Lembretes para o dia-a-dia (62): O atrito que nos salva
31st, August 2006
Há estas duas grandes forças: a inércia e o movimento.
Sem o atrito todo movimento se descontrola.
O medo e o ódio que nos paralizam hoje diante das manchetes é fruto de um atrito fraco para um fluxo de informações livre e rápido demais.
Filed under: Lembretes, Reflexões | No Comments »
Diante da igreja
30th, August 2006
… bem vestido, você sabe. Roupas bem passadas, sóbrias e bem ajustadas sobre o corpo como se fossem um uniforme. Um colete preto sobre uma camisa social branca, uma calça preta, cintos também pretos e um discreto cinto, preto, claro, com fivela prateada. O homem bem vestido estava na calçada diante de uma destas igrejas protestantes e distribuia papeizinhos. Um evangelizador.
- Senhor, uma mensagem para o senhor! - E oferecia um sorriso realmente sincero e amigável.
- Lamento, religiões e eu não nos damos bem.
O pedestre era um sujeito baixinho, o cabelo parecia um tipo de chapéu e trazia um guarda-chuva a tira-colo. Sua voz carregada de um sotaque indefinido era discretamente sarcástica.
Ele segue alguns passos antes de se deter, virar nos calcanhares e olhar para o religioso. Fala alto para ser ouvido através do barulho da rua.
- É, não é que não acredite em nada, mas religiões… Ah! Esquece.
- Tem certeza que não quer a mensagem senhor? Acho que mal não fará! Talvez chame sua atenção para outra realidade.
O homem pega a mensagem. Ele atravessa os três metros com uma agilidade incrível e a segura entre os dedos corduchos antes que o evangelizador perceba seus movimentos.
- A vontade divina… É uma bonita frase meu jovem, mas não é esta a realidade.
- Talvez não senhor, mas nós religiosos somos buscadores da verdade e esta é a que eu vejo e que aquece meu coração.
- Se o seu coração sente frio não precisa de realidade e sim de ilusão, não acha?
O pedestre baichinho está apoiado sobre o guarda-chuva fincado no chão bem diante do religioso.
- O conforto que procuro em Deus é antes para ter forças a fim de enfrentar a realidade, senhor!
O tom grave do olhar harmoniza perfeitamente com as vestes sóbrias.
- Ah! Mas realidade é tudo do que religiões não tratam, meu caro. Olhe ao redor e tudo que verá é uma fantasia criada por nós, e se há um Deus e se ele nos deu algo foi o livre arbítrio para criar o mundo e a realidade que desejássemos.
O baixinho tinha o olhar distante enquanto olhava ao redor regendo o mundo à volta como um maestro que tenta extrair dele alguma expressão.
- Estes edifícios, países, leis, sociedades, políticas. Religiões. Tudo isso é criação de vocês, humanos. Se você deseja a realidade busque as palavras puras de Deus. Se ele existe suas leis estão escritas nos movimentos das estrelas, no crescimento das florestas e no ciclo da vida dos animais que não mergulharam nesta ilusão que é a sociedade humana. Mais do que isso não lhe direi pois a realidade não é uma só e só pode ser conquistada, jamais ensinada. Mas…Você quer mesmo o desconforto dela ou procura o conforto dos braços de um pai?
Ele sorri um sorriso honesto, dá um tapinha no ombro do religioso e num passo alcança a esquina vinte metros adiante.
Antes de virar a esquina lança um último olhar e passa a mão pelos cabelos como quem faz uma mesura com seu chapéu e, por uma fração de segundo, o guarda-chuva parece um belo florete.
Filed under: Devaneios | No Comments »
Vida digital: PDAs e telefones
27th, August 2006
A gente morre pela língua, né?
Faz um tempo que torço o nariz para a idéia de ter PDA e celular num aparelho só. Tenho até bons argumentos como não ostentar riqueza num tempo de graves tensões sociais, o fato de que nem sempre precisamos dos dois aparelhos juntos e de que são trambolhos.
Por outro lado os PDAs morreram. A Palms e RIMs da vida talvez ainda não tenham percebido, mas de um lado os celulares fatalmente absorverão boa parte dos seus recursos, de outro os computadores (inclusive com Linux) já estão ficando do tamanho dos PDAs.
Para completar o cenário meu fiel companheiro por uns seis anos, um Palm 130, está morrendo e só não comprei outro porque estou nesta dúvida terrível entre esperar um computador PDA com Linux ou comprar um trambolho celular/pda.
Liguei para a minha operadora (Claro, mas não por muito tempo) e me informei sobre o Blackberry.
Bem, vamos combinar que pagar 70 ou 80 Reais para ter um cliente de email no celular que pipoca automaticamente quando chega um email é uma idiotice! Podia fazer sentido no início dos anos 90, mas agora a gente pode perfeitamente redirecionar nossas 9 contas de email (alguém precisa de tantas?) ou 90 se quisermos, para um único endereço acessável por webmail e fazer lá um esquema de filtro e pastas para cada email.
Ao menos parece que posso comprar o Blackberry sem esta coisa de cliente de email caro e pagar 6 pratas por cada MB baixado. Humm… Deve dar para navegar e checar os emails sem gastar uma fortuna.
