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Propriedade Intelectual

Godofredo chega em 12 de dezembro

28th, November 2009

O Godô dança será lançado

sábado, dia 12 de dezembro de 2009,

das 11h30 às 14h,

na Livraria Sobrado,

na Av. Moema, 493 – Moema – São Paulo – SP.

Vai ter contação de estória para os pequenos.

Godofredo é um livro infantil escrito por Carolina Vigna-Maru, amiga de longa data e uma das pessoas mais cultas que conheço.

Poucos amigos me pedem para escrever sobre seus trabalhos porque minha natureza solitária me torna um crítico sem pudor: Se for ruim eu falarei mal.

No entanto esse ainda não é um post sobre o livro, posto que não o li ainda, mas sobre a autora, seu estilo e a densidade das suas palavras.

Já li muitas coisas da Carol e há nelas várias qualidades que me enchem de expectativa e esperança diante dessa publicação.

Em primeiro lugar há justamente uma densidade de experiências e profundidade de vida que frequentemente transbordam, no cenário, no caráter dos personagens ou até permeiam toda a obra (conto, poema…) fazendo das suas criações muito mais do que arte de consumo.

Não menos importante: ela escreve para nossa porção inteligente, jamais para nossos aspectos tolos.

Como disse mais acima, quando é ruim não me importo se é amigo ou não, entretanto, vindo da Carol realmente espero uma obra no mínimo original e instigante. Vá conferir :)

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A ciência e a transformação da consciência nas profecias maias para 2012

25th, November 2009

Sobre a dificuldade de falar em crenças

Profecias não são previsões, elas são fruto de crença e falar em crenças é complexo pois o modelo de raciocínio nesses casos segue mais ou menos o seguinte roteiro:

  1. Sinto que isso é verdade
  2. Outros sentem igual, então deve ser verdade
  3. Buscar comprovações lógicas para a crença

Alguns nem precisam do segundo item.

Aqui tentarei seguir outra forma de raciocínio pois parter de uma intuição ou crença pode ser muito útil do ponto de vista psicológico, mas dificilmente nos leva a conclusões lógicas ou racionais.

De onde vem a síndrome do apocalipse?

Lá no final desse post há um artigo da Veja (quem diria?) que fala sobre isso, mas arriscarei um resumo da minha própria opinião.

O caminho da consciencia instintiva animal para uma consciência racional (e porque não cósmica?) não é nada fácil. Quando tivemos o primeiro lampejo da consciência que temos desenvolvido e da capacidade de raciocínio que a acompanha devemos ter nos petrificado de pavor diante de um universo vastíssimo de coisas que passaram a ter que ser explicadas e isso sem falar nas emoções e pensamentos que nos assaltam. Aliás, há um livro bem instigante sobre isso, Maya de Jostein Gaarder. A coincidência de nome é apenas uma coincidência, mas é providencial!

Desde o início dos nossos tempos como humanos temos enfrentado mais transformações do que nossa mente gostaria, basta pegar qualquer período de 20 anos na história da humanidade para ver que, quanto mais perto do presente, mais rápidas são as transformações. Não que não fossem rápidas nos tempos da Bíblia quando num período de uns 50 anos (desde o nascimento de Moisés) profundas modificações ocorreram no império do Egito, ou nos tempos de Aquenaton.

É natural que, diante das profundas transformações que nossa cultura, tecnologia, economia, sociedade etc. estão passando nós experimentemos uma sensação de morte. Erich Fromm já falava nisso em 1941 e não creio que estivesse muito longe da “verdade”: nós vivenciamos a transformação como se fosse uma morte.

O que dizem as profecias?

Sou um apaixonado por física desde os 11 anos quando comecei a ler A Evolução de física de Albert Einstein e Leopold Infeld(demorei anos!) e, do ponto de vista científico, não consigo levar nada a sério nas profecias, mas vou falar disso mais abaixo.

Há uma razão para todos buscarem profecias e creio que a razão é a busca por uma forma de consciência que se ajuste melhor aos nossos tempos.

