos nativos é que salvam o humano moralmente primitivo, mas Avatar vai muito além pois o humano não abandona simplesmente sua cultura, ele deixa de ser humano para se tornar N’avi.
Esse racismo anti-humano me incomoda um pouco pois creio que nossa espécie já anda com a auto estima muito baixa e reforçar isso pode nos desesperar em vez de nos trazer novo fôlego. E sabemos que para algumas pessoas filmes são um tipo de constatação da verdade e não um reflexo dos medos e sonhos do artista.
Pandora existe. É aqui…
É curioso que as pessoas se sintam deprimidas por Pandora não ser real. Algumas das formas de vida bioluminescentes da Terra são até mais belas do que as do filme.
Devo lembrar também que a teoria de Gaia consiste justamente na suposição de que nosso planeta se comporta como um organismo de tal forma que uma seca em uma região provoca chuvas em outra mantendo assim um equilíbrio da biosfera.
Infelizmente a maioria dos humanos vive hoje em um mundo virtual construído de corredores de concreto, ruas de asfalto, túneis e poderosas luzes urbanas que nos impedem de ver o organismo Gaia em funcionamento.
Antes que alguém afirme que Gaia está morta e que nossas emissões de CO2 e descarte de plásticos foram as armas do crime sugiro uma espiada na história das extinções em massa para constatar que Gaia já enfrentou golpes milhares de vezes mais poderosos que os nossos. A biosfera está garantida.
Filme profundo e inspirador
Talvez na tentativa de explicar o sucesso do filme nas bilheterias o crítico acabou lançando esse paradoxo.
Estou convencido que uma obra de arte profunda é incapaz de atingir a maioria dos humanos.
Se todos nós buscassemos uma reflexão profunda da nossa existência provavelmente entraríamos em colapso nervoso
Ainda somos uma forma de consciência muito jovem para nos dedicarmos a tal esforço coletivo.
Avatar é uma história comum, com belos efeitos especiais e uma carga emocional que, ouso sugerir, pegou as pessoas porque todos nós estamos cansados do mundo primitivo da civilização das coisas e temos uma necessidade enorme de reconexão com os sentimentos e ideias simples da vida. Nós desejamos ser N’avis.
Só espero que nossa falta de conhecimento do nosso próprio planeta e alma aliados à erva daninha do fatalismo que se sustenta em nossa baixa auto estima não nos transforme em tristes espectros que não acreditam no futuro.
Pandora
O nome do planeta é o único ponto que eu destacaria no filme.
Vamos deixá-la aberta e lamentar nossos desvios morais ou vamos todos segurar a esperança e tentar conter a ganância, a ignorância, o medo, o preconceito, o orgulho (sempre disse que orgulho é antônimo de auto estima ou amor próprio) e outros sentimentos que nos tornam indivíduos menos preciosos para construir o futuro da nossa civilização e do planeta?
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Vamos ajudar a indústria da TV por Assinatura?
8th, December 2009
Recebi um email de uma amiga convocando os contatos dela a se unirem para defender os interesses das TVs por assinatura que podem ser obrigadas a produzir mais material nacional, afinal é mais barato comprar o que já deu certo (ou não) lá fora do que participar dos riscos de investir na produção cultural nacional e dar emprego para pessoas aqui, né?
Para falar a verdade não sei porque alguém se sentiria estimulado a defender essa indústria, deve ser para não ser obrigado a recorrer à prática considerada criminosa de baixar filmes e séries via Torrent.
Bem, não sei porque as pessoas tratam de assuntos de interesse geral por email, mas, apesar de já ter respondido o que acho, vou anexar a resposta que mandaria:
Humm… Televisão… Televisão… Calma, vou lembrar o que era…
Puxa! Vc pegou do fundo do baú! Tô começando a lembrar!
Numa época em que ninguém podia escolher o quê ou quando ver tinha um tipo de rádio com imagens que a gente captava em coisas que pareciam monitores velhos de computador e tinham péssima imagem além de uma programação limidada a uns 11 canais.
Depois veio a tal TV por assinatura, seguindo a elitista tradição brasileira que condena os pobres a péssimos serviços e os ricos a aceitarem pagar resignadamente pelo que o estado deveria prover: a educação é uma merda, mando meus filhos para o exterior, o transporte público não funciona então compro um carro, a televisão aberta é ruim então pago uma assinatura…
Me parece que a única elite é o governo enquanto os ricos são patos e os pobres ratos… Orwell faria uma festa no Brasil!