Ao mesmo tempo a Palm fica resfolegando com seu Treo (que pode vir com PalmOS ou Ruindows) e a Nokia entra na parada com o E61 (usando Symbian).
Vamos admitir que a maioria das pessoas, para o bem delas, não é nerd a ponto de usar PDAs e muito menos PDAs integrados a celulares, mas quem me conhece sabe como sou um sujeito digital e realmente faço uso rentável destas coisinhas. O problema é só um:
Estou achando que nenhum deles é interessante e algo vai acontecer nos próximos 12 meses. Será?
E com isto completo este estranho post mordendo a lingua: faz tempo que digo que não vou falar de tecnologia aqui…
Filed under: Atualidades, Terra | 3 Comments »
Vai voar…
26th, August 2006
Já escrevi isso antes, mas realmente tem dias que tenho vontade de escrever, o tempo vai passando e quando vejo não escrevi nada e nem faço idéia do que escrever, nem mesmo o tema me dá a honra da sua presença.
Durante o dia levei meu cachorro para a última vacina (ele tem 4 meses) e voltei com ele se debatendo incomodado pela coleira que usa pela primeira vez. Fiz um clipping. Já fui pagar contas, comprei meias, comi uma lazanha de beringela (deliciosa) e corri três vezes pela casa fechando portas e janelas (venta tanto que não me surpreenderei se a Doroty ou a Mary Poppins surgirem na varanda). E nada de escrever.
O problema é que um blog vira rapidamente um misto de terapia com senso de dever social. Tá, eu sei que posts como o anterior não tem qualquer valor social, mas deve servir para algo.
A esta altura da noite quero sentar e descobrir onde vão parar os Filhos de Anansi e aproveitar um pouco da compahnia da Coelha.
Então talvez seja uma boa hora de você fazer o mesmo, ou talvez clicar num dos blogs na lista ai da direita para ver se algum deles está mais inspirado que eu! ![]()
Filed under: General | 1 Comment »
Desespero
24th, August 2006
O homem sem camisa apesar do frio espera entre os portais da porta aberta. O corredor frio e cinza o encara de volta com um suave hálito gelado. Ruídos fluem até ele junto com o vento. Vozes distantes, portas sendo abertas ou fechadas, uma risada de criança, um latido de cachorro e o ruído monótono das máquinas do elevador avisando que o entregador já deve estar subindo.
O homem deixa os olhos perdidos num ponto na parede e os pensamentos entregues a devaneios. Já pensou se o entregador é alguem conhecido? Raios de cidades grandes onde nunca encontramos com a mesma pessoa duas vezes até encontrar num só dia com todos os rostos perdidos do passado.
Como demora este entregador…
Justo quando ele nota a demora a porta do elevador de serviço se abre depois de uma curva no corredor. Segundos depois surge o entregador. Na verdade primeiro aparece o saco plástico branco com as batadas recheadas e depois o entregador.
O homem sem camisa e calça de moleton dá um salto e uma máscara de terror toma conta do seu rosto no exato momento que entregador vira a esquina para o corredor principal.
Enquanto se esconde atrás da porta pensando no que fazer se pergunta como é possível que justo aquele monstro do passado ressurja assim naquele momento.
O pavor maior era ter esquecido totalmente aquele episódio ocorrido pouco mais de 20 anos antes. Até ver o perfil do entregador todas as memórias retornaram, como se uma outra encarnação rasgasse suas entranhas matando o homem que era e transformando-o na criatura desprezível que fora no passado.
- Senhor?
O entregador já o tinha visto! Não poderia mais recuar e o passado inevitável o engoliria para sempre.
Mantendo a cabeça atrás da porta ele disse com uma voz gutural, propositadamente deformada.
- Tem alguma coisa prendendo a porta… Pode deixar ai fora… Trouxe troco para cinqüenta?
- Ãhmm? Não senhor… Não me disseram nada.
- Merda! - esqueceu de desfarçar a voz pigarreou e seguiu - Já é a segunda vez. Toma, fica com o troco.
- Mas senhor, é uma gorjeta de quase trinta Reais. Errr… Tudo bem com o senhor.
Teria o entrador reconhecido sua voz ou simplesmente se preocupava com o homem que se contorcia atrás de uma grande porta escura e estigando um braço para fora com uma nota de 50 entre os dedos.
Passaram-se longos segundos sem que o entregador tivesse uma resposta além da mão que sacudia freneticamente a nota. Do outro lado da porta o homem sem camisa e calça de moletom suava frio, achava que ia vomitar ou ter uma diarréia, mas antes disso o entregador finalmente pegou a nota, agradeceu e seus passos mostraram que ele seguia pelo corredor.
O homem fechou a porta sem pegar a comida que ficou ao lado do tapete. Passou meia-hora, talvez mais, escorrendo suor. Chegou a esquecer da comida. Só horas depois ele voltaria a abrir a porta e pegar as batadas recheadas frias. Quando abriu a porta esperava não encontrá-las lá, esperava que tudo não tivesse passado de uma alucinação. Era melhor estar louco do que se lembrar daquele passado e se estivesse louco poderia dizer que tudo não passava de uma fantasia esquizofrênica. Não era e seu pesadelo apenas começara…
Filed under: Devaneios, General | 2 Comments »