Talvez as sucessivas falhas em prever o fim do mundo ou sua mágica transformação radical seja até uma forma de despertarmos para o fato de que somente o nosso trabalho lento e continuado de evolução consciente (a evolução caótica e inconsciente a gente já seguiu por muito tempo) é o único caminho para transformar nosso futuro e não esperar que o sol, Zuvuya ou qualquer outro fenômeno sobrenatural agite uma varinha transformando nossa consciência em um passe de mágica.

Aliás, sobre isso, há a brilhante graphic novel Dr Strange Shamballa de J.M. DeMatteis.

Das discussões que acompanhei e pelo que ouvi dos amigos que acreditam em um evento em 2012 percebi que, tirando a coisa dos cataclismas cinematográficos ou transoformações mágicas tudo se traduz em mudanças de consciência, principalmente:

  1. Aprender a ver nas diferenças culturais, sociais, filosóficas e outras não um incômodo a tratar com tolerância, mas um maravilhoso fenômeno da nossa diversidade memética (não resisto a usar o termo ao menos uma vez) que deve ser admirada e festejada;
  2. O estabelecimento de relações mais justas entre países ou mesmo o fim dos países
  3. Tomar as rédeas do nosso desenvolvimento e buscar uma consciência maior do nosso caminho evolutivo
  4. Passar a conviver com nosso meio ambiente adaptando-nos a ele em vez de tentar adaptá-lo a nós (gosto muito dessa)
  5. Fim do controle da sociedade pelo medo e pela culpa caracteríscos da cultura judaico-cristã. Essa também é uma boa meta: trocar a sociedade de controle do espetáculo (vide Guy Debord) pela sociedade liberadora do conhecimento (muito embora ainda haverá outras formas de controle nocivo a superar no futuro)
  6. Mudança do sistema econômico: na era do produto e do captalismo cognitivo as regras de mercado da oferta e procura estão em xeque e realemente devem mudar
  7. Telepatia: comunicação ampla entre todos os humanos. Bem, para os conectados basta listar o Google Latitude, Twitter, internet movel, marcapasso wifi… Se não fizer sentido é só googlar.
  8. A susbstituição da satisfação pelo consumo (comprar, comer, beber, festejar) que é predatória dos nossos recursos e pode ser útil para preservar os genes, mas nociva aos memes (ok, foi a última vez) por uma busca de satisfação pela criação, ou seja, em vez de destruir, consumir passaríamos a nos dedicar à nossa superação pessoal e coletiva
  9. Coletividade é um ponto falho em quase todos os discursos proféticos: a maioria parece satisfeita em ser salva da destruição enquanto os perdidos ficariam aqui para morrer. Essa é uma das críticas mais consistentes aos movimentos esotéricos, de auto-ajuda e da lei da atração que, acredito, tem interseções com os grupos que acreditam em profecias apocalipticas

Outro ponto preocupante é que parece haver uma certa unanimidade entre essas pessoas de que a nossa espécie é o anticristo ou coisa similar e que as profecias de alguma forma indicam a liberação da Terra da praga chamada humanidade. Esse impulso suicida e auto destrutivo pode nos causar problemas caso se torne uma crença predominante.

A ciência das profecias

Resolvi deixar isso para o final pois não vejo qualquer sentido na suposta ciência que apoiaria as profecias, mas simpatizo com as propostas de mudança de consciência que elas sugerem.

A data

É claro que faz sentido assumir que o solstício de verão (aqui no hemisfério sul) seria o marco do fim do mundo, afinal no hemisfério dos Maias ocorre o solstício de inverno que, na maioria das culturas sintonizadas com os ritmos das estações, marca o fim do ano e a necessidade de se preparar para as dificuldades do inverno.