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Se bem me lembro as pessoas pagavam felizes por um serviço sem qualquer respeito pelo consumidor que era obrigado a pagar por pacotes com centenas de canais mesmo que só assistissem três ou quatro, para ter 24h de transmissão quando só assistiam umas duas por dia. E, para piorar tudo, assim como a TV aberta, você tinha que estar em casa na hora do programa ou comprar um dispositivo para gravá-lo pois, é inacreditável, eu sei, mas os programas passavam em horários fixos e não quando a gente solicitava!!!
Logo no começo do século XXI abandonei essa tecnologia irritante passando a ver mais DVDs e coincidentemente foi em uma época em que eu tinha pouco tempo para vídeos pois estava escrevendo e lendo muito (online, claro). A minha pequena necessidade videográfica se resumia a Dr. Who que passava uma vez por semana e, se não me falha a memória, foi interrompido por um ano no final da primeira década do século XXI.
Ah! Teve também uma tal de TV aberta digital… Veio com promessas de permitir a democratização das transmissões abertas e canais comunitários, mas por pressão de cartéis das principais transmissoras, acabou sendo igual à TV não digital, com os mesmos canais, mas com a possibilidade de ver os poros dos atores, uma coisa meio nojenta, felizmente foi natimorta.
Por isso tudo, quando os grupos responsáveis pelas TVs por assinatura se uniram contra a determinação do governo que os obrigaria a produzir mais conteúdo nacional, a única vez que me manifestei foi para dizer que por mim 100% da programação dos canais transmitidos para o Brasil deveriam exibir conteúdo nacional ou relevante para os nossos interesses.
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Deixa ela entrar: Terror ou poesia?
18th, November 2009
Ao ver no Arteplex Unibanco o cartaz da versão nacional de Let The Right One In me lembrei que não comentei esse filme ainda e pelo jeito finalmente ele vai entrar em cartaz no Rio.
Pode ler o restante do post pois sempre me esforço para não dizer nada que diminua seu prazer de assistir o filme (ou ler o livro).
Algumas obras não deviam ser classificadas como terror, romance, ação ou drama: elas se constroem com tanta delicadeza que deviam ser chamadas apenas de obra ou, mais propriamente, arte.
Não me entenda mal, Deixa Ela Entrar é um filme de terror e se você abomina o estilo não vá ver.
Acontece que ele vai muito além disso, aliás, uma tristeza esse título. Uma tradução mais literal como “Deixe a pessoa certa entrar”, apesar de feia, seria muito melhor.
A história se desenvolve justamente sobre a delicada e tênue fronteira entre quem é ou não confiável. O que constrói uma relação de confiança? O que nos separa ou aproxima do monstro, do selvagem e do humano.
Já faz quase um ano que assisti esse filme em um DVD área 1 (em Inglês) e apesar das barreiras da língua ele me deixou marcas tão claras que me emociono enquanto escrevo.
Bem, tenho que admitir que a minha leitura do filme não é a única. Eu achei belo e poético, outros podem facilmente achá-lo perverso e até ultrajante.
Esta multiplicidade de significados é outra característica das obras de arte e o diretor Tomas Alfredson teve o meticuloso cuidado de não limitar os personagens a um carater definido apesar de criá-los com uma profundidade e riqueza incomuns no cinema moderno.
Isso tudo sem falar que as atuações das crianças são de cair o queixo.
Resumindo, é um filme para assistir com carinho e carregar na memória pois será útil em vários momentos da sua vida.
Você pode encontrá-lo em Inglês nas locadoras ou comprar na Amazon:
Outras opiniões:
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Cinema: 2012
16th, November 2009
Antes de mais nada: pode ler o post pois não entregarei nada que atrapalhe o prazer de ver o filme.
2012 aproveita a suposta profecia Maia (uma das únicas civilizações que provavelmente se extinguiu por ter esgotado seus recursos naturais) de que o mundo terminaria em 21/12/2012 (porque não 12/12/2012?) para elaborar mais um filme catástrofe na longa linha que vem desde Terremoto até os mais recentes Impacto Profundo, O Dia depois de Amanhã e Presságio.
No entanto há muitas coisas interessantes a destacar no filme.
Até pouco tempo o cinema catástrofe se resumia a inventar uma desculpa (geralmente esfarrapada) para uma série de desastres que os mocinhos teriam que driblar até que tudo voltasse ao normal.
