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Propriedade Intelectual

Às vésperas dos fogos

30th, December 2008

Uma balbúrdia circula pelo bar no centro histórico onde nos séculos passados caminhavam poetas boêmios que morriam de tuberculose precocemente, mas achavam tempo para povoar as linhas da literatura com vozes veludosas, veldas vozes de um passado mais distante para a memória do que para os anos.

Na mesa branca se espalham copos, cestinha com pães, bandejinha com aperitivos acebolados e meia dúzia de máquinas digitais.

Cinco amigos ao redor da mesa desfiam memórias, histórias, opiniões, tiram fotos… Risadas pontuam as frases e dão o ponto final continuativo das histórias que parecem sempre terminar com reticências.

As mesas ao redor são imagens desfocadas. Turistas que se alojam nos albergues e hotéis mais baratos ou que pesquisaram e foram capazes de encontrar aquela região de tesouros escondidos da velha cidade turística. Outros ali saíram dos seus trabalhos e buscaram o famoso chopp gelado. Uns poucos caíram ali por mero acaso.

Do lado de fora as ruas já escuras e vazias do movimento febril do último dia útil de 2008.

A julgar pela chuva de papéis de trabalho catarsicamente picotados e defenestrados muita gente considera os dias não úteis mais úteis, ou pelo menos mais agradáveis, que os dias ditos úteis.

Na praça, assistidos pelos olhos silenciosos das janelas do altivo mosteiro que permanece invisível até que de lá escapem as notas graves do canto sacro, homens de laranja operam vassouras e máquinas de varrer para remover pilhas de papel picado.

Não há pessoas na cidade. Estão todas mais além…

As escadas rolantes do metrõ desembocam como rios em vários pontos da Princesinha do Mar já alagando suas ruas, calçadas e areias com os primeiros milhares que logo serão mais de um milhão de pequenas pessoas que se espremem para ver o fim de um ano ritualisticamente queimado pelos fogos que explodem em cores e formas no céu escuro da última noite do ano.

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Ciclos artificiais: Festas de fim de ano…

26th, December 2008

Nós humanos somos feitos de idéias que viajam em corpos de carbono e genes.

Escutamos as palavras, deciframos a dança dos movimentos e o significados ocultos dos costumes.

De toda forma tentamos ser um só, uma unidade.

Ao ver um rosto pela primeira vez, ao escutar um “Oi! Muito prazer!” de um novo amigo normalmente partilhamos o que há de mais essencial em nós: fraternidade… Salvo, claro, quando vem algum preconceito antes por causa dos códigos dos gestos ou costumes que não entendemos como uma burca, o jeito de andar, uma minissaia, uma tatuagem…

Estivemos até hoje afastados uns dos outros. Inventamos palavras, roupas, crenças e uma infinidade de outros memes que nos ajudam a conviver com as cidades, florestas, ilhas ou oasis onde vivemos.

Então nossa essência foi mais forte! Fomos separados quando Pangéia se dividiu, mas aprendemos a cavalgar, inventamos carroças, carros, aviões e foguetes, fomos até a Lua para ver como estávamos próximos uns dos outros!

Infelizmente dezenas de milhares de anos tinham passado e tornou-se tão difícil ver alguém igual por baixo de todos aqueles costumes diferentes que chegaram a fazer julgamentos para decidir se índios ou negros eram mesmo humanos!

Ah! Mas o poder na nossa essência… o grito da nossa consciência é ainda mais poderoso que nosso medo e nossa ignorância. Então criamos novos veículos!

Agora não viajamos mais pela Terra, viajamos pelas idéias! Criamos carruagens, automóveis e foguetes que transportam nossos pensamentos! Nossos memes e toda cultura, costumes e crenças que eles articulam!

Rádio, cinema, jonais e televisão são esses novos veículos que nos trouxeram até aqui, mas não eram nossa voz pois só podiam transportar uns poucos de cada vez transformando a maioria de nós em espectadores passivos. Então criamos um novo mundo real onde absolutamente todos podem falar e ser ouvidos!