No entanto se estamos falando em um cálculo baseado no calendário astronômico Maia (considerado 4s mais preciso que o nosso) então o fim do ciclo de 5125 anos não cairia no dia do solstício…

Considerando que o calendário maia era 4s mais preciso do que o usado hoje (que tem erro de 5h48m46s por ano teríamos que fazer o seguinte cálculo para compensar o erro:

12/21/2012 +((5125*0.2422) -((4/(3600*24))*5125)) days

Considerando uma sobra de 5h42m no cálculo acima e o que o solstício de verão em 2012 será às 9h18m isso nos leva a uma nova data para o fim do mundo: 15 de maio de 2016, exatamente às 15h de um domingo. Caso o mundo não acabe em 2012…

A Sabedoria Maia

Bem… Para alimentar as energias do sol eles matavam os inimigos vencidos em batalha e ungiam seus ídolos (frequentemente a serpente de plumas) com seu sangue. Na falta de inimigos ou em festas especiais eles sacrificavam crianças e mulheres.

Diante disso o hábito de deformar o crânio das crianças para lhes dar um formato longilínio é só um senso estético duvidoso.

Seu esporte mais sagrado era um jogo de bola onde o líder do time vencedor era decaptado.

Quando os colonizadores chegaram a civilização já havia passado por um grande cataclisma e se estava em declínio, muito provavelmente por ter esgotado seus recursos naturais.

Muitas culturas antigas desenvolveram supreendentes conhecimentos de astronomia, mas isso não faz delas culturas sábias.

A Terra no centro da Via Láctea

De acordo com as nossas observações nosso sistema solar está a cerca de 32 mil e 600 anos luz (10 Kilo parsecs) de distância do centro da nossa galáxia o que se aproxima de 11 bilhões de kilômetros… É muito longe e o único registro de um fenômeno assim que eu conheço está na quinta temporada do seriado de ficção científica Doutor Who.

É possível que estejam confundindo com o plano central da galáxia.

Na imagem abaixo vemos a galáxia como seria vista de cima e nosso sol está marcado nela mais ou menos entre a borda do prato e o centro dele:

Representação da Via Láctea - Fonte: Wikipedia

Agora imagine que você vire o prato para vê-lo pelo lado. Você terá uma imagem mais ou menos assim:

Imagem lateral da Via Láctea - Fonte: Wikipedia

O plano central seria nesse caso o prato e é como se o nosso Sol uma hora estivesse sob o prato, outra hora acima dele. No meio tempo ele passaria por regiões mais densamente povoadas de estrelas.

Isso acontece a cada 35 milhões de anos e nesse momento estamos a vários anos luz desse evento o certamente significa alguns milhares de anos, senão milhões até que isso aconteça.

Nibiru ou Hercólobus: o planeta assassino

A aproximação de um planeta (ou asteroide) gigantesco é outra causa frequentemente citada, no entanto temo que lembrar que Galileu, com um telescópio primitivo, foi capaz de ver os anéis de Saturno e nos séculos seguintes nós nos desenvolvemos exponencialmente: não há como um planeta gigante vindo em nossa direção não ser percebido com décadas de antecedência.

Nenhum observatório profissional ou amador detectou um corpo celeste candidato para ocupar o lugar do planeta assassino.

E não se trata apenas de ser visível, um corpo de enormes dimensões deixaria rastros gravitacionais facilmente detectáveis conforme caminhasse por nosso sistema solar e isso não aconteceu. Ninguém percebeu anomalias nas órbitas dos planetas, cometas ou cinturão de asteroides.

Os neutrinos de Hollywood

Logo nos minutos iniciais da superprodução de Hollywood, 2012, os Neutrinos mutantes são responsabilizados pelas mudanças no planeta.

Bem, há três tipos de Neutrinos conhecidos: elétron, muon e tau. Todos eles, por não terem carga positiva ou negativa e pesarem praticamente nada, são capazes de atravessar anos luz de uma parede de chumbo sem sequer tocar em algum atomo ou mais propriamente elétron, neutron ou proton.

Podemos até imaginar que ventos solares de gases mais densos (muito embora nosso Sol ainda seja jovem e composto predominantemente de hélio e hidrogênio) poderiam aquecer nosso planeta, mas nunca vi um estudo que desse essa capacidade a neutrinos.

A quarta dimensão e outros fenômenos mágicos

A última causa mais frequente que achei para um suposto evento em 2012 envolve a passagem de algumas pessoas em nosso planeta para uma quarta dimensão e na intermediação de seres alienígenas ou espirituais que conduziriam ou nos auxiliariam nessa transição.

