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Propriedade Intelectual

Crônica imaginária do fim da arte de Oiticica

18th, November 2009

É uma sala laranja. Me afundo em um sofá laranja observando com o zoom da filmadora as pequenas rachaduras na parede laranja.

Ao meu lado uma longilínea figura acinzentada balança uma velha fita VHS mofada supostamente com horas de filmagem das fotografias do acervo devorado pelas chamas de Helio Oiticica.

Um grande artista reduzido a 640X480 pixels.

- Se eu fosse você jogava tudo na Internet – tive que dizer

- Você tem duas coberturas na Av. Atlântica? Não precisa de dinheiro?

Pensei que não, pelo menos não ao custo de entregar a arte à língua ígnea da propriedade intelectual ou do esquecimento (felizmente fora da crônica parece que muito se salvou).

Tivessem fotografado, reproduzido, copiado e remixado Hélio Oiticica hoje ele seria imortal, sua voz ecoaria entre nós conforme-nos lançamos ao espaço explorando novas fronteiras.

Quantas figuras cinzentas e longilíneas terão fragmentos preciosos de grandes obras escondidos em seus armários esperando a chance de se se fazer rico com o trabalho de outros? Com o trabalho da própria humanidade?

Essa Malvina Cruela pode ser fruto da minha imaginação febril, um fantasma que saltou das rachaduras da parede diretamente para a minha retina através do zoom de uma cãmera digital, mas receio que haja muitas como ela.

Minha personagem com certeza aceitaria destruir a fita por um bom preço…

E lá vai ela pelo corredor, agarrada ao sonho de vender as torpes imagens de 640X480 por uma pequena fortuna, comprar suas coberturas, viagens para a europa e um guardaroupa cheio de sonhos, mas nenhuma arte.

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A literatura nos une ou nos segrega?

25th, October 2009

Quando nos emocionamos uma descarga bioquímica que dura 90 segundos se espalha por nosso corpo e reduz o funcionamento da nossa mente ao de uma criança de uns três anos.

Antes te escrever esse post tive que esperar vários períodos de 90 segundos depois de ler o artigo Em Defesa da Literatura de Mário Vargas Llosa na Piauí.

Infelimente a minha emoção foi de pavor.

Aparentemente para Llosa a humanidade se divide entre “leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi” que se sentem da mesma espécie e o restante:

Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo – um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal

Quero deixar claro que tenho convicção de que a arte é o ar que a consciência respira e quanto mais acesso nossa civilização tem à arte mais nossa consciência individual e coletiva cresce, mas não posso aceitar tamanho elitismo!

Nem toda arte é literatura, nem toda arte obedece aos critérios de arte dos imortais das academias e raramente é através da sua forma mais erudita e pura que a arte consegue se espalhar por nossa civilização.

Quantas pessoas leram os clássicos? Qualquer um deles? Quais você leu?

Como não li mais do que meia dúzia de clássicos imagino que não tenha direito de opinar já que devo me enquadar entre os “incivilizados, bárbaros e órfãos de palavra”, mas assim mesmo, bronco e selvagem, me sinto no direito de defender minha frágil consciência e a de todos nós que não somos letrados na chamada “boa literatura”.

Em algo concordo

Como disse concordo que a chamada boa literatura, ou melhor, a boa arte é essencial para criar o pensamento dissonante, a perversão da estética ou da moral que serão responsáveis pelos ecos que se espalharão por toda nossa coletividade criando novas culturas, manifestações artísticas, percepções da realidade e outras formas de alterações que podem ou não dar certo, mas fazem parte da evolução da nossa consciência.

Sem Shakespeare, Milton, Dante, Fernando Pessoa, Cruz e Souza, Machado de Assis (e acho que citei todos que li) e muitos outros a nossa espécie estaria em um estágio muito mais selvagem de consciência.

No entanto creio que é um erro crasso, elitista e até com ameaçadores traços de fascismo sugerir que apenas quem entra em contato direto com as versões originais dessas obras teve acesso ao seu valor artístico e cultural.

