Luzes…
31st, December 2007
Calor! O ano vai mesmo virar! Sempre é assim! Ou muita chuva, ou muito calor!
Os preparativos aqui são modestos. Frutas, farofa de alho, tender porque minha sogra adora, chester com alternativa para uns e prato principal para outros, salada de batatas, um panetone trazido por uma amiga e um pouco de saudades dos poucos amigos que tem pouso garantido aqui em casa. Vocês sabem quem vocês são!
Pensamos em ir na praia depois de alguns anos vendo os fogos de casa, mas o calor e a multidão nos desanimou.
“Medo da violência?”
Que nada! A gente não curte é a mistura de calor com multidão, barulho etc.
Isso me lembra do amigo que está zanzando por Ipanema e periga hipnotizar a praia inteira! Vou dar uma ligada… Será que ele vai encontrar com nossa amiga de Sampa que veio em socorro de um amigo?
Virada de ano para uns é assim: tempo de exercitar os valores da amizade, companheirismo, amor…
Para um bocado de gente é só alegria! Saltar na praia ao som inebriante do techno ou energético do funk banhado de muita cerveja, sorrisos largos como o céu lá em cima e um toque de alienação que uns criticam, mas alimenta as esperanças para o ano que chega!
Até que bateu uma brisinha aqui e o pipocar de tiros e fogos do morro deu uma folga, eles também estão no embalo do funk agarrando-se por um dia ao prazer puro da alegria das transições.
Ah! Este espírito indeciso que nos divide entre o medo e a paixão pela transformação!
Isso sem falar nas pequenas diferenças que nos fazem viver em mundos ligeiramente diferentes uns dos outros e… algumas vezes, beeeem diferentes…
Se você der uma espiadinha aqui no nosso verá uma gente que se reúne em torno da chama tênue da razão cuja luz sabe deixar nas trevas do passado as convicções obsoletas para abraçar as descobertas do futuro sempre um passo adiante.
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Caixas…
30th, December 2007
Comecei a ler repercussções do filme A Bússola de Ouro e comecei a esbarrar em tantas demonstrações de fanatismo que comecei a me preocupar… Depois lembrei que a Internet é um meio traiçoeiro onde vemos a realidade que procuramos, né? Basta entrar no Orkut pensando “será que só tem gente pensando em sexo no Brasil?” para ver do que estou falando!
Percebi que o melhor a fazer seria entrar aqui e fazer um momento blog aqui no blog!
Apesar de estarmos com bastante trabalho (e a criação de um serviço de hospedagem dá bastante trabalho) temos tido tempo de tirar uma semaninha de férias do dia 25 até 2 ou 3 de janeiro.
Além disso duas amigas queridas estão aqui no Rio para ver pela primeira vez a virada do ano na praia.
Como bom carioca é claro que vivo falando mal dos 4 milhões de pessoas se acotovelando no reveillon vindas de todos os lugares do Brasil e do mundo, mas isso é implicância de “local” incomodado com a invasão das suas ruas! Além do mais sou um tipo solitário.
Afastando as xenofobias para baixo do tapete esta é uma época incrível… Se é possível juntar milhões de pessoas de todos os credos, culturas, classes, idades, sexos (os 4) bêbadas, dopadas, em êxtase religioso ou de mera alegria e tudo isso ocorre em paz! Nossa!! Tudo é possível!
Outro dia uma amiga disse que não gostou do reveillon em Paris. Que até arrastão teve. Tudo bem, há uma enorme tensão social na França e… Pera um segundo! Maior do que a do Brasil? Não creio!
Reclamo, reclamo muito mesmo, é verdade, que encaixotamos a fraternidade e todos os espíritos do natal e ano novo durante todo o ano. É uma caixa de Pandora às avessas: deixamos a caixa de Pandora aberta o ano todo e abrimos a de Lyra apenas durante as duas semanas de festas… E muita gente não vê por causa do barulho do consumismo.
No entanto é tudo questão de foco: nós PODEMOS abrir a caixa de Lyra por duas semanas. Nós temos a capacidade de pensar no próximo, fazer sacrifícios pela coletividade, assumir responsabilidade pelas tarefas que estão ao nosso alcance, ser fiéis aos nossos amigos…
Basta tentar lembrar disso com mais frequência, tentar abrir menos vezes a caixa de Pandora e, quem sabe, abrir a de Lyra?