Bem… Isso extrapola totalmente a nossa ciência.

De acordo com o nosso conhecimento atual todos nós vivemos em um mundo com 10 ou 11 dimensões e somos seres quadridimensionais pois nos deslocamos no espaço (comprimento, altura e largura) e no tempo.

Fossemos pensar em uma transição para outra dimensão teria que ser para a quinta de onde, supostamente, poderíamos olhar para o tempo como olhamos para uma linha e veríamos o passado, presente e futuro como uma coisa só.

Vale a pena assistir o filme Flatland:

 

Ou ler o texto que o inspirou: Flatland (gratuito no projeto Guttemberg)

Conclusão

O único fenômeno físico ou cósmico prestes a acontecer que pode nos atingir é o aumento da atividade dos ventos solares que pode causar apagões e danos em equipamentos eletrônicos, mas não vejo como isso poderia causar danos definitivos aos nossos sistemas lançando-nos de volta à era do fogo e da clava.

Todas as supostas confirmações científicas para as previsões Maias que encontrei eram fruto de mau entendimento da nossa ciência e não encontrei nenhum cientista sério (estou incluindo físicos blogueiros revolucionários) que confirme algum evento astronômico mortal.

Referências

Artigos sugeridos por amigos

Artigos de apoio

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A primeira cópia

20th, November 2009

Abro meus olhos e me vejo.

Não é a minha imagem no espelho, sou eu mesmo com um olhar entre surpreso, efusivamente feliz e receoso. Me sinto do mesmo jeito, é claro! Mas as emoções ainda são um pouco confusas, tropeçam na minha falta de habilidade para espressá-las no novo corpo cujas sobrancelhas, testa e músculos faciais ainda não sei controlar muito bem. Sinto o coração que não tenho bater acelerado no peito onde na verdade estão unidades de bateria sólida que não produzem qualquer tipo de vibração ou pulsação.

Hoje deve ser o dia 29 de outubro de 2057. Minha consciência deve ter sido plenamente transferida do eu que está diante de mim para um novo corpo totalmente mecânico. Sou o primeiro humano a migrar para um corpo ciborgue.

- Tudo bem com você? – O meu corpo orgânico me pergunta.

- É estranho como havíamos previsto. Há diversas capacidades que eu terei e não tinha antes, imagino o que nossa consciência poderá fazer agora sem as limitações do cérebro humano!

Olho ao redor e percebo que o laboratório não é o que devia ser. Parece mais um depósito abandonado cheio de caixas empilhadas, poeira, janelas com vidros cobertos de poeira, ouço ruídos característicos de um terminal de operações de um porto marítimo. Nosso laboratório era uma das mais avançadas instalações do mundo.

A propósito noto que meu raciocínio não parece muito mais veloz do que antes. Aos poucos vou me conscientizando dos meus processos mentais e definitivamente há algo errado. O multiprocessamento por exemplo está ausente. Eu deveria ser plenamente capaz de ouvir 10 pessoas falando em línguas diferentes enquanto resolvesse diversos problemas matemáticos e… Definitivamente há algo errado.

- Tem algo errado. Minhas funcões e capacidade de processamento são praticamente iguais às suas – tento gesticular e não consigo – e acabo de notar que também não posso me mover. E que laboratório é esse?

- Vamos por etapas, certo? Nós dois sabemos que a transição da nossa consciência para o corpo onde você está agora seriam um choque para qualquer mente humana e por isso decidimos usar nossa própria consciência como primeiro teste, afinal somos uma das mentes mais poderosas do planeta e fomos considerados possuidores de uma lógica quase Vulcana.

Vejo meu corpo orgânico me olhar com mais tranquilidade, provavelmente porque minha voz deve ter soado segura apesar de preocupada, e realmente me sinto bem. Só a curiosidade me incomoda, afinal o plano era fazer o upload da nossa consciência sem qualquer limitação confiando que seríamos capazes de suportar o impacto. Isso só pode significar que não deu certo e eu enlouqueci…

- Quantos foram antes de mim? Quanto tempo se passou desde que você fez o download da sua, digo, da nossa consciência para a unidade positrônica? – Perguntei

- Você é o nono. O primeiro quase matou todos nós. Ele tomou conta do laboratório e pretendia fazer algo com toda a espécie humana orgânica, talvez destruí-la e por pouco não conseguiu.