A arte é como uma vacina

Vacinas são pequenas doses de um mal que é injetado em nossas veias para que possamos aprender aos poucos e construir mecanismos para receber doses maciças.

A diferença é que a arte não nos prepara apenas para as dores, é claro, ela nos antecipa prazeres (com seus riscos de sedução) e devaneios que ajudarão a criar novas facetas em nossa rica consciência.

Basta olhar até para os mais simples sopros da cultura chamada de idiota por Llosa para ver ali os sussuros dos grandes clássicos.

Guerra nas Estrelas, Senhor dos Anéis, Fronteiras do Universo, Basquiat, Merce Cunningham, Sandman (os quadrinhos de Gaiman), Codinome Robotech, Viagem de Chihiro, a literatura de cordel, impossível esquecer a literatura de cordel, o hip hop, o samba de raiz.

Tudo isso são preciosos líquidos portadores de doses suaves das mais profundas palavras de Proust, Kierkergaard ou Homero!

E se todos fossem eruditos?

Um mundo de adoradores dos grandes mestres da literatura (parece que para Llosa só há literatura), filosofia, teologia, teatro etc. seria uma Valinor materializada?

Não tivemos diversos grandes eruditos sádicos, imorais, perversos, eugenistas… Aliás o ícone da loucura homicida, Hittler, leu quase todas as obras de Shakespeare além de Dante e mais alguns clássicos.

Em todo caso há na erudição um tipo de endurecimento da consciência que tende a idolatrar as vozes do passado desprezando a consciência do presente.

É raro encontrar um erudito que não esteja convicto de que jamais haverá outro Shakespereare ou um teólogo que não ache que os humanos só foram capazes de ver Deus entre 5 e 2 mil anos atrás fazendo da Bíblia o livro definitivo sobre a espiritualidade humana.

Um mundo de eruditos é um mundo onde a consciência está morta e não há espaço para a nova arte.

Prefiro um mundo selvagem e incivilizado a um congelado em sua própria arrogância.

Bem, agora vou ali ler Proust para poder chamar todos os outros se animais rudes e sem sensibilidade.

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A Viagem de Chihiro e outras fábulas de Hayao Myazaki

15th, June 2008

Apesar de ser de 2001 nunca falei aqui nas fábulas fantásticas de Hayao Miyazaki das quais A Viagem de Chihiro se não é a mais famosa talvez seja a que agrada a gostos mais diversos.

Pacote: Chihiro e Blink BillÉ uma pena ver estas obras sumindo do mercado brasileiro. Notei que hoje você só pode comprar a saga da corajosa Chihiro junto com Blink Bill, o Ursinho Travesso (que não conheço, mas soa estranho ao lado de Chihiro) lá no Submarino.

Capa de A Viagem de ChihiroA Livraria Cultura tem a capa original, mas informa que a publicação está cancelada: 

Cada obra de Miyazaki aborda um tema essencial.

Em A Viagem de Chihiro estamos diante da responsabilidade e do amadurecimento de uma menina pré-adolescente que se vê em um mundo mágico cheio de regras que ela não compreende e seus pais não são capazes de dominar pois… Bem, eles são seduzidos pelos apelos consumistas por assim dizer. Não vou falar mais para não atrapalhar o prazer do filme.

Já disse outras vezes que a arte que eu mais gosto é aquela que me diz algo e não há dúvida que as fábulas de Miyazaki são assim! Mas nem tudo que nos diz algo é arte (nem toda arte diz algo) e nem sempre o que nos faz refletir ou nos prepara de alguma forma para o mundo é boa arte (não me atrevo a revelar o primeiro exemplo que me ocorre!) como é o caso de Babylon 5 cujo valor artístico… bem… Não sei se tem valor artístco ;)

Miyazaki não se satisfaz em ter conteúdo, ele faz arte de qualidade.

O cuidado que ele tem na construção do ambiente mitológico e da fluidez das suas animações é algo que só os especializados nisso podem explicar.

Capa de Princesa Mononoke (importado)Antes de Chihiro (1997) houve Princesa Mononoke onde a questão ecológica (que passa ao largo em Chihiro) é o tema central.

