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Beltane

31st, October 2004

O anoitecer assume um tom púrpura, as noites vão ficando cada vez mais quentes embora ainda seja primavera. É… Está chegando o dia do Beltane, o ponto máximo da primavera, quando a luz domina a noite tanto quanto o dia. Ele sabe que esta é a época do cio de Gaia e já espera por surpresas.

A realidade dos homens é um fino e frágil véu que só consegue se manter graças às cordilheiras de edifícios e fantasias que o afastam dos quatro ventos que circulam pela Terra impulsionando os ritmos da vida.

Um grupo de crianças passa por ele, fantasiadas de bruxas, monstros e super-heróis. Quando dá por si, sua mente está divagando por outros tempos, outras terras em que o solo começava a gelar nesta época do ano a caminho do inverno. Mas este é outro tempo, outra era, outra vida e, aqui, a vida explode, preenchendo o ar com pólen e causando-lhe corisa.

É incrível como, capaz de sobreviver à passagem das eras, ele pode ser tão vulnerável a esses caprichos de Perséfone.

As esquinas já estão ocultas por sombras quando ele chega ao aterro do Flamengo, onde as árvores dominam novamente o solo. Ele se detém por um instante e reflete como toda a cidade parece apenas a fina casca de um ferimento sob a qual flui a seiva da vida: insetos, raízes e animais subterrâneos.

Entre as sombras de uma árvore cercada por suas altas raízes aéreas, ele enxerga um pequeno vulto. Deve ser aquele que emitiu o chamado que o atraiu… Não que aquele seja um local improvável para encontrar alguém, mas da sombra se estende um longo rabo que dança languidamente de um lado para o outro.

- Humm… Gato? Gato de Botas? - ele pergunta.

- Duas coisas me incomodam muito! - começa a responder a voz faceira, divertida e com um toque de ironia. - Uma é a cegueira dos humanos para tudo que é importante! Passam anos estudando os sistemas políticos, cidades e filosofias que inventaram, mas são incapazes de olhar para a lua e ver sua face sorridente! A outra é quando me confundem! Sou Maurício, primo do Gato de Botas. Você está me vendo usar algum chapéu ridículo?

É… será uma longa noite, mas certamente uma das mais divertidas, pensa o errante com seus botões!

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13o Panorama da Dança contemporânea

30th, October 2004

Fiquei sabendo apenas hoje que exatamente hoje começava o 13o Panorama Rio Arte de Dança, um dos principais eventos de dança do Brasil. Revirei a rede atrás de detalhes e a única coisa decente que achei foi a programação divulgada pelo Instituto Camões.

O que mais incomoda é que a maioria dos poucos artigos que fui capaz de achar (e sou bom tanto em Clusty quanto no Google!) parecem despresar totalmente a platéia leiga, como se esta forma de arte fosse apenas para iniciados.

A propósito este parece ser um vício de muitos artistas de várias formas de manifestação. Na ânsia de impressionar uns aos outros vestem antolhos e só olham para o próprio pequeno universo…

Felizmente a arte é mesmo um fenômeno impressioanante da alma humana e é capaz de produzir obras de rara beleza, mesmo quando o artista não sabe bem o que realmente está fazendo! Se bem que a Cia Ana Vitória (é onde o link acima leva) parece saber bem o que faz!

Até terça-feira devo conseguir informações sobre os melhores espetáculos do 13˚ Panorama da Dança Contemporânea e os divulgarei no Olá Semanal que mando aos amigos.

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Encontro com um sábio

28th, October 2004

Depois de percorrer uma longa jornada através de uma vasta planície finalmente ele chega a uma elevação coberta de árvores. No topo uma modesta casinha deixava escapar uma coluna de fumaça pela chaminé.

Cansado o homem vence os últimos metros entre o bosque sem trilhas e encontra o sábio sentado na varanda olhando para o horizonte.

- Mestre? Mestre? Venho procurá-lo humildemente!

- Não há nenhum mestre nestas bandas, filho. - responde o velho.

- Mas preciso saber o sentido da vida, a razão da minha existência e como ir além da vida rasteira nas planícies!

