Orcina dos Anjos desperta
26th, February 2007
Fevereiro chegou obscurecido por nuvens negras e lufadas de ar quente e sufocante a começar pela face maliciosa de Loky que espreitava nossas palavras. O mundo hoje é negro para nós. O chão se encontra árido, rachado e riscado pelo sangue seco de barro vermelho.
Queremos o sono dos justos e entregar a vida aos seres que se convulcionam entre as folhas deitadas ao chão no outono.
Aqui o inverno e o outono se instalaram trazendo o sono e o recolhimento.
Ah! Mas Orcina dos Anjos se preparava para despertar!
Por cinco dias ela se retirou deitando-se estática desafiando-nos a encontrar movimento em sua imobilidade.
Por cinco dias dormiu preparando-se para nos ensinar os segredos da luz, o caminho do despertar.
Abriu os olhos no sétimo dia, mas nada disse. Apenas nos fitava ora convidando-nos à sua companhia, ora irritando-se com nossa fraca imaginação e perspicácia.
O sétimo dia a encontrou de olhos novamente fechados, caminhando de pés descalços sobre a Terra mal tocando sua poeira seca, mas arrastando consigo os céus que reuniram as plúmbeas nuvens e verteram mares sobre a terra por onde ela passava.
Orsina dos Anjos estava prestes a despertar. Os rios das lágrimas dos céus desenhavam histórias em suas bochechas coradas e Bastet acariciava o cabelo que lhe cobria a testa.
O chão, abrindo-se sob seus pés, formou um lago acinzentado onde seu reflexo mergulhava enquanto ela se dirigia às nuvens que se abriam para a carruagem solar vindo a chamado dos seus amigos e família.
Uns olhavam desolados o reflexo mergulhando no lago escuro, mas outros levantavam as faces iluminadas para Orcina dos Anjos sentada em sua carruagem mandando-lhes um beijo de "até mais"!
Assim morre uma bruxa, despertando nos braços de Gaia.
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Van Gogh
26th, February 2007
Vincent, um santo perturbado, um artista santificado, um homem angustiado. Impossível não se supreender e emocionar com uma vida tão impressionante e vasta.
Cheguei ainda a pouco do teatro do Jockey onde está em cartaz "Van Gogh, O Amarelo Aumenta todos os Dias" Com Carolina Kasting e Maurício Grecco.
Descobri que não sabia nada sobre Van Gogh e certamente passarei a olhar para suas obras com novos olhos, buscando o enfurecido espírito religioso que o consumiu até finalmente levá-lo ao fim.
A peça tem uma estrutra bem seca, opta por dar vida às palavras de Van Gogh (interpretadas pelo casal de atores, mas como se fosse um monólogo) sem cores, sem imagens e despidas da intensidade que o pintor certamente carregava como se fosse um punhal permanentemente cravado no próprio peito.
O resultado talvez seja monótono para muitos espectadores, mas o texto é bem escrito chegando a transpirar intensidade em certos trechos e consegue construir a imagem de um Van Gogh com a complexidade e a febril dedicação que ele merece.
Eu preferiria uma atuação mais intensa e cenografia mais rica, creio que tornaria o espetáculo mais acessível ao grande público, mas entendo a opção pela estética e atuação quase claustrofóbicas que refletem, afinal de contas, uma personalidade presa fora do espírito da própria época.
No entanto o que mais me incomodou foi meu próprio desconhecimento da história de Van Gogh. Ler a Wikipedia e visitar o museu de Van Gogh não é o bastante, mas já é um começo.
Van Gogh se agarrou à alma e a alma sem Van Gogh acaba vazia, triste, sem destino. Em tempos sem alma ele pode ser o verbo de ligação entre a acomodação e a perturbação que nos coloca em movimento.
Serviço:
Teatro do Jockey. Rua Mario Ribeiro 410, Gávea (2540-9853). Sex e sáb, às 21h. Dom, às 20h. R$ 25. 12 anos.
Até 29 de abril.
