Dr. Tenório está magoado
25th, September 2002
As mudanças tem seu próprio ritmo. Vão andando devagar, bem devagar e nos deixando cada vez mais ansiosos até que resolvem tomar impulso em vertiginosa velocidade! Pois as minhas ainda estão na fase da tortura lenta, me cozinhando e testando minha resistência, perseverança e paciência!
Para tomar um pouco de ar fui um pouco mais para perto da fonte, desci e fui passear com minha cara, minha metade, pelos jardins do museu da República onde há uma casa de chá ao ar livre. Não costumamos freqüentá-la pois as experiências anteriores não foram das melhores, mas o dia fresco pedia um chocolate quente!
Mas o Dr. Tenório não está zangado! Ele está muito triste, magoado! Não de forma alguma!
A voz estridente e demasiadamente alta vinha cortando o ar atrás de nós e se expalhando generosamente pelo silêncio do museu. Ao telefone uma mulher loira (bem, uma morena de cabelos pintados), sobre saltos de advogada e cercada da aura de longos anos de forum.
Olha só, o Dr. Tenório não é um moleque! Ele é um juiz de respeito e é claro que ficou magoado com isso! Ele está tão magoado que desligou o telefone…
Fomos nos sentando para pedir nosso chocolate enquanto a mulher e seu indiscreto celular sentavam logo mais atrás. Ao meu lado minha companheira com seu sorriso de lua crescente no céu de primavera já controlava o riso antes mesmo que eu começasse a fazer comentários! A esta altura já pudemos notar que havia um senhor mais velho ao lado dela, ou melhor, ao longe pois foi dar uma volta enquanto ela fazia do celular seu palanque! Seria ele o Dr. Tenório ?
Trabalho lá já faz 16 anos! Não é de hoje não! Eu tenho meus problemas, todo mundo tem, eu tenho problemas com um ex-marido, mas isso só é da minha conta!
E assim nossa tarde um pouco tensa, entre um passado já não mais desejado e um futuro incerto, por alguns minutos (na verdade quase 20) foi totalmente destacada do tempo e já não nos lembrávamos mais de passado ou futuro! A história do Dr. Tenório sua mágoa, o rapaz que sempre anda com ele para todo lado, sua amiga e os problemas com o ex-marido que só dizem respeito a ela e todos nós ali no museu preencheu nossa tarde de bom humor!
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Fragmentos 2
24th, September 2002
Um planador desliza silencioso no sopro morno da Terra e se enamora dos céus. O Sol se põe dando lugar à Lua e às estrelas mas a ele nada resta além de se entregar ao seio da amada Terra, o céu pertence às aves…
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Expectros Noturnos
23rd, September 2002
Quando já me pensava livre de um dia de trabalho aquele inconveniente aperelhinho trepidante que carregamos na cintura veio me incomodar, me chamando no meio da chuva torrencial de volta para aquele monolito oco onde sempre é dia, o ar é morto e as pessoas vagam esquecidas da vida que podem ter do lado de fora, zumbis…
Longas horas de espera observando a ampulheta se arrastar por minutos na tela a cada vez que tomava uma ação acabaram estendendo o momento do meu retorno ao mundo até que as 22h se encontraram no relógio que me olhava na parede sozinho, até parecia feliz com minha presença lá! Sinal de que eu estava mais cansado e entediado do que gostaria de estar! E finalmente parti.
Fui saindo pelos fundos, a chuva havia suspendido sua torrente para tomar novo fôlego, mas o frio era húmido, cortante e profundo. Vesti a aura de espectro noturno para me confundir e fui como sempre pelos caminhos escuros que tanto me atraem por menos que sejam prudentes.
Viro a esquina e, ao mesmo tempo que um vento forte e ainda mais gélido me atravessa, quase esbarro em uma figura pálida como cera. Cabelos loiros e bem lisos deslizando como um fino véu ao redor do rosto. O olhar pequeno e assustado perdido no rosto andrógino. Me surpreendo três vezes com a brancura da pele, no rosto, entre os seios semi nús, nas pernas expostas. O corpo quase todo nú se encolhe contra a esquina buscando proteção e os olhos parecem gritar sem saber se ficam em busca do dinheiro que os alimentará ou se fogem para o calor do lar, por mais simples que seja.
Por um instante o pouco preconceito que tenho se diluiu e quase parei diante daquela triste e desamparada figura! Parecia uma criança perdida dos pais! Bastaria levantar a mão, sem nem mesmo esticar o braço de tão perto que estávamos, para tocar aquela face fria e pergutar se precisava de ajuda, se estava tudo bem. O pensamento fugaz passou rapidamente deixando apenas um eco e não o fiz…
Sempre há mais sob as aparências externas do que nos acostumamos a ver! Sob os cobertores sujos do mendigo há uma criança que mamou em um seio, sonhou com o Papai Noel; um adolescente que se apaixonou e fez planos de morar em uma bela casa e ter um belo carro como os que a TV mostra que podem nos trazer a felicidade. Atrás de cada travesti também se encondem estes bebês, estas crianças…
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Jornadas Urbanas
22nd, September 2002
Não faz muito tempo, uns 200 anos no máximo, e não havia carros, somente cavalos! Visitar um amigo na cidade vizinha era aventura para os jovens e de boa saúde! Os quarenta anos já eram naturalmente acompanhados de pronomes pomposos: senhor, doutor…
Nossas paredes agora nos protegem melhor do frio, nossas roupas esquentam mais e molham menos. Carros mais rápidos e ruas de asfalto garantem viagens suaves até para os novos senhores que só apareem depois dos sessenta!
O conforto no entanto se acostuma aos edredons (originalmente eider downs - feitos com as penas do peito de passarinhos chonhecidos como Eider, acredite) e à imagem e sons digitais dos modernos DVDs.
Gente corajosa e destemida ainda sai às ruas cruzando o a chuva, o frio e o vento! Ah! O vento que torna inúteis todos os esforços das modernas roupas impermeáveis! Saem e desafiam os paquidérmicos ônibus que sacolejam mal humorados fazendo meia hora de viagem parecer tempo demais! E como estes bravos vagaram hoje pelas ruas frias! Um casal cheio de calor no meio dos ventos gelados, tudo por uma boa sessão de filmes enroscados em edredons sintéticos!
Já prontos para metamorfose de tão encasulados, prontos em espírito e roupas para dormir em breve, toca o telefone! Um amigo; destes que se perdem no meio de agendas tiranas ou vitimas dos próprios monstros interiores que nos fazem crer que não temos tempo para nós mesmos, para as coisas simples da vida e para as mais valiosas como amizades sinceras ou momentos de contemplação dos rítmos da vida.
Somente a cada um de nós cabe realmente saber o que nos leva a nos perder desta forma, assim, recolhendo toda a nossa força de vontade, desafiando o frio e a água que insistia em se precipitar do céu nos livramos do calor aconchegante das cobertas e fomos encontrar outro calor melhor! O da companhia de bons amigos! Mas confesso que não foi com pouco esforço! É assim mesmo! Entre os confortos modernos se não nos esforçamos acabamos presos em jaulas disfarçadas com o cetim da TV a cabo, dos colchões de mola, da internet (e sua ilusão de companhia).
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Fragmentos
18th, September 2002
Nem sempre o amor ecoa da mesma forma nos corações enamorados…
Um ama com o ardor das estrelas, ou outro, com a suavidade da bruma…
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