Em 2004 ele nos trouxe o Castelo Animado que é uma sobre amor. A gente anda muito confuso sobre o amor. Muita gente ainda acha que ciúme é demonstração de amor e não de possessividade e… Veja o filme ;-)

Castelo Animado: capaHá uma coisa que me agrada muito em O Castelo Animado: ele parece estar em sintonia com uma visão entre um tipo de visão neo-ultra-romântica e uma contemporânea do amor puro e impossível contra o qual todas as forças lutam e que não pode se realizar. Ele está em Philip Pullman, em seriados adolescentes, em Neil Gaiman e, claro, em literatura mais séria como… A Menina que roubava livros, talvez…

Castelo Animado: ImportadoEm minha humilde opinião estes deviam ser os filmes da infãncia dos jovens que terão a tarefa de consertar os erros das gerações passadas e não, me desculpem, os Harry Potter, Homem Aranha, Shrek e similares (apesar destes filmes não terem nada de similar).

Se queremos dar o melhor aos nossos pequenos humanos temos que prepará-los para o mundo e não distraí-los dele, afinal o mundo chegará de qq forma.

Conheça mais sobre Hayao Miyazaki na Wikipedia.

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Contra o esfacelamento da cultura no Rio

12th, May 2008

Recebi de uma amiga muito especial (em meu dicionário significa inteligente, determinada, consciente e humanista) o pedido de assinar o abaixo assinado errrr… abaixo:

Srªs e Srs. Deputados da Alerj – Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro

Nós, cidadãos abaixo-assinados, vimos, por meio deste, nos manifestar contra o esfacelamento do Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro (Fundação Museu da Imagem e do Som/MIS, Casa França-Brasil, Fundação Teatro Municipal, Escola de Dança Maria Olenewa, Fundação de Artes Anita Mantuano de Artes/Funarj e de suas unidades: Sala Cecília Meirelles, Teatros João Caetano, Villa-Lobos, Gláucio Gill, Armando Gonzaga, Arthur Azevedo e Mário Lago, Escolas Técnicas Estaduais de Música Villa-Lobos e de Teatro Martins Pena, Casa de Cultura e do Teatro Laura Alvim, Casas de Oliveira Vianna, de Casimiro de Abreu, de Euclides da Cunha, Museus do Ingá, do 1º Reinado, dos Esportes, dos Teatros, Antônio Parreiras, Carmen Miranda e Mané Garrincha), esfacelamento este imposto pelo atual Governo do Estado. 

Eu não assino abaixo-assinados pois acho que eles gastam energia que deveria ser melhor direcionada. Neste caso duvido que um abaixo-assinado de 2 milhões de pessoas preocupe mais um político do que mil blogs fazendo a cabeça de 10 mil eleitores…

A questão da cultura é muito séria e não cabe em um post (este é mais um tema para uma série de posts e muita pesquisa…).

Pesquisa é algo que não vou conseguir fazer agora, mas não posso fcar calado então vou sugerir alguns tópicos para reflexão e pesquisa.

As nossas casas de cultura já não andam bem mal ajambradas sob a batuta do estado? Ultimamente ando afastado do circuito cultural, mas até onde posso me lembrar talvez o dedo privado talvez até fosse capaz de melhorar um pouco o cenário. E quem está dizendo isso (eu) é um crítico persistente da deteriorização da arte em cultura de consumo…

Isso porque o primeiro a sucatear a nossa cultura somos nós mesmos! Pense na frequência com que nós e nossos amigos preferimos um bom filme ou peça que possam dizer ao menos que cheira a arte a um Homem de Ferro da vida?

… E olha que isso está sendo dito por alguém (eu) que adora uma boa cultura de entretenimento ;-)

Que está sendo esfacelado está, que isso é ruim, é, mas não acho que possamos esperar de políticos que saibam como mudar este quadro, não na conjuntura atual onde estamos ensaiando uma limpeza moral que deve ocupar boa parte das reflexões de qualquer político sensato.

Precisamos de idéias para reverter o que vem acontecendo.

