Comensais
29th, January 2003
Grandes mesas vazias lotam o salão da churrascaria, redondas e vazias. Num dos cantos várias travessas se espalham apertadas entre os pratos. Banana (em extinção), cebola frita, batatas, farofa, pasteis e outros acompanhamentos deixados a esfriar enquanto o papo dos comensais se aquece na chama de sorrisos que são trocados, interjeições de protesto a opniões polêmicas, e piadas até que outros tantos vão chegando de diferentes pontos da cidade como viajantes que se encontram para dividir suas histórias.
Entre eles há tempestades, há o conforto dos olhos amigos que acolhem melhor que os braços da mulher amada, há os bons e os maus dias, contudo sempre está ali entre eles a pureza de espírito que faz das vidas cotidianas grandes épicos.
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Café pingado e um pão na chapa
28th, January 2003
Dormir quando o sol já ameaça se levantar no horizonte, acordar quando ele ainda não apagou o sereno da noite sobre as folhas das árvores cobertas de poeira púmblea.
Andar a passos largos, fiapos de suor já deslizando entre as astes do óculos velho, correndo contra o tempo para encontrar sua condução ainda esperando. Atravesar o dia na esperança do por do sol para retornar aos sonhos, ao labor para tirá-los dos domínios de Morpheus. Enfrentar a noite moldando um futuro melhor.
Gentileza moderna
Este suas médias requentadas o nosso executivo moderno procura um pouco de conforto em seus devaneios e casuais passeios de bicicleta pela cidade. Faz escala em um posto para calibrar seus pneus, ajuda a senhora que também passeia com sua bicicleta a calibrar os pneus.
- Obrigado meu filho, quer um Real para um cafezinho?
E ainda por cima este blog passa por uma crise de criatividade…
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Labirintos de espelhos urbanos
27th, January 2003
Quando iniciei este blog, meses atrás, não achei que seria capaz de manter a idéia inicial dos devaneios diários, afinal, é devaneio a rodo! Ah! Mas basta um olhar mais atento na nossa cidade para descobrir um universo infinito de devaneios!
Como sempre a noite já não é mais jovem. A chuva enfeitou a cidade de reflexos, transbordou a Rodrigo de Freitas e colocou poças lamacentas no caminho dos pneus das bicicletas que se vêem obrigadas a cruzar as ruas escuras da madrugada bem lentamente para não enlamear seus pilotos.
A água que cai do céu é até bem vinda, beijos suaves e gelados da mãe Terra, mas a que respinga das ruas desta Morpork latina realmente não desperta o mesmo conforto!
Quanto mais devagar o mundo passa maior se torna a vida, pena que nossos carros sejam verdadeiros cometas que passam e ninguém vê, passam e nada vêem!
Ao largo vão desfilando os cenários da noite. A grande garça e seu tae-chi-chuan nas margens alagadas da Lagoa; mais na frente o camburão segue na contramão enquanto metralhadoras são apontadas para o velhinho ao volante do carro novo; cruzando o Flamengo sobre um viaduto os traços humanos invadem as narinas, ainda mais adiante o caminão de lixo carrega mais cheiros…
A cidade segue impessoal, nos apartamentos as paredes se tingem das mesmas cores enquanto os que permanecem acordados assistem ao mesmo canal, mas entre todas estas coisas sempre há uma luz, a que brilha nos olhos de uma criança que chora as lágrimas dos guerreiros que desafiam seus limites e transformam o mundo.
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Tlaloc
26th, January 2003
Lá fora o mundo desaba em água, ao longe escuto forte a batida da bateria de carnaval e os gritos festivos que vez ou outra se elevam acima do ronco da chuva na copa das árvores. O deus da chuva e seus seguidores parecem ter despertado do seu sono! Resta esperar que voltem a dormir antes das chuvas de março!
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Deuses Brasileiros
26th, January 2003
Escatologicamente e magistralmente Neil Gaiman satiriza a cultura popular estadunidense em seu livro Deuses Americanos, mas se tivesse passado mais tempo no Brasil se encantaria com nossos deuses que, como no seu romance, caminham entre nós como humanos, saltando de um mendigo a uma criança e depois a um velho que joga damas com o caximbo tombado no lado da boca.
Na esquina da rua do Catete com outra sem nome em minha memória que se recusa a decorar nomes de ruas, se estende enorme o esqueleto da Renascença. Loja que já foi até cantada pelos mestres da nossa música e hoje é o eco vazio do abandono, região de espectros que poderiam espiar lá do fundo escuro nossa passagem pela calçada aproveitando-se do véu com que escondemos tudo que é feio, do morador da rua ao prédio em ruinas…
Vira e mexe os espectros escapam, vagam ao nosso lado pela calçada, assim foi hoje!
A pele marrom, escura como o barro fértil, barbas e cabelos negros, curtos, uma única perna fina usada para saltar, o bermudão largo, sem camisa e uma árvore por desafio! Lá vou eu em busca de um novo lar para mim e deixo este saci moderno escalando sua árvore onde se empoleira como um pombo e se entretém a nos observar passando em nossas vidas tão importantes…
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