Noviça Rebelde no teatro
21st, December 2008
"Como vão colocar um filme daquele tamanho em um palco?"
Chego à porta do teatro me espremendo entre as dezenas de pessoas acumuladas ali sem razão aparente, nem entram, nem saem. Olho ao redor tentando imaginar se há algo especial ali, mas até agora realmente nem imagino que estranha atração as escadas largas do Oi Casa Grande exerciam sobre a multidão. Estava mais curioso para ver o teatro por dentro e descobrir como conseguiriam colocar A Noviça Rebelde em um palco.
Foi inevitável lembrar da montagem de Sonhos de Uma Noite de Verão da Lucélia Santos.
Nossos lugares eram no balcão, a parte mais alta do teatro, que a propósito faz juz ao nome e é grande mesmo!
Sessenta Reais…
Vivo reclamando de peças que custam 30. A Noviça nos custaria 60 se não tivéssemos recebido convites, mas tenho que confessar logo que há excessões para toda regra. Com treze freiras, sete crianças, mordomo, capitão, noviça, Max, baronesa, nazistas e demais atores deve ter perto de trinta pessoas se revezando no palco. Isso sem falar no cenário… O valor é justo.
Chorei já aos 14 minutos, ri muitas vezes, me encantei com a qualidade do trabalho de cada um dos atores com destaque para a naturalidade da Kiara Sasso (faz a protagonista) e a atuação surpreendente de Fernando Eiras (no papel do tio Max).
O espetáculo é uma reprodução fiel do filme exceto por duas ou três músicas inseridas, sendo que uma delas eu achei um pouco mal encaixada, mas isso não prejudicou em nada o prazer que tivemos.
Descobir que algumas pessoas odeiam o filme e a história original. Imaginei que fosse por Maria (a noviça) ser uma mulher à moda antiga, mas vendo a peça me lembrei que não. Ela promove justamente uma ruptura no modelo machista vigente na época tornando-se parceira de igual para igual do capitão.
Pode-se dizer que a história é ingênua… Todas eram até o final da década de 80, não é mesmo?
A peça não é uma releitura, é uma reprodução fiel como eu disse, no entanto, mesmo com a ingenuidade característica do século passado as ameaças aos direitos individuais são um tema atual.
No filme eram os nazistas, hoje é o vigilantismo e o cerco à liberdade de expressão como nos alerta o @caribé. Tenho motivos pessoais para me sensibilizar com isso.
A propósito os atores que fazem os nazistas fazem um trabalho tão bom que são vaiados nos agradecimentos até que arrancam dos braços as faixas com as suásticas e recebem um dos aplausos mais efusivos da platéia. O destaque fica com Cássio Pandolfi no papel de Herr Zeller.
Depois de uma semana difícil saí do espetáculo com energias renovadas e novas idéias e é isso que vale na arte: nos dar forças ou tocar nossa consciência.
Apesar de ter destacado alguns atores todos merecem uma demorada salva de palmas pelo excelente trabalho.
Agradeço aos amigos no Twitter que nos indicaram para receber um par de convites da produção.
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Cloverfield Monstro
21st, November 2008
Hoje descobri que muita gente nunca ouviu falar do suposto sucesso do ano passado. Ontem escrevi sobre ele sob uma ótica compatível lá no Meme de Carbono.
Como teve alguma coisa que eu achei que não valia a pena comentar no Meme de Carbono decidi escrever um post sobre ele aqui também.
Pode ser a seguir sem medo de ter a graça de assistir o filme estragada. Eu quase nunca entrego algo importante dos filmes que comento. E se o faço é sem querer.
Os extras tem duas informações que seriam úteis antes de assistí-lo:
- J.J. Abrams, depois de visitar o Japão, quis que os EUA tivessem um monstro nacional como o Godzila também.
- Cloverfield é um monstro bebê
Eu não diria que o filme é bom. Tem aquele jeito Lost de J.J. Abrams e suas caixas mágicas eternamente fechadas (procure a palestra dele no ted.com), mas o foco narrativo nos coadjuvantes (que comento no outro blog) e essa humanização do monstro aliados a uma profundidade psicológica um pouco maior do que o padrão em filmes deste estilo fazem a sessão valer a pena. Desde que você goste do estilo, claro!
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Raízes da violência: Marco Zero
18th, October 2008
Há meses pretendo escrever uma série de posts sobre as raízes da violência para, entendendo-as, saber como evitar situações de risco, como sair das que não pudermos evitar e, pensando mais amplamente, saber o que devemos esperar e cobrar dos nossos políticos para reduzir a violência ou, o que seria preferível, alimentar uma cultura humanista pela paz.
É uma empreitada complexa para alguém que não tem formação acadêmica específica… Caro visitante casual (90%) este é o momento ideal para avisar que sou um analista de sistemas, consultor em gestão do conhecimento e amante da arte, mas não sou psicólogo, psicanalista, psiquiatra, antropólogo, teólogo ou nada parecido.
Tenho aproveitado toda oportunidade para questionar pessoas com essas formações acadêmicas, mas parece que nenhum deles se dedicou bem aos estudos ou então o nosso conhecimento da mente criminosa e da anatomia do medo e da violência são mesmo muito superficiais e ninguém até hoje havia me indicado bons autores ou livros.
Até agora…
Hoje, com a história de um rapaz que sequestrou e acabou atirando na namorada e na amiga dela, acabei tenho um excenlente papo com a @Maffalda que acabou por me dar 70% do material que vou usar nesse post.
Ainda não será agora que poderei iniciar a série de posts, mas achei meu marco zero: alguns links (online e offline) que servirão de ponto de partida para descobrir o que há de mais sério sobre o assunto.