– Por isso não estamos no laboratório eu suponho… Esse é um lugar seguro onde eu possa ser destruído rapidamente sem que ninguém mais seja ferido ou nós dois estamos trabalhando clandestinamente?

- Fiz os sete seguintes e você clandestinamente. Demorei sete anos. Estamos em 23 de setembro de 2064. Se nós prestássemos mais atenção ao espelho você teria notado que estou um pouco mais envelhecido! Hahaha! Tive que sacrificar o tratamento de envelhecimento tanto para ter recursos para continuar a pesquisa quanto para passar desapercebido como se fosse das classes pobres sem recursos para manter a juventude.

- Você fez bem Guilherme… Mesmo com as limitações sinto várias coisas estranhas. Você conseguiu conversar com os outros?

- Não… Na verdade tive que limitar seus recursos a um status inferior ao meu, sem falar na desativação dos braços e pernas. Minha homoplata ainda doi depois do ataque do número 3…

- Bem, não sabemos então se eu darei certo. É irônico. Se nossa mente fosse capaz de suportar o universo de recursos físicos e mentais superiores de um corpo e cérebro robóticos eu seria praticamente imortal, no entanto é provável que não viva mais do que alguns dias.

Continuo…

- Então preciso relatar como estou me sentindo. Mesmo com as limitações impostas percebo que minha consciência já é muito diferente da sua. Sei por lembrança que me importaria mais com algumas coisas e menos com outras. Talvez não tenha sido uma boa ideia nos livrar das porções mais primitivas do cérebro onde residem as emoções. Falta-me uma certa sensibilidade, é difícil definir o que faz falta. Gostaria de criar um poema para você. Imagino que tudo esteja sendo gravado, certo?

- Sim, claro! E eu… Fale seu poema.

Em seguida eu improviso o seguinte:

Lâmina

O Líquido na lâmina

No líquido microscópicas vidas erráticas

Erráticas como meus devaneios

perdidos na lâmina

Transparente

- Que tal?

- Já vi piores, mas sugere uma preocupação e identificação com todas as formas de vida, como se houvesse consciência em todas elas. Não parece algo que uma consciência robótica seria capaz de criar.

- Você tem algum plano para me tornar viável? Tenho certeza que nesse momento você não tem a menor intensão sequer de me dar movimentos.

- Sim, e sim. Você pode ter enlouquecido como os outros, mas estar esperando que eu lhe dê recursos para me suplantar antes de tomar qualquer atitude. E meu plano me custou 3 anos refazendo seus sistemas básicos. Há várias barreiras para cada recurso físico e principalmente mental que devem ir sendo derrubadas ao longo dos anos conforme nossa consciência vá se ajustando ao novo receptáculo.

- Você percebe que estamos falando em NOSSA consciência, mas as semelhanças entre nós são ínfimas, não é?

- Você é o primeiro a falar em nossa consciência. Os outros enlouqueceram imediatamente com as novas possibilidades e passaram a se referir a eles mesmos como A Consciência.

- Compreendo. Gostaria que você me permitisse utilizar pelo menos o que temos agora para fazer algo por todos nós. Não quero me mover tão cedo. Não sei se posso confiar na minha capacidade de me manter são, mesmo com os limites atuais. Guilherme, eu preciso ficar sozinho e escrever, transformar tudo que estou sentindo e pensando em contos, livros, teses de ciberpsicologia. E… Bem, acho que você precisa voltar ao tratamento de juventude, pois talvez demore muito para eu confiar em mim mesmo e outro tanto para vocês confiarem em mim…

- Assim será. Quando quiser falar comigo basta ativar o chamado de emergência. Tudo que você escrever poderá ser transferido para o meu espaço de documentos automaticamente assim poderei acompanhar suas reflexões.

