Inocência
18th, November 2008
O concreto áspero da mureta de proteção está frio sob seus pés descalços. O vento ainda gelado nos primeiros sinais do dia que amanhece sopra seus cabelos.
Diante dela o mar a convida para seus braços, atrás, vindo de um carro parado com a porta do carona aberta, uma voz grave a rejeita e expulsa do mundo "sua vida não vale nada, nem para mim, nem para ninguém! Vai!"
Seu corpo balança levemente, junto com as ondas vinte metros abaixo. Seu espírito se quebra entre as brumas brancas, mas seus pés permanecem firmes sobre o cimento crú.
- É por ele que você pretende tomar o mar como noivo, não é?
A voz vem de um homem, nem jovem nem velho, difícil de definir na verdade, ele está sentando na pedreira, abaixo da mureta, alguns metros à sua esquerda. Ela o olha sem susto, afinal o que importa?
Continua girando até encontrar os olhos cheios de desprezo do homem no carro por quem ela pretende provar amor eterno atirando-se para o infinito.
- Ele vai ter ciúmes de você, dirá que preferiu o mar a ele e te esquecerá… Lembra dos abraços, dos beijos dele? Do jeito como ele usava seu corpo, como se ele mesmo nunca estivesse ali realmente?
Silêncio… Ela continua oscilando, mas os olhos continuam fixos no homem no carro e em suas memórias. No primeiro dia que ele a abordou; mais velho, mais sábio e encantadoramente impossível para sua tolice adolescente… Mas ele a quis! … Ou não quis? Afinal toda vez que estavam em público ele a ridicularizava, na cama a fazia de escrava e passava dias sem ligar sem nenhum motivo. Uma nuvem de dúvida passa discretamente por seus olhos quase infantis.
- Pula para cá, tenho um belo jogo de cartas ciganas, aprendi a usá-las com os primeiros bruxos! Você vai ver que ele nem virá se despedir de você. E o futuro eu tenho aqui nas cartas, pode vir que eu te pego!
Como se estivesse desfalecendo ela deixa o corpo despencar, suas forças se esvaíram e ela decide que se aquele homem puder salvá-la então esse é o destino. Tão logo seu corpo lânguido some atrás da mureta ouve-se o guinho agudo dos pneus no asfalto e logo retorna o silêncio dos últimos minutos da madrugada, exceto pelos risos tímidos dela e a voz firme do nômade.
- Hei - Ela fala entre risos - Isso é um chapéu de mosqueteiro?
- É sim, cai-me muito bem, não acha?
Junto com as duas gargalhadas o sol mostra o primeiro sinal da sua coroa incandescente.
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A primeira…
14th, November 2008
Estava lendo sobre a primeira vez no Sexto Sexo e…
Eles chegam entre beijos apaixonados ao andar onde ela mora, as luzes se apagam antes deles entrarem e seus corpos se encaixam entre duas paredes entregando-se aos beijos sem fôlego, o desejo dos 18, 19 anos.
Mãos exitantes procuram as fendas nas roupas para sentir o calor da pele do outro e uma leve tonteira toma conta dos dois apaixonados.
Entram em casa apesar de já não fazer muito sentido dentro ou fora pois o mundo parece extranhamente maleável, como se as paredes não fossem sólidas, mas imagens de um sonho onde tudo acontece rápido demais apesar de andar em câmera lenta.
Olham-se sem ar entre os beijos, tocam-se sem foco entre gemidos que escapam ao medo de dar uma impressão errada, experimentam carícias timidamente, antecipam o próximo passo com o coração descompassado e aquela sensação de peito vazio.
Meio sem querer, meio cheios de querer, mas sem palavras, vão se livrando estabanadamente das roupas que se enrolam nas pernas, na cabeça e nos pés antes de sumirem em algum lugar no chão.
Ela não sabe se deve tocar, ele acha que não deve pedir, não dizem nada, apenas se misturam em uma nuvem de perfumes, calores e humidade.
O corpo nu dela també é um território extranho e desfocado ou ele está zonzo. Sem olhar demais com medo dela pensar que ele é um adolescente deslumbrado com o sexo (é justamente o que ele é) deita-se desjeitadamente sobre ela, sem saber como encontrar o caminho entre o calor úmido passa a tatear até que ela o ajuda com suas mãos delicadas e tão inexperientes quanto as dele.
"Ai! Não acredito! Bom! Vou desmaiar! Tô flutuando?" os pensamentos se misturam tão rapidamente entre a coreografia em câmera lenta dos corpos que não dá tempo de ter dúvidas ou medos, tudo se perde entre a suspensão do oxigênio entre um suspiro e um gemido de lábios mordidos, do calor que os invade conforme encontram o caminho e se perdem dos sentidos e do mundo como se houvesse apenas seus corpos suspensos no infinito negro do Universo vazio.
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Entre as montanhas de sal
12th, November 2008
Eu tinha um melhor amigo em Cabo-frio. Isso foi há 30 anos.