Vou ter que ler um bocado e convido quem esbarrar nesse post a fazer o mesmo.
Acho revoltante que a mídia faça sempre uma novela em torno de qualquer violência ou ato hediondo, mas nunca nos alimente com informações que nos permitam sair da perplexidade apavorada que nos deixa vulneráveis para a compreensão que nos ajudará a evitar situações de risco ou a lidar melhor com elas em último caso.
O primeiro livro que me trouxeram sobre isso foi Assédio Moral de Marie-France Hirigoyen. Uma amiga querida teve que passar por anos de casamento com um assediador moral e se separar antes de conhecer esse livro. Se o tivesse lido antes não teria que lidar com as sequelas de uma relação tão nociva e assustadoramente comum… É muito provável que você que está lendo esse texto já tenha sido ao menos vítima de tentativas de assédio moral. A propósito, descobri que a bela capa é obra da @s1mone (não, é dela, mas de uma homônima, que coisa…).
O Virtudes do Medo (mais acima) foi a primeira dica da @Maffalda. Na verdade foi praticamente como começou nosso papo, parece que ela leu minha mente pois é exatamente o tipo de livro que eu vinha procurando. Ele contém sugestões de como usar nosso instinto de medo (auto-preservação) em situações urbanas para as quais ele não foi programado. Pela sinopse parece leitura obrigatória para qualquer morador dos grandes centros metropolitanos.
Para quem não pretende gastar dinheiro agora e está com o inglês afiado há o site Stalking Behavior que nos conduz a uma vasta gama de informações.
Já que a maioria dos assediadores são homens nada mais natural que a literatura a respeito favoreça as mulheres. Uma outra sugestão da @Maffalda foi Odd Girls Out que também está disponível em nossa língua com o título Garota fora de jogo: a cultura da agressão oculta nas meninas de Rachel Simmons.
Apesar de não possuir a autoridade de um especialista me atrevo a dizer que, sejam quais forem as raízes da violência moderna o adubo que a alimenta é o medo que germina em nossa incapacidade de compreendê-la a ponto de acreditarmos que os agentes da violência - como o rapaz no sequestro que motivou esse post - são monstros e não humanos… Já disse isso antes e volto a dizer: não há monstros e, enquanto fugirmos da reflexão demonizando as pessoas que praticam atos hediondos estaremos colaborando para perpetuar a violência.
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A Oxford de Lyra
15th, October 2008
É uma obra singela que só deve ser apreciada mesmo pelos fãs da trilogia Fronteiras do Universo de Philip Pullman e não tem as mesmas pretensões filosóficas da trilogia, mas há um quê de Will Eisner ou mesmo de Borges na maneira que a cidade em si se torna um personagem.
Também tenho essa relação com as cidades e lugares… Eles, para mim, tem um espírito que lhes é conferido por sua história e pela história das pessoas que passam, vivem e morrem em suas esquinas.
A Oxford de Lyra não é uma cidade tão mítica quanto a de Borges em O Aleph, nem tão viva quanto o Edifício de Will Eisner, mas é suficintemente carismática para nos deixar com vontade de caminhar por suas calçadas à noite.
Mesmo não sendo uma obra de leitura obrigatória é bom rever uma personagem forte que nos apresenta um bom modelo de comportamento para o século XXI.
Além disso a boa tradução de Daniel Estill consegue manter o ritmo e o clima da trilogia original garantindo uma leitura fluida para o fã voraz por mais um pouco da cativante Lyra Belaqua.
Quem não leu a trilogia deve evitar o livro pois contém alguns spoillers.
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Tracey Fragments - Bruce McDonald
12th, October 2008
É impressionante como uma história simples pode se desdobrar em tantas facetas graças a uma grande atuação (Ellen Page no papel pricipal de Tracey Berkovitz) e, principalmente, a um roteiro e edição brilhantes!
Pode ler o restante do artigo sem medo de "spoillers" pois eu não faço isso.
Talvez a protagonista de 15 anos não seja a menina padrão dos nossos centros urbanos, mas definitivamente é um bom modelo.
Ela comete erros, pelo menos um grande erro e outros pequenos, mas, e talvez essa seja a maior qualidade do filme, não se trata de cometer ou não erros, mas da força do caráter que, a propósito, me lembra Lyra Belaqua de Philip Pullman.
Como uma jovem mulher de 15 anos se sente diante do mundo hoje? Como ela devia se sentir? Como deveria se apresentar? Como uma criança desamparada e insegura ou com independência e confiança? Tracey com certeza é mais forte e segura que a maioria dos adultos no filme. Aliás é uma das personagens mais fortes que tive o prazer de conhecer.
Além da excelente atuação de Ellen Page temos a edição que povoa a tela de pequenas janelas onde fragmentos da história circulam em ritmos e fluxos de tempo dispersos construindo uma experiência intelectualmente estimulante, rica e significativa. Você provavelmente se lembrará de Memento, mas esta película vai além tecendo simultaneamente cenas do início, do meio e do fim.
Curiosamente a narrativa fragmentada contrasta com a personalidade solidamente (e precocemente) coesa da protagonista o que me fez pensar que o mundo em transição deste início de século pode ser frágil, mas nós humanos nos tornamos mais fortes mantendo o equilíbrio desse complexo móbile.
É um filme para comprar e ter em casa.
Sugiro apenas que você afie o Inglês antes de assistí-lo e evite as legendas para saborear cada fragmento da narrativa.
Em tempo… O filme é baseado no livro homônimo de Maureen Medved, um dos próximos na minha lista de leituras.
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