Dó da morte
30th, November 2008
O coração dói dentro do peito como se uma manopla de metal frio o apertasse. É dor física, daquelas que dão medo.
Na tela, diante dos meus olhos, talvez você ria… Armas de pressão que disparam chumbinho. Espingardas.
Ele não esperava que fosse doer quando lhe pediram para pesquisar preços, mas a cada arma que passava pela tela vinha-lhe o resto da cena: o estampido fraco, o pequeno chumbinho percorrendo o longo cano negro, o ar fresco com cheiro de mato, o impacto, penas que se soltam, um último espasbo do bico e logo a ave cai ao chão fulminada.
Fez a busca somente para descobrir que só há armas, mesmo de chumbinho, à venda quando são usadas. As novas pelo jeito só se vende em lojas.
Deu o recado e pediu para não ter que fazer isso novamente.
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Prim@ver@ dos Livros
29th, November 2008
A garoa fina e o tempo fresco não fertilizam o asfalto das ruas ou o concreto dos edifícios, mas encontram solo sedento em nossos ombros e nos pelos dos braços nús enquanto caminhamos entre os jardins do Museu da República onde dezenas de editoras expõe a Primavera dos Livros.
Livros! Em quantas bienais e feiras de livros não me perdi nos últimos 30 anos? Nos tempos em que nossos amigos eram limitados aos do prédio, do clube, da rua ou do colégio? Hoje outros tantos se juntam a uma interminável lista: do blog, do Orkut, @s…
"Será que vou encontrar @s amigas?"
Mal terminei de pensar isso e lá estavam @prill e @maffalda com um anjo sem arrôba prontos para tomar um café antes da orgia de letras.
Uma puxa uma cadeira antes que os rapazes do grupo possam exercitar seu cavalheirismo anacrônico, lembramos dos devaneios lisérgicos da semana que passou no Twitter, dos papos sociológicos em manhãs digitais, do sabor do café com adoçante, açúcar ou puro, de ser totalmente do contra e ser contra ser do contra. Lembro de décadas passadas quando a TV dava medo, agora é a Internet, mas também já foram as revistinhas em quadrinhos (eu tinha mais de mil).
"Posso tirar as chícaras?" – É, acho que estão querendo que liberemos a mesa… Quanto é? Ops, as moças já pagaram… Então vamos aos livros, mas sem uma vodca antes? Como se chama mesmo aquela garrafinha metálica para bebida? É, vamos sem vodca mesmo…
Filosofia, história, sociologia, perversão, a mente criminosa, cibercultura, geopolítica, bastante literatura infantil, o garoto ostra… É impressão minha ou a concentração de livros bons aumentou muito desde a antepenúltima (pulei uns 2 anos) feira?
Me perco fotografando capas enquanto espero minha @ esposa sair de uma palestra de tradução. De lá ela envia um torpedo
"Não está entrando o Twitter: traduzimos porque temos um projeto para o país"
Realmente, bela frase! Temos que manter os olhos no futuro pois o passado já foi. Não repassei para o mundo na hora, mas ai está agora a mensagem do palestrante.
Com o celular pesado de fotos de livros vamos ao encontro dos outros logo ali no barzinho na esquina, e que feijão amigo! Uma verdadeira bacia! E muitas histórias vexaminosas, reflexões do ensino ao aprender, do conectado ao desconectado e o ensurdecedor fluxo de informações que precisamos aprender a controlar.
As despedidas sempre são a pior parte afinal o toque digital, pode ser porque sou de outro milênio, nos enche de saudade do calor da presença… Muito embora a presença seja muito mais quente depois da troca digital, disso não há dúvida.
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Desconferência
23rd, November 2008
Lá na frente pessoas se alternam falando sobre a escola e o futuro… sobre o futuro e a escola.
No grande auditório talvez 200 pessoas espalhadas em grandes pufes vermelhos, não em cadeiras.
Muitos assistem as palestras, mas outros mantém os olhos perdidos nas telas dos notebooks que repousam em seus joelhos ou nas pequenas telas dos celulares. É uma audiência estranha que digita coisas rapidamente e esboçam sorrisos sem sentido.
Num canto uma moça parece mais alienada do ambiente do que qualquer outro. Seus dedos tamborilam incessantemente o teclado e a luz artificial do monitor dá uma faérica coloração ao seu rosto.