Peço desculpas aos que não sabem o que é uma caixa de Lyra, mas acabo de inventá-la!
Vou tentar escrever logo um post explicando a invenção!
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Visitante do Saara
28th, December 2007
Estou diante de uma vitrine no shopping vendo se os preços já caíram o bastante quando vejo a figura… Tem gente estranha nas ruas hoje em dia!
O sujeito usava um saco de batatas no lugar das roupas, sandalhas fransicanas e barba longa, mas era uma figura carismática apesar de olhar ao redor com um ar meio perplexo e perdido e… bem… ele estava coberto de fina areia do deserto… Juro que ouvi uma risadinha invisível em algum lugar perto de mim.
“Olá! Você fala a minha língua?”
Falava… Mas ele falava como se ficasse surpreendido com a sonoridade da própria voz e tinha um sotaque forte além de uma tendência um pouco irritante de falar rimando.
“Não está certo” ele disse “Devo me confundir com as pessoas por perto! Onde posso conseguir roupas como estas? Cortar os cabelos como o vosso?”
Levei-o a um barbeiro e uma loja ali no shopping mesmo, achei que sairia caro, mas ele puxava assunto com todo mundo e, por algum motivo, os gerentes doavam as roupas ou os funcionários faziam vaquinha para pagar o pouco que ele comprou: um jeans, não quis usar cuecas, uma sandalha mais confortável e uma blusa de malha.
Ele estava muito curioso sobre as festas de final de ano e escutava com as sombranselhas enrugadas todo o papo sobre o nascimento de Cristo.
Sentamos para beber um açaí (ele preferiu camucamu) e…
Você pode achar estranha esta minha facilidade em ficar à vontade com uma figura tão singular, né? Mas saiba que estou acostumado, sou uma pessoa expansiva e, além do mais, todo mundo se sentia instantaneamente à vontade com o cara pelo jeito simples que ele tinha, parecia um lavrador, uma pessoa muito simples, e olhava para as pessoas com profunda contemplação.
… disse a ele que estava desconfiado que sabia quem ele era.
“Não tem nada que eu possa fazer para impedir essa coisa toda de Natal, tem? Eu errei em algum lugar?”
Foi tudo que consegui dele a respeito de qualquer coisa espiritual ou religiosa, mas expliquei que já se passaram 2 mil anos e que a coisa não é tão ruim quanto parece, que Cristo é um bom exemplo para muita gente ainda.
O resto do dia foi em passeios pela rua…
Ele dava água e conversava rapidamente com mendigos que depois iam em busca de um lugar para tomar banho, arranjar roupas e emprego.
Dançou na praia com um grupo de jovens que fumavam maconha depois de provavelmente ter passado a noite transando (ele mesmo não devia ter mais de 22 anos).
Disse duas palavras (que não escutei) para um evangelizador que o abordo dizendo que ele precisava da couraça de Jesus. O pobre homem saiu correndo e chorando.
Passou quase 40 minutos escutando um grupo de crianças numa livraria e depois disse apenas tres frases: Só os bobos tem certeza! Quem é esperto sempre duvida do que sabe! Não deixem nunca que digam para vocês qual é a verdade!
Mais tarde ele disse que a única coisa que o preocupou foi o jeito como andam matando a imaginação das crianças.
Ele passou diante de uma igreja, mas achou muito estranho quando expliquei o que era e não quis entrar. Cheguei a dizer “Pois é, você está sob cada pedra, nas nuvens que passam nos céus…” e ele me olhou quase gargalhando com minha idéia ridícula dizendo que “Ora! Que idéia! Eu estou aqui, do seu lado! Quem está nas nuvens é você bom amigo!”
Eu não aprendo a ficar calado…
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Meio-dia e a praia no verão carioca
26th, December 2007
O cara veio e sentou na minha mesa perguntando se tinha problema…. Tinha, mas ele já estava sentado, pô! Logo ao lado havia outra mesa com um guarda-sol igual, sombra igual, brisa igual e… vazia, mas o sujeito decidiu sentar comigo.