O homem, que já não é mais um jovem e deve beirar seus quarenta anos, olha suplicante para o velho sábio que permanece sentado de pernas cruzadas olhando fixamente o horizonte. Sem desviar o olhar e com o tom de quem fala com os próprios pensamentos ele responde:

- A vida segue naquela direção - e aponta para algum lugar a noroeste - e para ir além das planícies você precisa de bons olhos. A razão da sua existência você que sabe, a minha é cuidar da horta. Agora preciso ir!

O velho se levanta e deixa o homem sozinho com as respostas. Decepcionado ele parte de volta para sua cidade. Orgulhoso não aceita que foi incapaz de entender as respostas do sábio e passa a considerá-lo um velho arrogante que fala por enigmas quando certamente a sabedoria deve ser algo simples!

Enquanto isso o velho entra em sua casa e senta à mesa. Lá do fundo da cozinha sua esposa lhe pergunta alguma coisa.

- É mulher! Não dou três dias para cair a chuva. Vai ser bom para a horta! Ah! Passou um moço aqui…

A esposa chega na mesa com uma tijela de peixe assado, o almoço.

- É? E o que ele queria? - ela pergunta.

- Queria saber de um tal mestre, depois perguntou sobre a rota de caça, sobre como pegar os bichos mais graúdos e no que eu achava que ele trabalhava. Era um sujeito meio esquisito…

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Guimba

27th, October 2004

O vento fresco, as gotas de chuva, o cio da terra, tudo se afasta empurrado pelo movimento fervilhante que flui pela avenida apertada entre edifícios e suas janelas fechadas. Passos apressados se equilibram sobre as pedras portuguesas escorregadias cobertas pela fina película da chuva. Rostos sérios carregam ainda as imagens dos escritórios ou a espectativa do apartamento de portas cerradas.

Uma gota de chuva vem percorrendo o longo trajeto dos céus mais acima, driblando correntes de vento, os sopros dos escapamentos e marquises para ter seu movimento suspenso poucos metros acima da calçada, rodopia enquanto o tempo se desacelera e vem chapiscar lentamente ao lado de um sapato velho, rachado e sujo.

O mundo gira em outra velocidade ao redor daquele surrado calçado de couro enfiado em um pé marcado pelo tempo e pelo cansaço. O calcanhar não é vestido pelo calcanhar encardido que amassa a borda que se desprende da sola do pé a cada passo lento e arrastado.

A dobra da calça jeans puída é displicente e frouxa, um terno sem cor envolve o tronco curto e mirrado de um velho de bigodes ralos e olhos fundos marcados por grandes dobras de pele. Olhos que fitam algum tipo de infinito interno procurando-o mais à frente. Ele fuma…

É um cigarro torto de onde sobe uma fumaça lenta, uma guimba que repousa entre dedos lânguidos e amarelados.

Os passos continuam se sucedendo sem pressa, como se fossem soprados pelo vento, vagando entre borrões de cidadãos atribulados que passam como as lufadas rápidas de vento nervoso.

Então mais uma guimba esquecida entre as pedras portuguesas da calçada. Lentamente ele se detém, curva-se como um ramo de trigo antes da tempestade e colhe o vício antes que a cinza do anterior se esgote.

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Monstros modernos

26th, October 2004

A fantasia sempre foi povoada por seres monstruosos. Dragões, Orcs, Nazguls, Mulas-sem-cabeça e outras criaturas que personificavam o medo, o ódio, a solidão e outros fantasmas da consciência.

Nos tempos modernos o material simbólico dos sonhos é despresado como se fosse mero “lixo do inconsciente” ou fantasias primitivas, mas a nossa alma ignora a tentativa ingênua da nosso consciência que tenta se livrar destes mitos e os monstros continuam vagando entre nós exatamente como faziam nos tempos de Aladim.

O comunista moderno combate o monstro do capitalismo e tenta encarná-lo em homens; acaba maldizendo o capitalista que recebe alguns milhares de dólares por mês, mas esquece que as corporações que concentram o capital já transcendem em muito aos peões humanos.

Ainda que os rumos de cada corporação sejam guiados por meia dúzia de indivíduos eles já não são mais importantes, em breve estarão mortos enquanto a corporação continuará: um monstro de vontade autônoma conduzido pela vontade coletiva de uma sociedade que anseia pelo consumo e super-exposição.

“as corporações são o mostro do futuro…”

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