Os que assistem as palestras no entanto e paradoxalmente são os alienados neste estranho auditório pois os notebooks e celulares são janelas para um intenso debate paralelo e os olhos mergulhados nas telas circulam velozmente pelo fluxo de informações do ambiente enquanto os ouvidos permanecem atentos ao palestrante e os dedos tecem comentários.
E aquela moça, a mais alienada, é um turbilhão captando todo esse fluxo de informação audio-visual e convertendo em texto para centenas de pessoas que não estão naquele lugar.
A cena digna de Borges é o cenário corriqueiro de um debate moderno.
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Cloverfield Monstro
21st, November 2008
Hoje descobri que muita gente nunca ouviu falar do suposto sucesso do ano passado. Ontem escrevi sobre ele sob uma ótica compatível lá no Meme de Carbono.
Como teve alguma coisa que eu achei que não valia a pena comentar no Meme de Carbono decidi escrever um post sobre ele aqui também.
Pode ser a seguir sem medo de ter a graça de assistir o filme estragada. Eu quase nunca entrego algo importante dos filmes que comento. E se o faço é sem querer.
Os extras tem duas informações que seriam úteis antes de assistí-lo:
- J.J. Abrams, depois de visitar o Japão, quis que os EUA tivessem um monstro nacional como o Godzila também.
- Cloverfield é um monstro bebê
Eu não diria que o filme é bom. Tem aquele jeito Lost de J.J. Abrams e suas caixas mágicas eternamente fechadas (procure a palestra dele no ted.com), mas o foco narrativo nos coadjuvantes (que comento no outro blog) e essa humanização do monstro aliados a uma profundidade psicológica um pouco maior do que o padrão em filmes deste estilo fazem a sessão valer a pena. Desde que você goste do estilo, claro!
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Inocência
18th, November 2008
O concreto áspero da mureta de proteção está frio sob seus pés descalços. O vento ainda gelado nos primeiros sinais do dia que amanhece sopra seus cabelos.
Diante dela o mar a convida para seus braços, atrás, vindo de um carro parado com a porta do carona aberta, uma voz grave a rejeita e expulsa do mundo "sua vida não vale nada, nem para mim, nem para ninguém! Vai!"
Seu corpo balança levemente, junto com as ondas vinte metros abaixo. Seu espírito se quebra entre as brumas brancas, mas seus pés permanecem firmes sobre o cimento crú.
- É por ele que você pretende tomar o mar como noivo, não é?
A voz vem de um homem, nem jovem nem velho, difícil de definir na verdade, ele está sentando na pedreira, abaixo da mureta, alguns metros à sua esquerda. Ela o olha sem susto, afinal o que importa?
Continua girando até encontrar os olhos cheios de desprezo do homem no carro por quem ela pretende provar amor eterno atirando-se para o infinito.
- Ele vai ter ciúmes de você, dirá que preferiu o mar a ele e te esquecerá… Lembra dos abraços, dos beijos dele? Do jeito como ele usava seu corpo, como se ele mesmo nunca estivesse ali realmente?
Silêncio… Ela continua oscilando, mas os olhos continuam fixos no homem no carro e em suas memórias. No primeiro dia que ele a abordou; mais velho, mais sábio e encantadoramente impossível para sua tolice adolescente… Mas ele a quis! … Ou não quis? Afinal toda vez que estavam em público ele a ridicularizava, na cama a fazia de escrava e passava dias sem ligar sem nenhum motivo. Uma nuvem de dúvida passa discretamente por seus olhos quase infantis.
- Pula para cá, tenho um belo jogo de cartas ciganas, aprendi a usá-las com os primeiros bruxos! Você vai ver que ele nem virá se despedir de você. E o futuro eu tenho aqui nas cartas, pode vir que eu te pego!
Como se estivesse desfalecendo ela deixa o corpo despencar, suas forças se esvaíram e ela decide que se aquele homem puder salvá-la então esse é o destino. Tão logo seu corpo lânguido some atrás da mureta ouve-se o guinho agudo dos pneus no asfalto e logo retorna o silêncio dos últimos minutos da madrugada, exceto pelos risos tímidos dela e a voz firme do nômade.
- Hei – Ela fala entre risos – Isso é um chapéu de mosqueteiro?
- É sim, cai-me muito bem, não acha?
Junto com as duas gargalhadas o sol mostra o primeiro sinal da sua coroa incandescente.
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