A Internet é o pequeno mastro de uma nave que vemos no horizonte e vai crescendo conforme nos aproximamos. A cada dia vemos um pouco mais do que está por vir: hiperdemocracia, uma nova mídia, outras estruturas de governo onde cada um tem sua voz, uma era onde o conhecimento, a criatividade e a consciência são o maior patrimônio…

Em 2008 finalmente entendemos que a Internet é uma rede de pessoas. Sites são pessoas que compartilham suas vozes!

Aqui e ali pipocam “desconferências” que descobrem e ajudam a descobrir um novo mundo onde finalmente veremos de perto que nossas diferenças são tesouros da nossa criatividade e não coisas a serem toleradas!

Em 2008 eventos como ted.com, Descolagem, Sou + Web, Blogcamps, Manhãs Digitais e tantos outros finalmente começaram a convergir trazendo antídotos para a o medo das diferenças e alimento para o êxtase diante da nossa diversidade!

Agora estamos nos momentos finais do ciclo artificial de 2008 quando normalmente as pessoas fogem da realidade para beber, comer e festejar… Pois meus votos são que em 2009, assim como em 2008, cada vez mais aprendamos a apreciar diariamente os ciclos naturais dos solstícios, equinócios e, principalmente, das transformações da nossa consciência!

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Os óculos do Papai Noel

22nd, December 2008

O papai noel entra na sala pelo quinto ano consecutivo. A grande barriga fofa, o vermelho vivo de cetim, as botinas de couro marrom muito escuro, a vasta barba macia como o algodão, um saco de lona crua nas costas repleto de presentes para as crianças que se espalham pela sala e, claro, um belo gorro tão cintilante quanto a roupa e cuidadosamente ornado por uma faixa branca que parece neve e o inconfundível pompom branco na ponta.

Os presentes começam a sair do saco. Uma metralhadora de brinquedo (eram os anos da ditadura e os ventos do fascismo disseminavam seus encantos), bonequinhos, carrinhos, mas as fotos só preservaram a metralhadora ainda embalada em seu plástico transparente.

Já adulto aquele menino sem camisa lembraria apenas das fotos e das histórias e seria capaz de jurar, agora pacifista, que não gostou, entretanto ainda brincava com armas de espoleta uns dois anos depois.

“Oh! Oh! Oh! Sente aqui com o Papai Noel menino!”

E lá foi ele animado sentindo-se a criança mais especial do mundo já que o Papai Noel não aparece para nenhum dos seus amigos.

Senta-se no colo do bom velhinho, olha-o nos olhos…

“Hei! Esse é o óculos do meu pai!”

Antes que qualquer um possa inventar uma desculpa ele puxa a barba revelando o rosto do pai e um sorriso de descoberta onde faltam alguns dentes de leite que já se foram.

Quem dirá o que passou realmente na cabeça daquela criança? Se eu tiver que adivinhar diria que ele percebeu imediatamente em um desses raros momentos de quebra de paradigma que o Papai Noel não existia e que o pai dele era maravilhoso por se vestir todo ano com as pesadas e quentes roupas minuciosamente feitas somente para agradá-lo levando-o a um mundo mágico que os pais não eram mais capazes de alcançar.

Pode ser… Mas o mais provável é que ele tenha pensado “O meu pai é o Papai Noel!!!”

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Em família

22nd, December 2008

A sala cheia apesar de haver poucas pessoas para enchê-la. Uma família com pai, quatro filhos, meia dúzia de irmãos e primos, duas crianças da mais nova geração correm para um lado e para o outro inventando grandes aventuras. E os namorados e namoradas da geração do meio, claro. Um quarto de uma centena de vozes, risadas, piadas, histórias, memórias… e o calor do solstício que trouxe o verão lá pelas dez horas da manhã.