Como podemos levar mais gente aos teatros e centros culturais? Pessoalmente eu aposto nas classes C, D e E pois as A e B, desculpem, não sabem dar valor a cultura.

Muitos artistas fazem arte para artistas. É comum (pelo menos era) ver sempre os mesmos rostos em todos os eventos culturais. Da dança ao teatro há um narcisismo bobo que contamina muita gente (artistas) com raras exceções. Só não vou citar nomes para não ser injusto com os que eu esqueceria.

Arte tem que estar antenada com o século seguinte e individualismo é coisa do século passado. Já é hora de compartilhar o pão e o vinho com todos.

Estou tergiversando (adoro esta palavra)…

A situação ao meu ver não pede protestos, pede ações, propostas e pressão democrática mostrando nas urnas o que nós queremos, mas para isso a classe artística precisa ir onde o povo está… 

Filed under: Cultura, Dança, Teatro, arte | 2 Comments »

A arte de Guilhermo Habacuc Vargas

4th, May 2008

Já falei o que acho do Guilhermo Habacuc Vargas e da história do cachorro que teria sido deixado para morrer em uma exposição de arte.

Estou voltando ao assunto pois esbarrei com a petição online para tirá-lo da bienal de Honduras este ano e deixei lá o comentário mais abaixo que eu creio que acrescenta algumas coisas ao que eu já havia dito.

Em tempo… Gostaria muito que as pessoas se comovessem ao ponto de fazer como a minha amiga e que cada uma escrevesse um post sobre o assunto. Isso seria uma forma de fazer a morte do cãozinho (proposital ou acidental) valer para alguma coisa!

Ah! Ainda em tempo! Outro post interessante sobre o assunto é o da Filhote de Lua.

Meu comentário para a minha amiga:


Até onde pude apurar a história não é bem esta… Afinal a exposição foi na Espanha Nicarágua (se não me falha a memória) onde certamente não sei se teriam impedido a instalação.

Parece que o fato é que pegaram um cachorro de rua fraco e doente. Ele era alimentado e tratado fora do horário da exposição e ficava amarrado sob a frase “você é o que você lê” escrita com ração colada na parede. Depois de algum tempo o cão, que já chegou muito fraco, morreu.

No entanto…

  1. Não sei de nenhuma obra de arte recente que tenha causado tanta comoção e mobilização… É duro, mas até onde sei nada inferior a ela teve efeito. A culpa não é do artista, mas da nossa insensibilidade…
  2. Apesar da comoção milhões de pessoas passam fome nas ruas, o que se dirá de animais? E não vejo mobilização suficiente para mudar isso! Talvez se algum artista prender uma pessoa de baixa renda a uma parede onde se vê escrito com moedas “você é o que você consome”
  3. O fato de acreditarmos facilmente que ninguém fez nada pelo cãozinho é um importante alerta da nossa descrença uns com os outros e, finalmente
  4. Se fui mal informado e realmente deixaram o animalzinho morrer de fome em nome da arte e ninguém fez nada então estamos perigosamente insensíveis…

Em tempo, é claro que sou contra qualquer tipo de crueldade contra animais, pessoas, plantas ou mesmo pedras.


Atualizando em 7/5/2008

Comentários inflamados neste post! Cheguei a pensar em escrever sobre algo deixar de ser arte por ser abjeto ou doentio, mas prefiro fazer isso se algum dia esbarrar com algo assim que eu considere arte. Não, eu não acho que o “És o que lês” seja arte.

Quem acha isso são as pessoas que colocaram a obra em uma galeria de arte (e colocarão em outra este ano) e quem dá força à relevância do ato são os mais de 2 milhões de pessoas que votam na petição on line.

Há muita paixão nesta história toda e a verdade – que para mim pouco importa aqui já que não estou preocupado com o artista e sim com a forma como isso repercute – se perde, em todo o caso, já que parece haver grande interesse nisso fui fazer uma busca e aparentemente o cão recebeu comida e água, ficou preso por 3h e depois fugiu no dia seguinte:

Filed under: Comportamento, arte | 10 Comments »

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