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Propriedade Intelectual

A literatura nos une ou nos segrega?

25th, October 2009

Quando nos emocionamos uma descarga bioquímica que dura 90 segundos se espalha por nosso corpo e reduz o funcionamento da nossa mente ao de uma criança de uns três anos.

Antes te escrever esse post tive que esperar vários períodos de 90 segundos depois de ler o artigo Em Defesa da Literatura de Mário Vargas Llosa na Piauí.

Infelimente a minha emoção foi de pavor.

Aparentemente para Llosa a humanidade se divide entre “leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi” que se sentem da mesma espécie e o restante:

Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo – um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal

Quero deixar claro que tenho convicção de que a arte é o ar que a consciência respira e quanto mais acesso nossa civilização tem à arte mais nossa consciência individual e coletiva cresce, mas não posso aceitar tamanho elitismo!

Nem toda arte é literatura, nem toda arte obedece aos critérios de arte dos imortais das academias e raramente é através da sua forma mais erudita e pura que a arte consegue se espalhar por nossa civilização.

Quantas pessoas leram os clássicos? Qualquer um deles? Quais você leu?

Como não li mais do que meia dúzia de clássicos imagino que não tenha direito de opinar já que devo me enquadar entre os “incivilizados, bárbaros e órfãos de palavra”, mas assim mesmo, bronco e selvagem, me sinto no direito de defender minha frágil consciência e a de todos nós que não somos letrados na chamada “boa literatura”.

Em algo concordo

Como disse concordo que a chamada boa literatura, ou melhor, a boa arte é essencial para criar o pensamento dissonante, a perversão da estética ou da moral que serão responsáveis pelos ecos que se espalharão por toda nossa coletividade criando novas culturas, manifestações artísticas, percepções da realidade e outras formas de alterações que podem ou não dar certo, mas fazem parte da evolução da nossa consciência.

Sem Shakespeare, Milton, Dante, Fernando Pessoa, Cruz e Souza, Machado de Assis (e acho que citei todos que li) e muitos outros a nossa espécie estaria em um estágio muito mais selvagem de consciência.

No entanto creio que é um erro crasso, elitista e até com ameaçadores traços de fascismo sugerir que apenas quem entra em contato direto com as versões originais dessas obras teve acesso ao seu valor artístico e cultural.

A arte é como uma vacina

Vacinas são pequenas doses de um mal que é injetado em nossas veias para que possamos aprender aos poucos e construir mecanismos para receber doses maciças.

A diferença é que a arte não nos prepara apenas para as dores, é claro, ela nos antecipa prazeres (com seus riscos de sedução) e devaneios que ajudarão a criar novas facetas em nossa rica consciência.

Basta olhar até para os mais simples sopros da cultura chamada de idiota por Llosa para ver ali os sussuros dos grandes clássicos.

Guerra nas Estrelas, Senhor dos Anéis, Fronteiras do Universo, Basquiat, Merce Cunningham, Sandman (os quadrinhos de Gaiman), Codinome Robotech, Viagem de Chihiro, a literatura de cordel, impossível esquecer a literatura de cordel, o hip hop, o samba de raiz.

Tudo isso são preciosos líquidos portadores de doses suaves das mais profundas palavras de Proust, Kierkergaard ou Homero!

E se todos fossem eruditos?

Um mundo de adoradores dos grandes mestres da literatura (parece que para Llosa só há literatura), filosofia, teologia, teatro etc. seria uma Valinor materializada?

Não tivemos diversos grandes eruditos sádicos, imorais, perversos, eugenistas… Aliás o ícone da loucura homicida, Hittler, leu quase todas as obras de Shakespeare além de Dante e mais alguns clássicos.

Em todo caso há na erudição um tipo de endurecimento da consciência que tende a idolatrar as vozes do passado desprezando a consciência do presente.

É raro encontrar um erudito que não esteja convicto de que jamais haverá outro Shakespereare ou um teólogo que não ache que os humanos só foram capazes de ver Deus entre 5 e 2 mil anos atrás fazendo da Bíblia o livro definitivo sobre a espiritualidade humana.

Um mundo de eruditos é um mundo onde a consciência está morta e não há espaço para a nova arte.

Prefiro um mundo selvagem e incivilizado a um congelado em sua própria arrogância.

Bem, agora vou ali ler Proust para poder chamar todos os outros se animais rudes e sem sensibilidade.

Filed under: Literatura, arte | No Comments »

Voltar aos 17

5th, October 2009

“Volver a los diecisiete después de vivir un siglo es como descifrar signos sin ser sabio competente”

Era jovem demais e vivia em um país alienado demais pela ditadura para ver a luta democrática que havia sob as palavras da música que me apresentou a Mercedes Sosa, mas na força da sua interpretação fui capaz de sentir profundamente como a criança que se depara com Deus: não entendia, mas sentia que aquele canto me chamava a pensar, a me mobilizar e me unir a todas as outras pessoas sem qualquer tipo de distinção.

Foi-se a possibilidade de ouvir novos cantos, mas sua voz ecoará para sempre em nossas consciências.


Como todas as traduções que achei estão protegidas por copyright aqui vai a minha em creative commons para você poder compartilhar (correções e sugestões são bem vindas).

Voltar aos 17

(Violeta Parra)

Voltar aos dezessete depois de viver um século

é como decifrar símbolos sem ser um sábio competente,

voltar a ser, de repente, tão frágil como um segundo

voltar a sentir profundamente como uma criança diante de Deus

isso é o que sinto nesse instante fértil

 

Vai se enredando, enredando

como a hera no muro

e vai brotando, brotando

como o musguinho na pedra

Como o musguinho na pedra ah! sim, sim, sim

 

Meus passos recuando enquanto os seus avançam

a arca das alianças penetrou no meu ninho

com todo seu colorido passou pelas minhas veias

e mesmo a dura corrente com que o destino nos prende

é como um diamante fino que ilumina minha alma serena

 

Vai se enredando, enredando

como a hera no muro

e vai brotando, brotando

como o musguinho na pedra

Como o musguinho na pedra ah! sim, sim, sim

 

O que o sentir pode fazer o saber não é capaz

nem a ação mais clara, nem o mais amplo pensamento

tudo muda em um momento como o mago condescendente

nos afasta docemente de rancores e violências

 

Vai se enredando, enredando

como a hera no muro

e vai brotando, brotando

como o musguinho na pedra

Como o musguinho na pedra ah! sim, sim, sim

 

O amor é um turbilhão de pureza original

até o animal feroz sussura seu doce canto

detém os nômades, liberta os prisioneiros

o amor com seu zelo, do velho faz um menino

e o mal só o carinho o faz puro e sincero

 

Vai se enredando, enredando

como a hera no muro

e vai brotando, brotando

como o musguinho na pedra

Como o musguinho na pedra ah! sim, sim, sim

 

De par em par a janela se abriu por encanto

entrou o amor com seu manto como uma cálida manhã

ao som de sua bela alvorada fez brotar o jasmim

alçando-se como um serafim aos céus lhe pôs brincos

meus anos em dezessete converteu o querubim

 

A letra original pode ser encontrada aqui: http://www.ctv.es/USERS/borobar/volvera.htm

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