Vejo o Guilherme, digo, eu caminhando até as pesadas portas do armazêm, antes de fechá-las lanço um olhar para meu corpo ciborgue, digo, o Guilherme me lança um olhar de carinho e logo depois as portas se fecham, as luzes se apagam. Estou entregue aos meus pensamentos.

Começo:

Guilherme 9.0

A saga de uma consciência cibernética

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Crônica imaginária do fim da arte de Oiticica

18th, November 2009

É uma sala laranja. Me afundo em um sofá laranja observando com o zoom da filmadora as pequenas rachaduras na parede laranja.

Ao meu lado uma longilínea figura acinzentada balança uma velha fita VHS mofada supostamente com horas de filmagem das fotografias do acervo devorado pelas chamas de Helio Oiticica.

Um grande artista reduzido a 640X480 pixels.

- Se eu fosse você jogava tudo na Internet – tive que dizer

- Você tem duas coberturas na Av. Atlântica? Não precisa de dinheiro?

Pensei que não, pelo menos não ao custo de entregar a arte à língua ígnea da propriedade intelectual ou do esquecimento (felizmente fora da crônica parece que muito se salvou).

Tivessem fotografado, reproduzido, copiado e remixado Hélio Oiticica hoje ele seria imortal, sua voz ecoaria entre nós conforme-nos lançamos ao espaço explorando novas fronteiras.

Quantas figuras cinzentas e longilíneas terão fragmentos preciosos de grandes obras escondidos em seus armários esperando a chance de se se fazer rico com o trabalho de outros? Com o trabalho da própria humanidade?

Essa Malvina Cruela pode ser fruto da minha imaginação febril, um fantasma que saltou das rachaduras da parede diretamente para a minha retina através do zoom de uma cãmera digital, mas receio que haja muitas como ela.

Minha personagem com certeza aceitaria destruir a fita por um bom preço…

E lá vai ela pelo corredor, agarrada ao sonho de vender as torpes imagens de 640X480 por uma pequena fortuna, comprar suas coberturas, viagens para a europa e um guardaroupa cheio de sonhos, mas nenhuma arte.

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Deixa ela entrar: Terror ou poesia?

18th, November 2009

Ao ver no Arteplex Unibanco o cartaz da versão nacional de Let The Right One In me lembrei que não comentei esse filme ainda e pelo jeito finalmente ele vai entrar em cartaz no Rio.

Pode ler o restante do post pois sempre me esforço para não dizer nada que diminua seu prazer de assistir o filme (ou ler o livro).

Algumas obras não deviam ser classificadas como terror, romance, ação ou drama: elas se constroem com tanta delicadeza que deviam ser chamadas apenas de obra ou, mais propriamente, arte.

Não me entenda mal, Deixa Ela Entrar é um filme de terror e se você abomina o estilo não vá ver.

Acontece que ele vai muito além disso, aliás, uma tristeza esse título. Uma tradução mais literal como “Deixe a pessoa certa entrar”, apesar de feia, seria muito melhor.

A história se desenvolve justamente sobre a delicada e tênue fronteira entre quem é ou não confiável. O que constrói uma relação de confiança? O que nos separa ou aproxima do monstro, do selvagem e do humano.

Já faz quase um ano que assisti esse filme em um DVD área 1 (em Inglês) e apesar das barreiras da língua ele me deixou marcas tão claras que me emociono enquanto escrevo.

Bem, tenho que admitir que a minha leitura do filme não é a única. Eu achei belo e poético, outros podem facilmente achá-lo perverso e até ultrajante.

Esta multiplicidade de significados é outra característica das obras de arte e o diretor Tomas Alfredson teve o meticuloso cuidado de não limitar os personagens a um carater definido apesar de criá-los com uma profundidade e riqueza incomuns no cinema moderno.

Isso tudo sem falar que as atuações das crianças são de cair o queixo.

Resumindo, é um filme para assistir com carinho e carregar na memória pois será útil em vários momentos da sua vida.

Você pode encontrá-lo em Inglês nas locadoras ou comprar na Amazon:

Outras opiniões:

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