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Propaganda e arte
24th, February 2007
Estava lendo no Síndrome de Estocolmo o post Propaganda misógina banida da Espanha e teci o comentário abaixo que achei que merecia vir para cá.
Arte é um conceito tão vago, né?
Concordo que propaganda não pode ser arte afinal o objetivo dela é VENDER e ponto.
Apesar disso algumas peças de publicidade antigas (tem umas boas dos anos 70) são consideradas arte.
Só que…
Existe uma diferença abissal entre a forma de observar arte e a de observar publicidade.
Quando olhamos uma peça de publicidade de um produto que nem existe mais estamos analisando o ambiente cultural daquela época.
A proposta de observar a campanha da Dolce Gabana do ponto de vista artístico não deixa de ser interessante… De que mundo ela fala? Em que mundo a Dolce Gabana acredita? Aparentemente um mundo onde o céu se mostra distante e inalcansável sobre um mundo árido e metálico onde homens rudes se entregam aos seus desejos animais subjugando mulheres sofisticadas e de uma classe social, talvez até mesmo de uma época, diferente.
É… Visto como obra de arte até que representa características de alguns estratos do nosso tempo.
Acontece que é uma peça de propaganda e o que acaba por fazer é vender este mundo para o consumidor e se vender a consumidores que enxergam o mundo desta forma.
Perigoso…
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A vida com rugas
21st, February 2007
- E agora? Faço o quê?
- Acende a vela e deixa pingar a cera na água. Não pode ficar olhando! Fecha os olhos!!
Uma a uma as gotas vão formando uma letra, ou pelo menos as meninas verão ali a letra do homem da vida de cada uma delas.
- R?? Mas não conheço ninguém com R! Que chato!!
A noite se deita e dorme ignorando os risos, cochichos e eventuais gargalhadas logo abafadas com medo de acordar os pais que dormem. Planos, sonhos e profundas filosofias adolescentes sobre o mundo melhor que ajudarão a construir, ou a vida boa que terão em sua própria casa com ou sem o marido, o tal com R.
Entre elas e o mundo claro que enxergam no futuro se colocam os anos trabalhando, os amigos da empresa (raramente mais do que uma sombra das colegas de escola em quem podiam confiar e com quem podiam rir de si mesmas).
À margem dos vales sonhados nas noites púberes com as amigas há sombras insuspeitas aos 16 anos que escondem os outros…
Aos 16 todos são conhecidos, até o cdf chato ou o playboy metido. Aos vinte e poucos os outros que se escondem nas sombras são espectros solitários incapazes de ver nos demais qualquer coisa além de ameaça iminente ou caça potencial.
Um dia também pingaram suas velas na água, mas se esqueceram e se perderam dos amigos daqueles tempos ou talvez da alma que tinham e agora espreitam à margem com medo. Com raiva.
Sem saber de nada as meninas continuam madrugada adentro carregando suas próprias luzes para afastar o véu noturno. Algumas se apagarão, outras jamais. Infelizmente quase todas terão que enfrentar as sombras que espreitam.
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A vida sem rugas
20th, February 2007
Ah! E se o mundo fosse mais sintético? Sem sobras, sem infinitas redes de pequenos detalhes que tornam tudo uma vasta teia de consequências e regras?
Se reinasse o bom senso?
Uma vez me perguntaram o que eu mais queria, o que pediria se um gênio me oferecesse três desejos… Acho até que já contei isso aqui. Era um parente que se achava rico e pensava que poderia comprar qualquer coisa que o jovem de 15 anos pudesse pedir.
"Hummm… Primeiro que todos tivessem o desejo sincero de se comunicarem. Que ao falar não tentassem se engrandecer, mas se compartilhar e ao escutar que não buscássemos uma brecha para falar e sim nos esforçassemos para nos colocar no lugar de quem estivesse falando."
Juro que foi uma resposta sincera!
Ainda sonho com um mundo que procure se comunicar antes de partir para as diversas formas de violência.
Ah! Se fosse tudo sem debruns, sem rugosidades ou dobras e as sombras não fossem capazes de esconder a luz…
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