Diogo e João no corredor
20th, July 2009
Os dois amigos caminham apressados pelo longo corredor. O piso velho e encardido e um pouco sujo, aqui ou ali um papel de bala ou de chiclete. As paredes cobertas de cartazes anunciando festas dos grêmios, oportunidade de estágios, doações de cachorros, apelos para encontrar cadernos perdidos.
A luz que entra das janelas estreitas no alto do corredor lança uma atmosfera irreal entre o outono e a primavera muito embora seja inverno e os dois estejam bem agasalhados.
- O problema, Diogo, é que ninguém se importa depois que chega lá, depois que obtém uma posição ou poder… É cada um por si, pô! Quem vai fazer um sacrifício desinteressado? E se já obteve poder porque precisa fazer o mínimo sacrifício?
- Cara… a gente pensa muito em termos de poder material… Já viu político corrupto, rico ganancioso plenamente felizes? O fato de procurarem sempre mais, mais e mais deixa bem claro que ainda falta algo.
Chegam à porta da próxima aula, sala vazia… Avisaram que o professor não iria, gripe suína, mas eles esqueceram…
Quase duas horas até a próxima aula, dá para ir num dos bares ao redor da faculdade, deve estar cheio de gente lá como sempre, afinal para que vamos à faculdade senão para encontrar com a galera no boteco? Se fosse só para aprender não precisava aguentar aquele esquema horrível de “ensino”.
De repente não dá vontade de encontrar com ninguém no bar, melhor ficar ali mesmo, traçar o sanduba que está na mochila e passar a matéria pois tem um teste na última aula.
Sentam no chão do corredor de frente para o cartaz da campanha de doação de sangue.
- Ali ó: “Corrente do Bem, entre para a Corrente Sanguínea”… Já viu quanta gente doa sangue? Quase ninguém.
- Hummm… “Doe sangue e convide alguém a doar”. Sempre convido, de cada 10 somente um vai…
- Isso se chama individualismo. A gente fala dos estadunidenses, mas eles doam e participam mais de projetos sociais que a enorme maioria dos brasileiros.
- Cara, e os papos de cibercultura? As mobilizações cada vez mais comuns ao redor do mundo pelos direitos iguais de gente que nunca vimos nem nunca veremos? Sou otimista e acho que esse individualismo escroto vai dminuir… tá diminuindo…
- Já eu acho que isso é um punhado de gente que sempre existiu e sempre vai ser minoria. Nossa civilização é doente, cara…
- … é…
Risadas e vozes se misturam vindo do outro lado do corredor, uma brisa quente vem de algum lugar estranho já que o inverno lá fora resseca lábios e arranca lágrimas dos olhos dos mais desavisados. É um grupo de seis ou sete alunos de outra turma, desconhecidos dos nossos dois protagonistas, todos com um dos braços flexionados e rindo do medo que um deles tivera de doar sangue. A vítima das chacotas ria aliviada agora que já tinha passado e se justificava dizendo que tinha medo de agulhas por causa do tio desajeitado que lhe aplicava injeções quando era criança.
Os dois amigos sentados no chão se entreolham e, bem, “que se dane a civilização! Ela que faça ou deixe de fazer o que quiser”, levantam e descobrem onde os outros acabaram de doar sangue para fazer eles também seu pequeno papel. Pequeno para eles, mas grande para alguém.

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Noite em Ouro Preto
7th, July 2009
Ela acordou com frio. Ainda não havia amanhecido. Viu sobre ela o céu começando a tomar a tonalidade púpura que antecede o nascer do sol. O chão sob ela… estranho, ela estava deitada no chão… áspero e arenoso arranhava seus cotovelos conforme tentava se levantar e lembrar como tinha chegado ali.
Aliás, onde era ali?
Tonta. Um zumbido no ouvido. Estava de ressaca. A brisa fria que soprava a franja fazendo cócegas na sua testa aliviava um pouco a dor, mas piorava o enjoo.
É um cemitério. “Merda, dormi num cemitério!!”
Os primeiros raios de sol começam a atingir sua pele pálida e com eles as memórias da noite anterior vem assombrar seu dia.
Excessos.
Beijos demais, bebida demais, drogas demais, luzes demais e muita dança. Dançou de se acabar e já não sabia se eram beijos ou o rodopiar do corpo no ritmo febril da noite que a deixou tão tonta que não dava mais para continuar.
As ruas estavam vazias quando ela atravessou a porta de madeira pesada e grossa deixando para trás aquele big bang de estímulos mergulhando na noite profunda e silenciosa.
Silêncio… Era isso que a atraíra.
Rua após rua foi fugindo dos sons até que os pasos de um gato a incomodaram tanto que acabou enveredando pelo cemitério depois de escalar o muro com alguma dificuldade.
Ali, no silêncio literalmente sepulcral, passeando entre as ruas da acrópole dos esquecidos seus sonhos começaram a invadir a noite com desfiles de faunos, fadas, dragões e criaturas foragidas de catacumbas que dançam ao seu redor exorcisando o assustador mundo onde a fantasia, a mágica e os sussuros dos nossos avós são demonizados por homens e mulheres assustados demais para apreciar a lua e seus segredos.
Dorme ali mesmo na companhia dos seus anjos protegida dos gritos de outra moça com menos sorte que vê sua vida se esvair formando delicados rios rubros sobre a lápide desconhecida.
Inspirado pelo absurdo caso da negligência na investigação do assassinado de Aline em Ouro Preto em 2001 e na demonização de jogos, rpg, músicas e filmes
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