testemunha fria

O grande espelho diante das pias de pressão reflete um banheiro vazio e portas entreabertas de cubículos com vazos sanitários.

O som ruidoso de vozes invade o silêncio enchendo o banheiro quando uma porta se abre e é atravessada pelos passos apressados e barulhentos dos saltos altos.

- Se eu fosse ela ficava puta com você! Ela não tá toda enrolada com o cacho dela e não veio só para te pedir ajuda?

- Ué!? Mas não é o que eu estou fazendo? Ela vai se distrair com a galera, e tem o Marcos que ela adora! Ele sempre dá um jeito de animar a gente!

Os rostos das duas no espelho as encaram assustados e curiosos enquanto o ritual de ajeitar cabelos e verificar o batom nos dentes se desenrola quase inconscientemente.

- Você que sabe, mas desconfio que era com a sua amizade que ela estava contando e parece que… sei lá!

- “Parece que sei lá” não! Agora fala!

O ruido do salão invade novamente o banheiro que já se havia acostumado com a melodia das duas vozes que oscilavam entre a irritação contida e a velocidade natural das grandes metrópoles.

Quem entra é pouco mais que uma menina, roupas leves, maquiagem capricada e o brilho intenso dos 16 anos e da paixão nos olhos que se observam no espelho como se ela conversasse mentalmente com ela mesma.

As duas amigas permanecem estáticas se encarando em silêncio. A menina termina seu diálogo silencioso, conclui o ritual do batom e dos cabelos e parte novamente para a algaravia que entra como uma onda no banheiro…

- Eu só acho que tem vezes que você é meio insensível, entende? Tem horas que você dá a maior atenção para alguém que não está precisando e deixa de lado outra que está toda carente…

Por um instante o olhar da outra parece se obscurecer e se afundar dentro das orbitas, então sua expressão se endurece quase imperceptivelmente…

- Mas ela está estranha comigo faz um tempo! O que eu posso fazer? Tem uma hora que a gente fica de saco cheio!

- Ah! Sei lá! Já tô me metendo demais onde não devia!

Mais uma vaga de vozes, ruidos de talheres, música e cadeiras se arrastando empurram o silêncio para os cantos. Um par de passos se afastam menos firmes e rápidos logo seguidos por outro par. Afastam-se no meio da turba e o vazio volta a dominar o espelho e as portas entreabertas…

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