Lembro das salinas com seus quadrados cheios de água extremamente salgada e aquele limo vermelho esquisito. Tinha pequenos morrinhos de sal, mais ou menos da nossa altura, onde fazíamos cavernas até os dedos racharem. Ah! E tinha as vezes que subíamos as enormes montanhas de sal com um alto custo para os nossos pés descalços.
O tempo apaga muitas memórias, mas ontem escrevi algo sobre câncer, lembrei desses tempos e um imagem leva a outra…
Tinha Mônica que nem sei se era nome ou apelido pois ela era dentuça e forte, o Ivan que os pais deixavam sozinho quase todo tempo e, apesar de rico, geralmente comia pão com manteiga e açúcar que ele mesmo fazia… Tinha também a casa mal assombrada, o dragão que fazia um geiser entre a praia das Conchas e do Peró.
E tinha também o Júnior, o meu melhor amigo da época. Talvez tenha sido com ele que aprendi a visão religiosa irreverente.
Um dia, ao redor da grande mesa marrom escuro da minha casa a gente estava falando em religião, um monte de crianças com seus 12 ou 13 anos… O Júnior afirmava categoricamente que Jesus era mulher afinal o Cristo Redentor usava saias! Depois de ser pressionado pelos coleguinhas ele finalmente falou "Vai lá e levanta a saia dele para ver!"
Ali naquela imensidão de ruas, lugares secretos e caminhos escondidos a nossa galera era meio Indiana Jones e o Júnior um dos aventureiros mais destemidos.
Um dia ele começou a ficar mais magro e a próxima lembrança que tenho, a gente só se via mesmo nas férias, já é dele sem cabelos, aquela cabeça totalmente lisa e branca. ele parecia um alien sorridente pois, até onde minha memória alcança, ele nunca perdeu o humor.
No verão seguinte ele já não apareceu escondendo-se para sempre apenas entre as nossas histórias e devaneios… Acho até que há um bocado dele no Gato de Botas…
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Tula cumprimenta o verão
31st, October 2008
As ondas se dobram com estrondo antes de se esparramar ao redor dos seus pés causando um arrepio que sobe sensualmente pela nuca e faz com que ela morda sensualmente os lábios, feche os olhos e se entregue à sensação do vento frio soprando seus cabelos para o lado.
Seus sapatos estão largados mais atrás e ela nem se importa com as barras molhadas da calça jeans de boca larga.
Já faz um tempo que ela está ali bebendo lentamente a água do coco enorme que segura com as duas mãos. Ela bebe e observa o céu nublado onde se encontra com o mar.
"Dia frio para o Beltane" ela pensa… A primavera está no meio, daqui para frente cada dia é mais um para chegar o verão, mas se o céu não está em chamas dentro do peito dela o sol está a pino!
O céu ruge ao longe e começa a chover fino enfeitando seus cabelos e o braço arrepiado com delicadas contas des ínfimas gotas de chuva.
Seu corpo, no entanto, ainda sente a memória do calor da noite passada e antecipa o encontro logo mais à noite na floresta de sons, luzes, coisas ditas ao pé do ouvido para vencer a música alta e o roçar do rosto barbado em suas bochechas.
Ela fica ali… oscilando ao som da sua música íntima… no rítmo do sol que trilha o céu escondido pelas nuvens densas… A noite e o tempo congelam seduzidos e esperam que ela os deseje.
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Vassoura
5th, October 2008
Um canto como qualquer outro, é uma reentrãncia entre dois prédios, um desses lugares invisíveis para onde ninguém olha.
Ali poderia estar um mendigo encostado dormindo, um cachorro de rua, um pequeno amontoado de oferendas para os Deuses, a trouxa de pertences de um velho morador de rua ou mesmo um casal se beijando ardentemente atendendo o chamado da lua da primavera.
Tinha uma vassoura.
Novinha, limpinha e com um laço laranja e lilás. Ainda assim ninguém a via. Nem os meninos de rua, nem os lixeiros que passaram mais cedo, muito menos as pessoas ocupadas em ir do trabalho para casa ou para o restaurante onde os amigos as esperam.
Passam os dias, o sol ao meio dia, o sal da maresia à meia noite vão devorando lentamente as cores de bela vassoura que espera pacientemente.
Ao contrário do que se poderia esperar o desgaste não lhe subtrai valor, pelo contrário, lhe concede personalidade. Antes era apenas uma vassoura nova esquecida em um canto, agora? Mais uma personagem com as cores e espíritos da cidade que a abraçou.
Ali no canto ela observa a bola improvisada com sacos de mercado recheados com trapos e quatro meninos de rua que vem correndo. Finalmente ela é vista. Agora ela é parte daquele mundo. Uma mão suja com unhas encrustradas de fuligem negra estica os dedinhos para tocá-la.
"Tira a mão menino! Te faço sair pulando feito sapo, hein? Essa ai é destinada a mim!"
A velha mendiga parece ter saltado de dentro da parede do prédio e segura firme o pulso do moleque que torce a boca um pouco por medo e um pouco tentando parecer ameaçador. Não funciona. A mão da velha parece um torno mecânico e, quando ela o solta, só resta ao menino sair correndo xingando a mendiga de bruxa. Ela ri…
"E… Então a bruxa deixou mesmo a minha vassoura…"
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