Raios… Praia de Copabana no verão e às vésperas do ano novo! Tem todo tipo de viajante errante e carente. Devia ser o caso do cara. Queria bater papo com alguém com certeza.
Fiz cara de poucos amigos e continuei a beber o meu coco gelado.
“Vim encontrar com um amigo, sabe?”
Não respondi, somente balancei a cabeça fingindo que prestava atenção nas ondas.
“Gosto deste caos de pessoas, etnias, costumes e culturas em que o Rio se transforma nesta época… Meu amigo também… Apesar de não se dar bem com o calor. Por causa de todo aquele pelo.”
Putz, o cara era estranho… Que papo era aquele de amigo peludo?
“Ele gosta de você… Te acha divertido e inteligente para… você sabe, para uma pessoa!”
O sujeito riu… Devia ter uns trinta e lá vai um bocado, mas ria como um garotão.
Olhei para ele e encontrei um par de olhos nem claros nem escuros, algo entre o castanho e o verde. Era aquele tipo de olhar puro que… Bem, se o sujeito fosse uns 40 anos mais velho com certeza se pareceria com o Papai Noel. E me conhecia…
Perguntei “Como é?”, mas ele não respondeu. Começou a falar sobre as mulheres andando pelo calçadão e em como achava maravilhoso que elas não se preocupassem em usar protetor solar! Que ele estava usando, claro, mas adorava esta inconsequência juvenil, este visão limitada que nunca enxerga a velhice até que ela chegue! Disse que, sendo Deus, nada o alegrava mais do que a juventude com todas as suas inconsequências e transgressões e que, se tivesse criado o Universo certamente seria para ver as explosões das estrelas, o choque de galáxias e o turbilhão do despertar da consciência.
E eu pensei “que o cara é que virou um turbilhão verborrágico de palavras!”, mas não resisto a uma boa discussão teológico-filosófica!
“Pelo menos você seria um deus divertido!” eu dei corda.
“Eu não seria, Eu Sou! Seu amigo de botas não tinha dito que você era distraído.”
“Se você é Deus não deveria precisar que alguém lhe dissesse isso, afinal você é onisciente.”
“EEEEUUUU? Quem te disse isso rapaz? Se eu fosse onisciente não precisaria existir pois já saberia de tudo e que graça há em existir se não for para aprender e descobrir coisas?”
Ele disse amigo de botas… Isso explica muita coisa… Para quem não sabe eu sofro deste delírio esquisofrênico, de que sou visitado de tempos em tempos pelo Gato de Botas… Será que achar que estou sentado conversando com Deus significa que estou me curando? Humm… Acho melhor continuar pensando que é apenas outro maluco que pensa ser Deus.
Disse que as pessoas dizem que Deus é onisciente.
“Você acha que as pessoas entendem de Deus? Que toda minha complexidade pode ser explicada para pessoas? Aliás, para as pessoas de dois mil, cinco mil anos atrás afinal não me apresento como onisciente faz pelo menos uns… três mil anos… O que mais ainda dizem de mim?”
“Vejamos, onipotente… onipresente… Acho que é só isso… Ah! Criador do Universo, uns chamam de arquiteto.”
“Tá, já andei dando a impressão de ser onipotente e posso ter feito umas coisas que deram a impressão de onipresença. Eu era jovem… Mas”
Interrompi! Como assim jovem? Sei que pode ser perigoso interferir nos delírios de um louco, mas até um biruta sabe que Deus é mais velho que o Universo!
“Quer me deixar concluir?”
O cara deve ter ficado me olhando por uns 10 anos… Calados. Ambos calados… Uma nuvem deve ter passado porque ficou mais escuro. Começei a temer pela reação de Deus…
“Dizer que eu criei o Universo é até uma falta de respeito! Você acha que o Universo é perfeito? Não acha que eu teria feito melhor se o tivesse projetado? E imagina a minha idade!!! Fala sério!!!”
Já não sei mais se foi só um delírio meu, mas ele riu… e quando riu o mundo pareceu ter parado e, apesar de uma brisa fresca, eu não ouvia mais nada.
