Sob a lua de Perséfone

- Sei lá pai! Tô sozinha aqui, todo mundo dormiu… Vou me arranjar num pufe que tem ali na varanda ai acordo cedinho, quando o Sol nascer.

Do outro lado da linha o pai gesticula para a esposa. 14 anos! Isso não é idade para um menina estar fora de casa às 3h da manhã! Mas também não é idade para sair sozinha pela rua, pegar taxi ou ônibus enquanto os predadores noturnos se esgueiram pelas sombras, intocáveis.

Três fusos horários os separam da filha e agora eles se culpam por terem viajado às pressas obedecendo o chamado da empresa que está em processo de aquisição por uma multinacional.

- Eu tô legal Pai, só não dá para ir para casa agora! Tô morta de so… Não pai! Eu não bebi, não fiquei com ninguém e não me droguei!

Era mentira, ela bebeu, ficou com alguém e fumou maconha, e não foi a primeira vez, nem será a última. Ela olha fixamente para a Lua se concentrando para manter a voz firme e dá certo como das outras vezes.

Ela fecha o telefone, deixa-o pendurado pela cordinha, cotovelos apoiados nas pernas e ligeriamente zonza ela olha ao redor os amigos, quase todos dormindo, apenas alguns movimentos nas sombras e suaves estalos de lábios molhados denunciam os últimos notívagos.

Sua sandalha fica ao lado da mesinha onde ela estava sentada enquanto ela caminha entre as almofadas na sala escura. Ainda sem vontade alguma de dormir. Ela quer o vento suave da noite de outono nos seus cabelos, arrepiando a pele na sua cintura.

Mais cedo havia uma linda lua vermelha no céu, agora ela corre entre nuvens como se fosse um ginete branco entre os galhos escuros de uma floresta desconhecida.

Seus dedos encontram um copo de wiskey e o arrasta até os lábios enquanto se apoia no muro da varanda.

Nunca… Essa é a primeira vez que ela se sente totalmente livre. Foi a noite que ela escolheu. Não foi difícil encontrar uma festinha quando soube que os pais viajariam. Fulana conhecia cicrano que tinha namorado beltrana que tinha uma prima maluca que morava numa cobertura perto da Paulista.

A parte difícil vai ser voltar para casa logo que o Sol nascer, tem uma piscina na varanda, os pais da menina que deu a festa não voltam tão cedo, estão na Europa fazendo compras e acham que a filha está… eles acham alguma coisa que ela não lembra mais e não importa.

Só importa que os pais com certeza vão ligar para ela de manhã para ver se ela está mesmo em casa.

Melhor não dormir… Aproveitar acordada as próximas 5 horas ou 6 horas antes de voltar para casa.

5 thoughts on “Sob a lua de Perséfone”

    1. Que bom que vc gostou! Sua opinião tem bastante peso para mim!

      Tenho escrito pouco aqui… Dias muito cheios, mas faz uma falta terrível!

      Toda semana dou uma passadinha lá no seu blog para uma injeção de primavera ;-)

    1. Muito legal vc ter gostado!

      Os meus posts geralmente são fragmentos de livros que planejo escrever ou de personagens que estarão em livros que planejo escrever.

      Vou pensar com bastante carinho nessa moça :-)

  1. Assim… entedii.
    Tão; só me resta esperar vcê escrever o livro. Pode ter certeza que vou ser uma de suas leitoras! :D

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