Foi um ano frio com muitas perdas e dores para todos, o calor é bem vindo e inspira recomeços festejados com orações, bastante comida, troca de presentes e o abraço forte dos olhares cúmplices que vivem a mesma história ainda que cada um trilhe seus próprios caminhos…

Cada caminho é uma parte da grande história da família que começou no século passado, atravessou crises, pobreza, guerras, revoluções e todas essas coisas externas que não são (e não devem ser mesmo) lembradas quando se juntam e sabem apenas que são família.

Ali jogado num pufe uma namorada brinca com as crianças que um dia talvez sejam sobrinhos. Por um instante seu olhar se perde ao redor, expectadora ainda distante do quadro aconchegante das pessoas ao redor da grande mesa, entre elas encontra o sorriso familiar do namorado. Por um instante sonha com o dia que sorrirá do mesmo jeito, abraçada pelas vozes, as risadas, as memórias, as histórias da família.

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Noviça Rebelde no teatro

21st, December 2008

"Como vão colocar um filme daquele tamanho em um palco?"

 Chego à porta do teatro me espremendo entre as dezenas de pessoas acumuladas ali sem razão aparente, nem entram, nem saem. Olho ao redor tentando imaginar se há algo especial ali, mas até agora realmente nem imagino que estranha atração as escadas largas do Oi Casa Grande exerciam sobre a multidão. Estava mais curioso para ver o teatro por dentro e descobrir como conseguiriam colocar A Noviça Rebelde em um palco.

Foi inevitável lembrar da montagem de Sonhos de Uma Noite de Verão da Lucélia Santos.

Nossos lugares eram no balcão, a parte mais alta do teatro, que a propósito faz juz ao nome e é grande mesmo!

Sessenta Reais…

Vivo reclamando de peças que custam 30. A Noviça nos custaria 60 se não tivéssemos recebido convites, mas tenho que confessar logo que há excessões para toda regra. Com treze freiras, sete crianças, mordomo, capitão, noviça, Max, baronesa, nazistas e demais atores deve ter perto de trinta pessoas se revezando no palco. Isso sem falar no cenário… O valor é justo.

Chorei já aos 14 minutos, ri muitas vezes, me encantei com a qualidade do trabalho de cada um dos atores com destaque para a naturalidade da Kiara Sasso (faz a protagonista) e a atuação surpreendente de Fernando Eiras (no papel do tio Max).

O espetáculo é uma reprodução fiel do filme exceto por duas ou três músicas inseridas, sendo que uma delas eu achei um pouco mal encaixada, mas isso não prejudicou em nada o prazer que tivemos.

Descobir que algumas pessoas odeiam o filme e a história original. Imaginei que fosse por Maria (a noviça) ser uma mulher à moda antiga, mas vendo a peça me lembrei que não. Ela promove justamente uma ruptura no modelo machista vigente na época tornando-se parceira de igual para igual do capitão.

Pode-se dizer que a história é ingênua… Todas eram até o final da década de 80, não é mesmo?

A peça não é uma releitura, é uma reprodução fiel como eu disse, no entanto, mesmo com a ingenuidade característica do século passado as ameaças aos direitos individuais são um tema atual.

No filme eram os nazistas, hoje é o vigilantismo e o cerco à liberdade de expressão como nos alerta o @caribé. Tenho motivos pessoais para me sensibilizar com isso.

A propósito os atores que fazem os nazistas fazem um trabalho tão bom que são vaiados nos agradecimentos até que arrancam dos braços as faixas com as suásticas e recebem um dos aplausos mais efusivos da platéia. O destaque fica com Cássio Pandolfi no papel de Herr Zeller.

Depois de uma semana difícil saí do espetáculo com energias renovadas e novas idéias e é isso que vale na arte: nos dar forças ou tocar nossa consciência.

Apesar de ter destacado alguns atores todos merecem uma demorada salva de palmas pelo excelente trabalho.

Agradeço aos amigos no Twitter que nos indicaram para receber um par de convites da produção.

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