Então ele parou de rir e eu estava sozinho… e não era mais meio-dia e pouco, já era noite. Diante de mim havia um Florin de ouro, provavelmente para pagar a conta de 29 cervejas e uma infinidade de salgadinhos que Deus e meu amigo devem ter consumido enquanto eu ficava ali congelado…
Natal e Ano Novo são épocas estranhas…
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Foi Hoje… Até chorei!
25th, December 2007
Toda vez que começo a falar em Fronteiras do Universo (trilogia que se inicia com A Bússola de Ouro) encontro basicamente duas dificuldades:
- Sinto a necessidade de explicar a diferença entre mitologia e fantasia, entre Senhor dos Anéis e Harry Potter já que muita gente coloca tudo no mesmo saco.
- Muitas sagas mitológicas são poderosas metáforas para questões muito reais, no entanto poucas são transgressoras como a trilogia de Pullman e isso sugere a necessidade de confrontar dois paradigamas.
Creio que ainda não respondi bem nenhuma das duas questões nos posts anteriores, mas vou me concentrar apenas na seguinte questão:
O filme é bom?
Sinto que houve um esforço sincero e, em muitos aspectos, bem sucedido de respeitar a dimensão e importância da obra de Philip Pullman.
Logo nos primeiros 5 minutos de filme o espectador que nunca ouviu falar em Fronteiras do Universo consegue entender que tipo de filme está vendo, onde se passa e as características mais imporantes das personagens como o caráter complexo da protagonista (Lyra tem espírito de liderança, é transgressora, criativa, um tanto mentirosa, fiel e competitiva sem ser maliciosa), a sua relação com os Gípcios (não escrevi errado, é assim mesmo) e cria laços necessários com alguns personagens que terão importância mais adiante na saga.
A parte ruim… sim, há uma parte ruim…
O estilo literário moderno, mais dinâmico e menos descritivo faz do primeiro volume da trilogia uma história quase tão extensa quanto toda a trilogia de Senhor dos Anéis.
Vou resumir sem estragar o prazer de quem não viu nem leu a história ainda.
Na primeira parte desta Saga a protagonista transita pelos seguintes lugares (estou colocando fora da ordem):
- A universidade Jordan
- Londres
- A fortaleza dos Panserbjornes no ártico
- Uma região pantanosa
- Bolvangar, uma instalação de pesquisas
- Uma pequena cidade costeira
- Uma viagem marítima e uma por rios
E mais algumas de menor importância, mas em todas estas, enquanto lemos, temos a sensação de uma longa passagem de tempo, dias ou mesmo semanas e no filme acabam se sucedendo apressadamente.
Caso esta fosse uma mera fantasia para distrair a familia eu não estaria aqui dizendo categoricamente para você assistir o filme, mas Fronteiras do Universo (His Dark Materials em Inglês) inspira-se e tem potencial para ser tão impactante como foi Paraíso Perdido de John Milton no século XVII e isso nos leva a outro patamar de julgamento.
No papel de introdução para o que está por vir é um excelente filme! Principalmente como forma de divulgação dos livros (cujas vendas já haviam aumentado 500%).
Além disso, apesar de corrida, a aventura é clara, os personagens são carismáticos, as atuações estão muito boas (Dakota É Lyra e Kidman conseguiu ilustrar muito bem a força e a personalidade conflitante de Marisa Coulter) e a atmosfera está densa como deveria.
A densidade, a propósito, é uma das características principais deste filme!
Quando saimos do cinema, encontrando um ensolarado dia de verão, nos sentimos felizes por viver em um mundo livre (ou quase) da sombra do Magistério.
Bom, para concluir me sinto na obrigação de apontar dois pontos negativos que podem ser úteis para o espectador que não leu os livros:
- A bruxa Serafina Pekala tem uma aparição incomodamente breve e repentina
- Os laços de confiança são construídos muito rapidamente, aliás não são construídos: Lyra é uma menina desconfiada “na vida real”
Resumindo: Assista o filme e leia o livro depois ou, pelo menos, leia sobre ele em blogs como este
P.S.: Dê uma olhada nos comentários da Miriam também
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