Logo uma carreira de zeros anunciará o fim deste dia e a cidade deve continuar desperta lá fora pois cidades como esta não dormem antes da terceira hora da madrugada.
Jovens sedentos de emoções se esbarram em boates ou chegam de taxi bem perfumados prontos para chegar em casa junto com o sol amanhã.
Adultos saudosos das emoções adolescentes lançam olhares pateticamente sedutores para alvos com metade da sua idade.
Ignorando toda esta movimentação a cidade me entrega um silêncio sepulcral…
Não há ruídos de tv ou mesmo as luzes refletidas nas paredes. O culto religioso histérico está calado e nem mesmo do morro se ouve sinal de música ou de festa.
Sinto falta até mesmo dos berros fanáticos e fogos de artifício que saúdam times de futebol rivais.
A brisa fresca que atravessa a janela não me sussurra segredos ou a balbúrdia comum das ruas.
No silêncio da cidade sobrevivem apenas o latido casual de um cão, o ronco suave de um automóvel subindo a ladeira e o ruído de vozes que parecem se desprender das memórias que as paredes tem do dia que passou.
Por quê a cidade dorme tão cedo? Quem abafou as gargantas insones deixando apenas ecos e um estranho chilrear de canário em plena noite? Será um presságio avisando que os mundos estão seguindo uma outra dança? Ou alguém está a caminho?
Hão há ruídos de tv ou mesmo as luzes refletidas nas paredes.
**Não há!
Nossa! Que horror! Corrigi! Valeu!
Com o perdão da obviedade, duas palavras:
Lei. Seca.
E de resto, Scott Fitzgerald já mandava, ‘Na noite da alma é sempre 3 da madrugada’.
Será?
Essa lei nem é tão seca assim e já causa este efeito todo?
E se a gente pedir a lei desértica ou superseca como foi a lei seca de verdade lá dos EUA?
70% de redução nos atendimentos em prontos-socorros, Rio e Sampa, desde a implementação.
Ouço quem ganhou noites de sono, por ter a vizinhança sossegada, agora.
O que não gostamos de pensar é que não temos, como coletivo, maturidade o suficiente para beber. Ai vem o Pai-Estado e baixa ordem de serviço, para nos comportarmos. E queremos ser tratados como adultos — mesmo quando não agimos responsavelmente como tal.