A fórmula básica não mudou, no entanto há coisas que não existiam antes, pelo menos não tão claramente.
- Há um claro reconhecimento que nossa espécie é extremamente vulnerável e que poderia facilmente se extinguir
- Desde Impacto Profundo essa modalidade de ficção nos pergunta: quem nossa civilização procuraria salvar (Ok, não vou esquecer Dr. Fantástico)
Do ponto de vista de lazer 2012 vale pelos primeiros 40 minutos, o meio e o fim não são nem animados, nem suficientemente questionadores, no entanto ainda assim achei que valia a pena escrever sobre ele.
Uma amiga ficou revoltada porque o mundo não vai acabar daquele jeito (err… alguém está achando que vai acabar de alguma forma?) e outro se perguntou se as pessoas agiriam do jeito que agem no filme.
Gente… É um filme pipoca, não é nem documentário, muito menos tratado antropológico.
O que há de interessante para observar nesses filmes são as questões básicas da moral e dos nossos medos intuitivos que tornam o filme um sucesso ou atraente para o espectador.
E nesse sentido creio que, a cada novo filme catástrofe que é lançado as questões que estão nas entrelinhas são:
- Será que não é hora de pensarmos em modos de preservar nossa espécie dos riscos naturais? Será que não está na hora de nos lançarmos ao espaço para o caso de algo terrível acontecer na Terra?
- Qual é a essência da nossa espécie? Somente o caldeirão genético ou também nossa produção artística e cultural?
- Cataclismas naturais (lembram do Tsunami de 2004?) e artificiais (15 milhões de crianças morrem de fome por ano) já estão exterminando milhões de vidas, será que, em nosso estágio atual nossa civilização trabalharia em conjunto para salvar a nossa espécie ou trabalharia em segredo para salvar um punhado de ricos?
Nada acontecerá em dezembro de 2012, mas me arrisco a dizer que, a cada dia, filme tolo a filme tolo, estamos construindo uma nova consciência a respeito da nossa fragilidade e da nossa moral.
A Terra talvez experimente profundas transformações climáticas nos próximos 30 ou 40 anos e o que estamos fazendo a respeito disso? Estamos mobilizados para garantir que o máximo de humanos e outros terráqueos sobrevivam e se adaptem? Estamos fazendo algum esforço substancial para impedir (o que acho praticamente impossível) as mudanças climáticas ou para nos prepararmos para elas?
Dificilmente.
Se qualquer um desses filmes se mostrasse real e nosso planeta passasse por transformações tão rápidas somente uma minoria de poderosos sobreviveriam e provavelmente se matariam logo depois na disputa pelos parcos recursos.
É essa a civilização que desejamos construir?
Felizmente o mundo não acabará tão cedo e ainda há tempo para mudar o que realmente pode alterar nosso mundo: nossa consciência.
Cada uma das nossas vozes individuais é sagrada
pois cada voz nos enriquece e toda voz perdida nos diminui
Somos a voz da humanidade, a consciência do Universo
A chama que ilumina o caminho para um futuro melhor
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Dr. Fantástico – Dr. Strangelove – 1964
22nd, April 2009
Lançado em 1964, Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, é mais uma das obras primas de Stanley Kubrick.
Se Kubrick tivesse sido um blogueiro ele teria escrito apenas 12 posts que teriam mudado o mundo e mais nenhum. Ele jamais seria um tuiteiro
Confesso que Dr. Fantástico era uma das imperdoáveis lacunas na minha educação cinematográfica, mas é bom apreciar uma obra 45 anos depois do seu tempo.
Em sua época o filme foi uma das poucas críticas diretas à hipocrisia e irresponsabilidade predominantes, principalmente quando ele nos mostra o Dr. Strangelove, um ex-cientista nazista tão ética e moralmente questionável quanto qualquer outro monstro nazisa, como consultor de armamentos do presidente dos EUA, afinal de contas porque os nazistas eram ruins mesmo?
Ainda hoje nos esquecemos que nossos cientistas “do bem” tem sido capazes de fazer experiências e criar aramentos tão crueis quanto os dos nazistas.
Dr. Fantástico continua sendo um ótimo filme para nos ajudar a refletir sobre o nosso tempo: será que estamos administrando nossa civilização de uma forma muito diferente da caricatura de Kubrick?
Fora isso há o prazer de ver algumas das mais brilhantes atuações de Peter Selers que faz três papeis: Presidente dos EUA, Dr. Fantástico e o oficial que tenta impedir o desastre a todo custo.
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